Por Nabil Adghoghi*
As recentes tensões no Estreito de Ormuz, somadas às perturbações das cadeias de valor observadas desde o início da guerra na Ucrânia, evidenciam o impacto direto das ameaças geopolíticas sobre os corredores logísticos, os mercados de energia e as cadeias industriais e levam Estados e empresas a diversificarem suas fontes de abastecimento, a relocalizarem as cadeias de produção e a redesenharem as rotas do comércio mundial.
Diante desse cenário, o Marrocos procura tirar o máximo proveito de sua localização estratégica, na interseção entre a África, a Europa e as Américas, afirmando-se como um “global player” nas áreas da segurança alimentar, da logística aérea e marítima, da energia verde e da mobilidade sustentável.
Casablanca está se tornando um hub aéreo de dimensão internacional (20 milhões de passageiros a partir de 2029 e uma frota de 200 aeronaves para a companhia Royal Air Maroc); o porto de Tanger Med figura entre os dez maiores do mundo (quase 11 milhões de contêineres movimentados e uma zona industrial de 3.000 hectares que abriga mais de 1.500 empresas); Jorf Lasfar é o principal polo mundial de produção de fertilizantes fosfatados; o complexo portuário de Dakhla Atlantique será, a partir de 2028, o hub logístico para a África Ocidental e o Sahel; Marrakech atrai a maior parte dos 20 milhões de turistas que visitam o Marrocos anualmente; as principais redes do turismo mundial vêm realizando investimentos expressivos em todo o país; o Marrocos é hoje em dia um “canteiro de céu aberto” com tantas obras de infraestrutura na perspectiva de receber o Mundial de futebol em 2030.
São inúmeros casos de sucesso que confirmam o bom momento vivido pelo Marrocos e a pertinência de escolhas estratégicas adotadas sob a liderança direta de Sua Majestade o Rei Mohammed VI : uma ampla rede de acordos de livre-comércio, em particular com a União Europeia e os Estados Unidos; uma atração sustentada de investimentos estrangeiros diretos, principalmente da China; uma infraestrutura de qualidade; uma abertura em direção à África e uma aposta bem-sucedida nas energias renováveis, na indústria descarbonizada e nos biofertilizantes.
Uma posição de liderança na segurança alimentar
Com mais de 70% das reservas mundiais de fosfato, o Marrocos é um dos principais protagonistas do mercado global de fertilizantes. Entre 2005 e 2025, a capacidade de produção de fertilizantes foi multiplicada por cinco, passando de 3 para 15 milhões de toneladas. Além disso, os investimentos em energia solar, amônia verde e descarbonização ilustram a ambição do Reino de conciliar segurança alimentar, soberania industrial e transição ecológica.
Um hub logístico competitivo
Com mais de onze milhões de contêineres movimentados anualmente, conexões com mais de 180 portos em 70 países e um ecossistema industrial que reúne mais de 1.500 empresas, Tanger Med tornou-se um dos principais hubs logísticos do mundo, conectando a Europa, a África, as Américas e a Ásia. Esse posicionamento logístico do Marrocos se estenderá, a partir de 2028, para o Atlântico Sul, por meio do porto de Dakhla Atlantique, cuja vocação será otimizar os corredores logísticos marítimos da África Ocidental e do Sahel.
Nesse mapeamento logístico, Nador West Med será o terceiro pilar da estratégia portuária marroquina. Implantado no Mediterrâneo, esse complexo portuário de águas profundas está destinado a tornar-se um importante polo de transbordo, indústria e energia. A sua zona industrial e logística já vem atraindo investimentos expressivos da China, principalmente nas áreas de energia verde e na mobilidade elétrica.
Com Tanger Med, Dakhla Atlântico e Nador West Med, o Marrocos se posiciona como um dos principais polos logísticos do Atlântico e do Mediterrâneo.
Uma transição energética bem sucedida
O Marrocos iniciou, desde 2008-2009, uma profunda mudança do seu modelo energético, no objetivo de potencializar as 3.000 horas de sol por ano e um dos melhores corridores eólicos no Atlântico. О país já ultrapassou os 4.000 MW de capacidade renovável instalada e prossegue o objetivo de elevar para 52% a participação das energias renováveis na sua matriz elétrica até 2030. O complexo solar Noor, em Ouarzazate, bem como os grandes parques eólicos de Tarfaya e Taza, são exemplos concretos desta dinâmica.
Esta estratégia traduz-se igualmente no lançamento da “Oferta Marrocos” para o hidrogênio verde. O país planeja dedicar gradualmente um milhão de hectares para projetos relacionados a esse setor, incluindo 300.000 hectares na primeira fase.
Em 2025, Rabat aprovou potenciais projetos de investimento no valor de US$ 33 bilhões realizados por consórcios internacionais, incluindo projetos de investimento da TotalEnergies no Sul do Marrocos, que visa a produção anual de 200.000 toneladas de amônia verde para exportação.
O custo de produção de hidrogênio verde no Marrocos pode ser entre US$ 1,5 e US$ 2,5 por quilo até 2050, tornando o país entre os mais competitivos do setor.
Uma plataforma industrial atrativa
O Marrocos ambiciona posicionar-se nas cadeias de valor que irão estruturar a economia descarbonizada e se tornou assim um destino atrativo para investimentos ligados à mobilidade elétrica e às tecnologias de baixo carbono.
Esta dinâmica é particularmente visível nas parcerias desenvolvidas com a China. Primeiro país africano a aderir à iniciativa Belt and Road, em 2017, Marrocos tornou-se uma plataforma atrativa para empresas chinesas que pretendem aproveitar os acordos de livre-comércio firmados por Marrocos com a União Europeia, a EFTA, os Estados Unidos, assim com África (ZLECA).
De Tanger Tech a Kénitra, está gradualmente emergindo um ecossistema industrial completo em torno da mobilidade elétrica. A construção de uma gigafactory de baterias de US$ 1,3 bilhão pelo grupo chinês Gotion High-Tech ilustra a dimensão desta ambição. A Volkswagen (Alemanha) detém 25% da empresa, demonstrando a crescente convergência de interesses industriais europeus e asiáticos em torno da plataforma Marrocos. A fabricante de pneus Sentury Tire, a BTR New Material Group, líder mundial em materiais de ânodo para baterias, bem como a APG, especializada em sistemas de travagem, participam igualmente na construção de um ecossistema industrial de nova geração.
A ambição de Marrocos é de dispor, até 2030, de uma cadeia de valor completa para o veículo elétrico, com uma capacidade de produção de 500.000 veículos por ano. Esta estratégia apoia-se no sólido desempenho da indústria automobilística marroquina, que produz cerca de 700.000 veículos por ano e gera exportações no valor de US$ 16,5 bilhões anuais.
*Nabil Adghoghi é embaixador do Marrocos no Brasil e decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Braisl.
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