Gertrude da Ar√°bia

Peça de teatro encenada em Roma conta a história de Gertrude Bell, a estudiosa inglesa considerada a cabeça fundadora do estado moderno do Iraque, na década de 1920.

Cl√°udia Abreu
claudia@anba.com.br

Roma, It√°lia ‚Äď Escritora, orientalista, arque√≥loga, funcion√°ria de confian√ßa do primeiro-ministro Winston Churchill no Oriente M√©dio, pe√ßa chave para a cria√ß√£o dos estados do Iraque, S√≠ria e Jord√Ęnia no in√≠cio do s√©culo passado, autora de livros at√© hoje estudados pelos Servi√ßos de Intelig√™ncia dos Estados Unidos e da Inglaterra e defensora ferrenha da paz da regi√£o. Trata-se da inglesa Gertrude Bell, personagem que teve sua rica, mas desconhecida hist√≥ria encenada no Teatro Belli, em Roma, no espet√°culo "La Regina Senza Corona" (A rainha sem coroa, em portugu√™s), de Massimo Vincenzi.

A pe√ßa foi inspirada no livro "Desert Queen", da autora e tamb√©m orientalista Janet Wallach, publicado pela primeira vez em 1999 e reeditado em 2006, para as comemora√ß√Ķes de oitenta anos da morte de Gertrude Bell, que faleceu em 1926, em Bagd√°. "√Č uma personagem fascinante e fundamental para a hist√≥ria do Oriente M√©dio. Seus escritos e livros, por exemplo, est√£o sendo estudados pelos militares americanos hoje", conta a atriz italiana Francesca Bianco, que interpreta Gertrude nos palcos romanos.

Gertrude nasceu na Inglaterra em 1868. Fazia parte de uma família de industriais do aço em ascensão no país, eram os novos nobres da Inglaterra daquele período. Com uma excelente educação, aos 18 anos entrou para a Universidade de Oxford, um ambiente de homens, e foi a primeira mulher na Inglaterra a se formar em História Moderna pela faculdade. No universo acadêmico, sofreu preconceitos, como mostra a peça na cena em que Gertrude lembra de quando o reitor da universidade disse, em discurso aberto aos recém-chegados, que as mulheres, apesar de inferiores, começavam a fazer parte da universidade. Mas Gertrude logo provou o contrário.

A paixão pelo Oriente Médio

Aos 22 anos, a jovem Gertrude come√ßou suas viagens pela Europa. Foi para a Rom√™nia, Alemanha e Turquia, onde foi hospedada por um tio diplomata. A paix√£o pelo Oriente M√©dio foi despertada ap√≥s uma viagem √† P√©rsia, aos 24 anos. Por causa de um amor que n√£o deu certo, Gertrude descobriu um mundo novo, que a seduziria mais do que qualquer outro homem, como mostra o espet√°culo. Dos relatos de viagem, Gertrude escreveu ‚ÄúPersian Pictures‚ÄĚ (reeditado em 2005 pela editora inglesa Anthem). Em 1899, se transferiu a Jerusal√©m para estudar o idioma √°rabe e arqueologia, e come√ßou a tra√ßar sua futura grande viagem pela Ar√°bia, ent√£o dominada pelo Imp√©rio Turco Otomano.

A viagem durou dois anos. Gertrude foi a regi√Ķes onde hoje est√£o Palestina, Israel, Iraque, Jord√Ęnia, S√≠ria e Egito. Visitou toda a massa de povos do Oriente M√©dio e Norte da √Āfrica. Nesse per√≠odo, Gertrude estabeleceu la√ßos diplom√°ticos importantes com xeques e nobres √°rabes. Sempre elegante, bem vestida, fluente em cinco l√≠nguas (ingl√™s, alem√£o, italiano, turco e, por √ļltimo, √°rabe), Gertrude se movia com facilidade pelo mundo √°rabe. O deserto e suas cores m√°gicas, seus sabores e o seu povo t√£o fiel e solar, como escreve sua bi√≥grafa, cada vez mais a estimulavam e ela escreveu mais um best seller, "The Desert and the Sown" (reeditado em 2001 pela editora Cooper Square).

