São Paulo – Carros elétricos, turbinas eólicas e centros de processamento de dados dependem de imãs permanentes que são produzidos com 17 Elementos de Terras Raras (ETRs) de difícil extração na natureza. Eles geram disputas comerciais e geopolíticas porque, na sua ausência, muitos equipamentos e produtos da vida moderna se tornam inviáveis. Dono da segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, o Brasil está no centro da disputa pela exploração e pelo desenvolvimento da cadeia produtiva de ETRs, que promete se intensificar nos próximos anos.
Os ETRs não são especificamente raros, porém a sua extração e o seu processamento demandam investimentos, infraestrutura e conhecimento técnico para a sua obtenção.
Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) mostram que as reservas da China somam 44 milhões de toneladas e as do Brasil, 21 milhões de toneladas. Em seguida, as principais reservas de ETRs são da Austrália (6,3 milhões de toneladas), Rússia (3,8 milhões de toneladas) e Vietnã (3,5 milhões de toneladas), em uma lista que ainda tem Estados Unidos, Groenlândia, Tanzânia, África do Sul, Canadá e Malásia. A Agência Nacional de Mineração (ANM), por sua vez, estima as reservas brasileiras em 11,4 milhões de toneladas de reservas provadas e prováveis. Tais estimativas mudam em razão das metodologias e critérios de classificação.

À ANBA, o diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Vilmar Simões, explicou que nos últimos anos os ETRs ganharam relevância em razão da importância que exercem na aplicação de tecnologias de alto desempenho, como veículos elétricos, telas, lasers, equipamentos médicos, satélites e mísseis. “Dessa forma, o debate sobre terras raras vai muito além da mineração: trata-se também de soberania tecnológica, segurança econômica e competitividade industrial”, diz.
Dados do próprio SGB mostram a importância que as ETRs têm. Entre 1975 e 2020, o Brasil acumulou aproximadamente 250 processos minerários para ETRs. Entre 2023 e 2024, foram protocolados 1.662 processos, volume que recuou nos anos seguintes possivelmente, acredita o SGB, em razão de uma nova etapa do setor, de maturação dos alvos de processo minerário. Embora 23 das 27 unidades da federação tenham processos em curso, 72% das reservas se concentram em Goiás, na Bahia e em Minas Gerais. O processo minerário é um procedimento da ANM que autoriza a pesquisa e a exploração de minas.
No Brasil, os principais depósitos de ETRs estão em argilas de adsorção iônica, solos em que os elementos químicos estão na superfície dos minerais e são, portanto, extraídos de forma mais simples.
“O Brasil reúne condições favoráveis para avançar na cadeia produtiva mineral desses elementos. Além de possuir uma das maiores reservas de terras raras do mundo, conta com ambiente regulatório consolidado, segurança jurídica, capacidade científica instalada e um mercado crescente ligado à transição energética”, afirma Simões.
Importância das parcerias para o Brasil
Professor do Instituto de Geologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), David Jozef Cornelius Debruyne afirma que o principal gargalo do Brasil não é a quantidade de recursos disponíveis, mas a capacidade em transformá-los em produtos comercializáveis de maior valor, especialmente por meio da separação e do refino.
Embora tenha tecnologia para minerar e processar terras raras, o Brasil pode se beneficiar de parcerias, diz Debruyne, se elas trouxerem capital, acesso a mercados, contratos de compra, tecnologia e transferência de conhecimento. “Parcerias internacionais são desejáveis, mas deveriam servir para encurtar a curva de aprendizado brasileira, e não para terceirizar permanentemente as etapas de maior valor da cadeia”, diz.
“Hoje, a China responde por cerca de 91% do refino mundial das terras raras utilizadas em ímãs e 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados [imãs permanentes de alta potência]. Ou seja, o domínio chinês é ainda maior no processamento do que na mineração”, afirma. Por outro lado, o professor avalia que o Brasil já tem experiência no setor, além de uma “vantagem geológica interessante”, pois o clima tropical do País favoreceu uma formação geológica em que a mineração pode ser menos intensiva do que em depósitos de rocha dura, ao exigir menos processos de britagem e moagem. Em resumo, os elementos são de mais fácil extração.
Exploração comercial
Presidente & COO da Serra Verde Mining Brazil, Ricardo Grossi explica que a Serra Verde é a única empresa fora da Ásia que produz em larga escala as quatro terras raras magnéticas, que são o neodímio (Nd), o praseodímio (Pr), o disprósio (Dy) e o térbio (Tb). Os outros 13 ETRs são lantânio (La), cério (Ce), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb) e lutécio (Lu), escândio (Sc) e ítrio (Y).

A Serra Verde fica em Minaçu, em Goiás, e tem a meta de processar até 6,4 mil toneladas de óxidos totais de terras raras até o final de 2027 no plano de Fase 1. Pertence à norte-americana USA Rare Earth, emprega mais de 600 pessoas no Brasil, a maior parte da própria região em que atua. De acordo com Grossi, em abril deste ano, a empresa celebrou um acordo de “offtake”, ou compra mínima, para fornecer 100% da produção da Fase 1 a um veículo de propósito específico estabelecido por agências do governo dos Estados Unidos e fontes de capital privado em um acordo que também garante preços mínimos.
“Em termos de demanda, o mercado está preocupado com a falta de segurança do abastecimento devido ao controle dominante da China sobre a oferta global, incluindo mineração, processamento downstream [que ocorre após a extração] e fabricação de ímãs. A China adotou medidas específicas para restringir as exportações de terras raras no contexto das negociações comerciais em curso com os Estados Unidos e seus aliados”, afirma.
A empresa já avalia a implantação da Fase 2 de exploração, que, nas estimativas da Serra Verde, poderá duplicar a produção de minério bruto antes de 2030 sem reduzir a vida útil de longo prazo da sua operação.
Desafio ambiental
Além do potencial, dos benefícios e dos desafios geopolíticos que a exploração de terras raras coloca, há um outro elemento em jogo: os riscos ambientais associados. Riscos porque, dependendo do tipo de depósito de rocha podem ser riscos relacionados à radiação, relacionados à contaminação de água ou de áreas de mineração.
“Em depósitos de rocha dura, por exemplo, alguns minerais, como a monazita, podem conter quantidades relevantes de tório e, às vezes, urânio. Durante o beneficiamento e o processamento, esses elementos naturalmente radioativos podem acabar concentrados em determinados produtos ou resíduos. Por isso, precisam ser caracterizados e gerenciados adequadamente”, afirma Debruyne. Em casos em que as terras raras estão na superfície da rocha, é possível recuperar os elementos raros de forma menos intensiva, utilizado soluções salinas, como fertilizantes.
“Mas isso não significa ausência de risco. Se o processo for mal controlado, por exemplo, compostos de amônio podem contaminar solos e águas”, exemplifica o professor. Por isso, diz, o ideal é trabalhar com sistemas controlados de lixiviação, uma espécie de lavagem do solo, alta recuperação e reutilização dos reagentes e da água, impermeabilização e monitoramento das áreas de processamento.
“Depois vem outro ponto importante: a separação das próprias terras raras. Como os elementos são muito semelhantes quimicamente, a separação convencional envolve muitas etapas de extração por solventes e o uso de soluções ácidas e reagentes orgânicos. Portanto, gestão de água, recuperação dos reagentes, tratamento de efluentes e disposição dos resíduos precisam estar incorporados ao projeto industrial desde o início”, afirma o professor.


