São Paulo – O Dubai Multi Commodities Centre (DMCC), nos Emirados Árabes Unidos, bolsa em que se negociam diversas commodities agrícolas e minerais, anunciou neste mês que irá criar uma plataforma de negócios dedicada à comercialização de cacau. A expectativa é que o Cocoa Center (centro de cacau), como o hub de negócios está sendo chamado, seja inaugurado em fases. À ANBA, o presidente executivo e CEO do DMCC, Ahmed Bin Sulayem, afirmou que o novo espaço oferece aos produtores, entre eles brasileiros, oportunidades de alcançar mercados, captura de valor para o produto e melhor acesso a capital.
De acordo com dados apresentados pelo executivo, o mercado da commodity foi estimado em US$ 16,6 bilhões em 2025 e deverá crescer para US$ 26,2 bilhões até 2035. A produção, por sua vez, está em queda: em razão de pressões climáticas e pragas, a safra 2023/2024 foi 13,3% menor em relação à colheita anterior e somou 4,4 milhões de toneladas.

Outro desafio que o executivo apresentou foi a geração de valor na cadeia produtiva. A maior parte da oferta global, diz, é fornecida por 5 milhões a 6 milhões de pequenos produtores, porém a maior parte de valor do produto é agregada em etapas posteriores. “Nosso objetivo é construir uma plataforma que conecte os produtores de forma mais direta aos mercados, ao capital e a serviços de valor agregado”, afirmou Sulayem em entrevista por escrito.
A proposta do DMCC é oferecer a comercialização da commodity em um ambiente de conformidade, que atenda às demandas dos mercados internacionais regulados. “O que isso nos mostra é que o cacau deixou de ser apenas uma commodity agrícola. Está se tornando um caso de teste de como o comércio global se adapta à volatilidade, à regulação e às mudanças na demanda dos consumidores”, afirmou, destacando que o setor tem se adaptado a padrões obrigatórios de sustentabilidade e rastreamento.
Sulayem cita como exemplos do modelo de negócios os centros de café e de chá já existentes no DMCC. Tais centros oferecem classificação, armazenamento, mistura, embalagem e acesso a financiamento, o que deverá ser replicado nesta nova iniciativa.
“O Centro de Cacau se baseará nessa fundação, ao mesmo tempo em que introduz novas capacidades dedicadas. Estamos trabalhando com nossos parceiros Kumbi Cocoa e Ribezzi Group para avaliar e desenvolver infraestrutura integrada para armazenar, comercializar e processar grãos de cacau em produtos semiacabados, como liquor de cacau [massa de cacau], manteiga de cacau e pó de cacau. Isso é crucial porque o valor nesse mercado está sendo cada vez mais criado na etapa de processamento e não apenas na exportação de grãos brutos”, afirmou.
Oportunidade para produtor brasileiro de cacau
Sulayem também comentou sobre as oportunidade que o centro de cacau oferecerá aos produtores brasileiros. Ele avalia que, até 2030, o Brasil deverá produzir 400 mil toneladas métricas de cacau, o que tornaria o país autossuficiente na produção da commodity. O passo seguinte, seria se tornar um exportador líquido – que exporta mais do que importa. Segundo estimativas da Organização Internacional do Cacau (ICCO, na sigla em inglês), a safra 2024/2025 do Brasil foi de 210 mil toneladas. Pará e Bahia são os principais estados produtores.
Embora a África Ocidental seja o maior produtor mundial de cacau, os fornecedores da América Latina surgem como parceiros alternativos confiáveis, afirmou o executivo. O Equador, ampliou sua produção em 84% entre 2014 e 2024 e hoje é o segundo maior produtor mundial de cacau, atrás da Costa do Marfim.
Ele disse que, para os participantes brasileiros, o centro de cacau do DMCC oferece três oportunidades principais: acesso ampliado a mercado; captura de valor para o produto e acesso a capital. Ainda sobre o Brasil, Sulayem observou que o método de plantio do País oferece vantagem em comparação com outros países.
“O Brasil também traz uma proposta diferenciada para essa discussão: seu sistema agroflorestal Cabruca, no qual o cacau cresce sob a copa de florestas nativas, é um modelo rastreável e livre de desmatamento que conquista posicionamento premium genuíno nos mercados internacionais. Para produtores brasileiros focados em cacau de aroma fino, orgânico ou certificado sustentável, Dubai oferece uma rota direta para mercados consumidores em rápido crescimento no Oriente Médio e na Ásia”, disse.
Sulayem afirmou que a implantação do centro será realizada em fases e que está conduzindo com seus parceiros os detalhes das próximas etapas. Inicialmente, o centro irá aproveitar a infraestrutura de commodities agrícolas que já existe.
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