A aventureira

Na entrada do s√©culo 20, o mundo √°rabe vira sua p√°tria, seu trabalho e sua raz√£o para viver. Em 1906, Gertrude faz mais uma longa viagem, desta vez √† Indiana Jones, por regi√Ķes inexploradas, tribos isoladas, guerreiros do deserto. Faz imagens, desenha mapas, cruza fronteiras que somente anos depois existiriam, escreve e informa √† Inglaterra sobre a situa√ß√£o na regi√£o, trabalha como espi√£ para os brit√Ęnicos. Pelo caminho, no Egito, encontra o jovem Thomas E. Lawrence, o Lawrence da Ar√°bia (eternizado pelo extraordin√°rio filme de David Lean, de 1962), que aos 23 anos fica fascinado por uma Gertrude s√°bia, com ares de celebridade, respeitada no mundo √°rabe e na Europa. "Ela foi uma esp√©cie de professora para Lawrence, chamava-o ‘meu caro garoto’", diz Francesca.

Com interesses comuns pela regi√£o e temerosos de que a Alemanha, ajudada pela Turquia, dominasse todo o Oriente M√©dio durante a Primeira Guerra Mundial, onde jorrava o petr√≥leo para a Inglaterra, Gertrude e Lawrence se aliaram. O objetivo era dialogar com os √°rabes e convenc√™-los a se unirem contra o dom√≠nio turco. Coube a Gertrude falar com os seus muitos amigos nobres, com as fam√≠lias capazes de governar os pa√≠ses que a inglesa pensava em criar, entre eles o Iraque. Foi num documento de Gertrude √† Intelig√™ncia Inglesa que surgem, pela primeira vez, os nomes de Hussein Ibn Ali (l√≠der da Revolta √Ārabe e pai dos futuros reis do Iraque, Faisal, e da Jord√Ęnia, Abdullah) e Abdul Aziz Al Saud (ou Ibn Saud, que se tornou o primeiro rei da Ar√°bia Saudita entre 1932 e 1953), como potenciais lideran√ßas na regi√£o.

Arquiteta do Oriente Médio

Os anos seguintes foram intensos para Gertrude. Com a Primeira Guerra em curso e a Revolta √Ārabe tomando forma, ela √© a arquiteta inglesa no Oriente M√©dio. E faz jus ao cargo, propondo a cria√ß√£o do estado iraquiano. Mas o projeto foi rejeitado. Na √©poca, pensava-se na Grande S√≠ria, sob o comando do rei Faisal. Somente alguns anos depois, em 1921, √© que a proposta foi aceita e Gertrude nomeada secret√°ria Oriental no pa√≠s rec√©m-criado. Nascem tamb√©m as fronteiras da S√≠ria e a chamada Transjord√Ęnia (hoje Jord√Ęnia e Cisjord√Ęnia). √Č o fim do dom√≠nio turco otomano e do perigo alem√£o.

A tarefa de Gertrude com a Inglaterra parecia ter chegado ao fim e a inglesa ent√£o decidiu ficar em Bagd√° para ajudar a construir o pa√≠s, influenciando diretamente o rei Faisal a criar uma monarquia constitucional, o que levou o Iraque a ser a primeira na√ß√£o √°rabe na Liga das Na√ß√Ķes, em 1932. Com o respeito do monarca, a inglesa criou o Museu de Bagd√° e se dedicou √† arqueologia. Mas os tempos de paz pareciam nunca chegar e os √ļltimos anos de Gertrude em terras √°rabes foram, segundo sua bi√≥grafa, infelizes. A hero√≠na se isolou.

P√°tria √°rabe

Por conta de seu amor ao mundo √°rabe e a sua incans√°vel luta pela paz na regi√£o, acabou rompendo com o governo ingl√™s quando o Iraque clamou por sua independ√™ncia (que acabou conquistando em 1932) e a Inglaterra amea√ßou com outra guerra. ‚ÄúGertrude sonhava e pregava a paz, o di√°logo, acreditava que, com armas, n√£o se poderia impor a liberdade‚ÄĚ, diz Francesca Bianco. O mesmo sonho da segunda personagem da pe√ßa, tamb√©m interpretada por Francesca, mas uma marine norte-americana em plena guerra do Iraque, em 2003.

Em 1926, √†s v√©speras de completar 58 anos, em Bagd√°, com uma dose extra de son√≠feros, Gertrude Bell, a fundadora do Iraque, faleceu. Deixou toda a sua heran√ßa ‚Äď cerca de 50 mil libras esterlinas, um grande valor na √©poca – para o museu que criou no pa√≠s √°rabe. Foi enterrada no cemit√©rio ingl√™s em Bagd√°. "Em 2003, seu museu e o cemit√©rio onde foi enterrada desapareciam da hist√≥ria, queimados pelos bombardeios dos americanos, com o apoio dos ingleses", conta Francesca.

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