Por Samir Nemer*
A maior transformação nos fluxos globais de investimento das últimas décadas talvez não esteja ocorrendo em Nova York, Londres ou Tóquio, mas em Abu Dhabi, Riad e Doha.
Esse movimento não é conjuntural. Trata-se de uma transformação estrutural da economia mundial, impulsionada não apenas pelo acúmulo de riqueza decorrente da exploração de petróleo e gás natural, mas, sobretudo, pela decisão estratégica desses países de converter essa riqueza em influência econômica global. A percepção de que o petróleo deixará de ocupar, nas próximas décadas, a posição central que desempenhou ao longo do século XX levou governos da região a acelerar programas de diversificação econômica e internacionalização de seus investimentos.
Iniciativas como a Saudi Vision 2030, a estratégia We the UAE 2031 e programas semelhantes implementados por Catar, Omã, Kuwait e Bahrein refletem essa nova realidade. Por meio dessas políticas públicas, parte significativa dos recursos gerados pelo setor de energia passou a ser direcionada para investimentos produtivos em diferentes continentes, abrangendo infraestrutura, logística, tecnologia, saúde, segurança alimentar, mineração, energia renovável e inovação.
Nesse contexto, os fundos soberanos assumiram um papel de destaque. Instituições como a Abu Dhabi Investment Authority (ADIA), a Mubadala Investment Company, o Public Investment Fund (PIF), da Arábia Saudita, a Qatar Investment Authority (QIA) e a ADQ administram, em conjunto, trilhões de dólares em ativos, figurando entre os maiores investidores institucionais do planeta. Mais do que buscar rentabilidade financeira, esses fundos procuram construir parcerias duradouras, diversificar as economias de seus países e garantir presença em setores considerados estratégicos para o futuro.
É justamente nesse cenário que o Brasil passa a ocupar uma posição singular.
Poucos países conseguem reunir, simultaneamente, a combinação de atributos presentes na economia brasileira: abundância de recursos naturais, liderança mundial na produção de alimentos, matriz elétrica predominantemente renovável, reservas relevantes de minerais críticos, crescente potencial para produção de hidrogênio de baixo carbono, posição geográfica privilegiada e um dos maiores mercados consumidores do mundo.
Essa combinação explica por que o interesse do capital árabe pelo Brasil deixou de ser episódico para tornar-se estratégico.
Os números confirmam essa aproximação. O comércio entre o Brasil e os países árabes permanece em patamar elevado, impulsionado principalmente pelos setores de alimentos, proteínas, açúcar, café, minério, produtos químicos e manufaturados. Paralelamente, observa-se uma presença crescente de investidores árabes em ativos brasileiros de infraestrutura, logística, energia renovável, biocombustíveis, saneamento, tecnologia, agronegócio e economia digital.
Mais do que o crescimento do fluxo comercial, percebe-se uma mudança qualitativa na natureza dessa relação. Investidores árabes deixaram de concentrar sua atenção exclusivamente na aquisição de commodities e passaram a buscar participação em ativos capazes de gerar valor no longo prazo. Projetos de infraestrutura, concessões públicas, transição energética, logística portuária, data centers, inteligência artificial, inovação tecnológica e segurança alimentar passaram a ocupar posição central em suas estratégias de internacionalização. Trata-se de um movimento coerente com a transformação econômica em curso nos países do Golfo, que buscam reduzir sua dependência das receitas petrolíferas e construir economias mais diversificadas, inovadoras e resilientes.
Não por acaso, fundos soberanos e grandes grupos empresariais da região passaram a disputar oportunidades que, há poucos anos, sequer faziam parte de seu radar.
Há, contudo, uma percepção equivocada ainda bastante difundida no meio empresarial brasileiro: a de que basta possuir um bom projeto ou uma empresa lucrativa para atrair capital estrangeiro.
Na realidade, nunca houve tanta concorrência entre países e empresas pela atenção dos grandes investidores internacionais.
Chile, México, Índia, Indonésia, Vietnã, Marrocos e diversas outras economias emergentes disputam diariamente os mesmos recursos destinados à expansão global desses fundos. Todos oferecem projetos atrativos, estabilidade relativa e perspectivas de crescimento. Isso significa que o Brasil já não compete apenas internamente. Compete com o mundo.
Nesse ambiente, fatores tradicionais — como disponibilidade de recursos naturais, dimensão do mercado consumidor ou potencial de crescimento — continuam extremamente relevantes, mas deixaram de ser suficientes.
O que diferencia uma empresa diante de um investidor internacional raramente está apenas em seus ativos físicos ou em seus resultados financeiros.
Está, sobretudo, na confiança que ela consegue transmitir.
Em um ambiente internacional marcado por incertezas geopolíticas, rápidas transformações tecnológicas e crescente rigor regulatório, previsibilidade tornou-se um dos ativos mais valiosos de qualquer organização. Investidores procuram empresas capazes de demonstrar estabilidade decisória, transparência na condução dos negócios, segurança jurídica e capacidade de adaptação. Em outras palavras, procuram parceiros que inspirem confiança antes mesmo da assinatura de qualquer contrato.
É justamente nesse aspecto que muitas empresas brasileiras ainda enfrentam dificuldades.
Embora possuam elevada capacidade técnica, equipes qualificadas e produtos altamente competitivos, frequentemente chegam despreparadas à mesa de negociação porque concentram seus esforços apenas na demonstração de resultados econômicos, negligenciando fatores que, para o investidor internacional, podem ser ainda mais relevantes.
Talvez o maior equívoco cometido por empresários seja imaginar que investidores estrangeiros analisam exclusivamente indicadores financeiros.
Naturalmente, faturamento, geração de caixa, rentabilidade e perspectivas de crescimento constituem elementos essenciais de qualquer investimento.
Entretanto, eles representam apenas o ponto de partida.
Na prática, investidores institucionais realizam uma avaliação muito mais abrangente. Procuram compreender como aquela empresa funciona por dentro. Quem realmente toma as decisões? Como são solucionados conflitos entre sócios? Existe planejamento sucessório? Os contratos estratégicos estão organizados? Os riscos tributários foram identificados e adequadamente gerenciados? Há processos judiciais capazes de comprometer a operação? As demonstrações financeiras refletem, com fidelidade, a realidade econômica da empresa? Existem políticas mínimas de integridade e compliance?
Essas perguntas costumam receber muito mais atenção durante uma due diligence do que muitos empresários imaginam.
Em última análise, investidores árabes não buscam apenas bons negócios, mas parceiros confiáveis. Projetos despertam interesse; empresas preparadas inspiram confiança. Em um mercado global cada vez mais competitivo, é essa confiança — construída por meio de governança, transparência e visão de longo prazo — que transforma oportunidades em investimentos concretos.
*Samir Nemer é advogado com atuação em projetos de infraestrutura, energia e setores regulados, doutorando e mestre em Direito Tributário pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito SP e sócio do escritório FurtadoNemer Advogados. Foi Secretário de Estado do Governo do Espírito Santo e diretor jurídico da Federação das Indústrias do Espírito Santo.
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