São Paulo – Felipe Aburachid chegou ao Brasil nos anos 1910, com apenas 12 anos, e foi direto para Belo Horizonte tentar a vida. Seus únicos parentes que já moravam no país eram uns primos que viviam no Riode Janeiro. Tão jovem, quase uma criança ainda, sem falar sequer oi em português, por que não foi viver junto aos seus? “Porque a capital mineira era uma cidade nova e cheia de oportunidades”, conta o neto Frederico Aburachid, advogado e empresário que até abril deste ano era presidente da Fundação Libanesa de Minas Gerais (Fuliban). Em BH, seu avô Felipe, que viveu até os 90 anos, fez o percurso de outros tantos libaneses, mascateou até abrir seu próprio negócio, uma confecção. Depois, nos anos 1960, seu pai, junto ao irmão, criou outra confecção, a Marcel Philippe, que existe até hoje.

São histórias como a de sua família que Frederico queria reunir quando teve a ideia de criar o Memorial da Imigração Libanesa em Minas Gerais, projeto da Fuliban que engloba o site, no qual descendentes podem se inscrever para contar suas histórias, redes sociais, palestras pontuais e uma exposição itinerante que vai percorrer outras cidades do estado (por enquanto segue em Belo Horizonte). Além de reunir a comunidade e preservar a memória das famílias, o memorial é também uma forma de contar a história da própria Fuliban, que completou 55 anos em 2025, quando o projeto do foi lançado oficialmente.
Aprovado via Lei Rouanet, o memorial teve Rodrigo Ayupe, do Núcleo de Estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), como pesquisador. No site e na exposição, há uma linha do tempo que conta a saga dos libaneses mineiros. “Além das histórias contadas, na exposição o visitante pode ‘viajar’ para o Líbano com óculos 3D e passear por locais tradicionais do país”, explica Frederico.

O pré-lançamento do projeto foi feito no Palácio da Liberdade, região central e ponto cultural da cidade mineira, e contou com o apoio do governo do estado. A exposição estreou no Clube Libanês, no bairro da Pampulha. Em seguida, vai para uma faculdade da capital. Depois segue para Viçosa, Uberlândia, Governador Valadares, Lavras e Teófilo Otoni, cidades onde há grandes concentrações de descendentes. “A verdade é que a comunidade se espalhou, então você vai achar gente em qualquer uma das 853 cidades de Minas”, diz Frederico. “E é importante que ele circule e cresça com mais histórias porque o memorial não é um projeto que se encerra; é para a posteridade.”
A história da Fuliban
Em 1970, a Fundação Libanesa foi criada para reunir os libaneses de Belo Horizonte e de outras cidades que já tinham fincado raízes e prosperado. Era a segunda geração, filhos dos pioneiros. A organização era uma forma de congregar, mas também de seus fundadores agradecerem e retribuírem ao país que havia acolhido suas famílias. O braço filantrópico, que atende crianças e suas famílias em situação de vulnerabilidade, cresceu e hoje conta com voluntários que não necessariamente são da comunidade, mas que se identificam com os projetos sociais ligados principalmente à saúde.
“Além do braço social, a gente também sempre apoiou eventos culturais, com danças folclóricas e promovemos diversos encontros literários”, explica Frederico. Outra linha de atuação é apoio político a causas que eles acreditam, como no caso em que eles fizeram a articulação com o governo estadual para a implantação de um novo hospital em Viçosa. Recentemente, foi criada a Fuliban Jovem, que realiza projetos junto a creches de BH.
Cidadania
Frederico não só é neto de libaneses como tem a cidadania do país, assim como seu filho, para quem ele passou “essa libanidade”. Em 2013, acompanhado de um dos seus irmãos, foi visitar o país, onde participou de um encontro de mais de 300 empresários em Beirute. Na ocasião, foi visitar a casa onde o avô nasceu, em Sin el Fil (“significa dente do elefante em árabe”, diz ele), no subúrbio da capital. Para além da sensação de ter sido muito bem tratado pela população, como se de alguma forma os libaneses de hoje agradecessem o Brasil pela acolhida no passado, Frederico sentiu algo que pode soar contraditório em um país tão marcado por guerras: paz.
“Lá do alto das montanhas, quando você vê aqueles cedros milenares, pisa em terras santas (os santos dos libaneses cristãos, como São Charbel), você sente uma paz imensa e, ao mesmo tempo, se questiona: como pode um país tão bonito, com um povo tão acolhedor, sofrer tanto com destruição e ter sempre que se reerguer das cinzas?”, reflete. Em 2020, ele estava com a volta programada para o seu outro país, mas a pandemia cancelou compromissos e sonhos. Um dia ele ainda volta.
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Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA


