São Paulo – Os preços de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos estão elevados e afetando a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro. Dois dos principais motivos são o conflito no Oriente Médio e as restrições de exportações da China. Segundo especialistas que nesta quinta-feira (30) participaram do encontro online “Volatilidade dos fertilizantes: geopolítica, preços e como o produtor pode reduzir riscos”, promovido pela SCA Brasil Aliança, a tendência é de preços altos pelos próximos meses.
De acordo com a especialista em Precificação de Agricultura e Fertilizantes da Argus Media, Renata Cardarelli, o conflito no Golfo impacta no escoamento de ureia, um fertilizante nitrogenado, pelo Estreito de Ormuz. Além de afetar o fornecimento a clientes finais, o conflito prejudica quem compra matéria-prima para produzir fertilizantes. Pelo Estreito de Ormuz são transportados aproximadamente 16% dos fertilizantes fosfatados, 35% dos nitrogenados e 50% do enxofre consumidos no mundo.
“O preço da ureia é muito volátil e reage muito ao Oriente Médio, que é uma região chave para a produção de nitrogenados. Também há preocupação com gás natural, porque ele é insumo para a produção de nitrogenados”, disse Cardarelli. A esses elementos, um outro contribui para pressionar os preços dos fertilizantes: desde março, a China restringe a exportação do produto para proteger o mercado interno.
A situação atual já levou o Brasil a procurar outros fornecedores, disse o head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA Brasil Aliança, Marcelo Soto. Um deles é a Nigéria, país com excedente de dois milhões de toneladas de fertilizantes. Outro é a Bolívia. “Quando existe um problema nesta região [Oriente Médio], ele fortalece o preço dos fertilizantes em outras praças. O preço da ureia, por exemplo, pode subir US$ 100 dólares em um dia e, também, cair rapidamente”, afirmou Soto.
A alta nos preços dos fertilizantes cria desafios em toda a cadeia produtiva do setor, indicaram os especialistas. O frete marítimo fica mais caro em razão do preço maior cobrado pelo seguro para o transporte desta carga nas regiões de conflito. Preços mais altos podem levar o agricultor a postergar a decisão de compra de fertilizantes. Como consequência, esta decisão pode levar a um acúmulo do produto sendo desembarcado nos portos brasileiros e, portanto, maior custo com taxas portuárias, explicaram os participantes do encontro.
Dono de uma das maiores lavouras do mundo e um dos maiores fornecedores mundiais de grãos, o Brasil é um grande consumidor de fertilizantes e dependente de fornecimento externo. Aproximadamente 95% dos nitrogenados e dos potássicos são importados. Entre os fosfatos, a proporção é de cerca de 70%. O governo tem investido na retomada de plantas produtoras no Brasil, especialmente por meio da Petrobras, mas o País continuará dependente de fornecimento externo nos próximos anos.
Tanto Soto como Cardarelli afirmaram que, mesmo que o conflito no Oriente Médio se encerre no curto prazo, há uma tendência de os preços continuarem elevados em razão da concorrência por fertilizantes no mercado internacional. Por isso, os dois recomendaram que os produtores se planejem com antecedência para a compra de adubos.


