São Paulo – A inclusão do idioma português na edição 2027 do Prêmio Sheikh Hamad de Tradução e Entendimento Internacional, do Catar, foi lançada oficialmente nesta segunda-feira (19), por representantes da premiação, na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, na capital paulista. O prêmio reconhece trabalhos de tradução entre o árabe e outros idiomas falados mundo afora, e o português foi incluído pela segunda vez, permitindo que brasileiros que atuam na tradução concorram. As inscrições serão abertas em 1º de janeiro de 2027 e se encerram no dia 30 de março de 2027.

O prêmio tem duas categorias: Realização, focada na carreira inteira de um tradutor ou na trajetória de uma organização com a tradução, e Livro Individual, que reconhece individualmente a tradução de uma obra publicada. Já é certo que o português fará parte da categoria Realização no ano que vem, mas a organização ainda está avaliando se inclui o idioma também na outra divisão do prêmio, a do Livro Individual.
De acordo com informações dadas à ANBA pelo diretor executivo do prêmio, Labib Nahhas, a categoria Livro Individual tem como foco a qualidade e a importância do livro na cultura original e de destino da publicação. “Na categoria Realização nos concentramos na carreira inteira do tradutor ou da organização, todos os livros traduzidos ao longo, talvez, de décadas, mas também no tema do entendimento internacional, vemos quais atividades, quais iniciativas essa organização ou pessoa fez para aproximar a cultura árabe do Brasil (no caso de inscrição brasileira) e vice-versa”, explicou.

O prêmio escolhe anualmente duas a três línguas amplamente faladas no mundo, como inglês, espanhol e chinês, sendo o inglês fixo todos os anos, e, além disso, seleciona mais duas a quatro línguas menos difundidas, como italiano e japonês, para que concorram. As línguas amplamente faladas podem participar nas duas categorias. “O português até o momento está entre as línguas menos difundidas, mas pode ser que passe para a categoria de amplamente falada para o prêmio”, explicou Nahhas.
O Prêmio Sheikh Hamad de Tradução e Entendimento Internacional vai distribuir US$ 2 milhões aos premiados. Normalmente há vários ganhadores nas diferentes categorias. Nahhas afirma que para a premiação voltada ao idioma português serão destinados, pelo menos, US$ 200 mil. Podem concorrer em traduções árabe-português os profissionais e as organizações que trabalhem com a língua portuguesa em qualquer parte do mundo, inclusive em Portugal, e não apenas no Brasil ou brasileiros.

O Brasil, no entanto, foi escolhido para receber visita da delegação do prêmio, que inclui, além de Nahhas, o diretor-geral, Mohammad Al-Ahmari, o chefe de Mídia, Abdulrahman Al-Marri, e o membro do Comitê Científico responsável pela condução do prêmio e chefe do Departamento de Tradução, Mujab Al-Imam. O grupo abriu a agenda de compromissos com o lançamento na Câmara Árabe e terá atividades em São Paulo e Rio de Janeiro nos próximos dias, com encontros com tradutores, professores, editoras e acadêmicos em geral. Na Biblioteca Nacional, no Rio, será realizado seminário na sexta-feira (23).
Foi a primeira visita dos promotores do prêmio ao Brasil, segundo disse Al-Marri no evento. “Analisamos o movimento da tradução árabe-português. O Brasil surgiu como uma força grande. Então tivemos que visitar o Brasil, tivemos que investir nessa visita. É uma oportunidade única para acompanhar o movimento de tradução do árabe para o português.” Ressaltando o trabalho da tradução, Al-Marri falou o trecho “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”, do poema “Canção do Exílio”, do brasileiro Gonçalves Dias. “Os tradutores são os sabiás que cantam em todos as terras. E que o sabiá cante em todas as línguas”, disse.
O encontro na Câmara Árabe foi aberto pela vice-presidente de Marketing, Silvia Antibas, que falou do trabalho da Câmara Árabe, ressaltando as ações culturais. Também fizeram breves apresentações a professora visitante da Cátedra Edward Saïd de Estudos da Contemporaneidade na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Christina Stephano de Queiroz, que contou sobre o Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil e falou a importância da tradução e da preservação de acervos, e a presidente do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe), Natália Nahas Calfat, que ressaltou os elos entre Brasil e mundo árabe e o papel da língua e da tradução na manutenção desses laços.
Premiada
Na outra oportunidade em que o Prêmio Sheikh Hamad de Tradução e Entendimento Internacional abriu inscrições para trabalhos em português, em 2019, a professora de Língua Árabe e Literatura Árabe na Universidade de São Paulo (USP), Safa Jubran, foi premiada. Falando no evento nesta segunda-feira, a professora descreveu diferentes momentos da tradução da literatura árabe no Brasil, com o país tendo tradição nos estudos e traduções árabes, mas presença pontual da literatura árabe no mercado editorial comercial e com movimento de impulso mais recente na área, após a premiação.
“Hoje temos editoras brasileiras que buscam obras diretamente nos países árabes, negociam os seus direitos e começam a olhar para essa produção sem depender necessariamente da mediação prévia de Paris, de Londres, de Nova Iorque, de Berlim ou de outros e grandes centros editoriais”, relatou ela. Safa disse esperar que o prêmio seja visto não apenas como forma de reconhecimento por trabalho já realizado, mas também como incentivo à tradução, à formação de novos tradutores e às publicações.
Participaram do evento na Câmara Árabe o vice-presidente de Relações Internacionais e secretário-geral da instituição, Mohamad Orra Mourad, o diplomata do Consulado-Geral do Catar em São Paulo, Khalifa Najeeb Alsada, o diretor da Câmara Árabe, Arthur Jafet, entre outros representantes de instituições e interessados na premiação. A mestre de cerimônias foi a diretora de Marketing da Câmara Árabe, Marina Sarruf.
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