São Paulo – Músico, compositor e sírio, e agora também luthier – produtor de instrumentos musicais. Vivendo no Brasil desde 2015, Rajana Olba, 39 anos, tem feito da música o seu trabalho em várias frentes. O artista, que participa de uma banda e ensina a tocar o alaúde, virou também construtor do artefato árabe. A habilidade aprendida de forma autodidata começou na pandemia e nunca mais saiu da vida do sírio.
Após a primeira construção de alaúde, o músico recebeu tantas encomendas que o negócio foi crescendo e hoje a fila tem vários meses de espera. “Esse prazo varia bastante. Tem meses que recebo mais pedidos, como aconteceu em abril, e em outros períodos recebo menos, e o período de espera diminui. Geralmente esse aumento de pedidos acontece depois do Carnaval, quando a vida vai voltando ao normal no Brasil.”

Apaixonado por música, Rajana relembra a sua história com essa arte. “É algo de que gosto desde a infância e é bem pessoal; nunca tive influência de nenhum parente ou amigo para gostar. A música é minha vida toda. Ainda quando morava na Síria, ganhei meu primeiro alaúde e nunca parei de tocar. Cheguei a frequentar, por alguns anos, os conservatórios de Damasco e Beirute. Nessa época tinha 14 anos”, relata.
Depois disso, Rajana aprendeu a tocar novas canções apenas ouvindo e fez apresentações como músico na terra natal. O sírio gostava tanto de tocar alaúde que passou a ensinar outras pessoas a tocarem também.
“Não existe um tempo máximo que uma pessoa pode aprender a tocar alaúde. Ela pode ficar anos aperfeiçoando o aprendizado. Por isso, eu trouxe muitos alunos meus da Síria quando me mudei para o Brasil, e hoje eles continuam aprendendo pela internet”, diz o artista.
Vivendo da música por muitos anos, Rajana viu as coisas mudarem quando veio para o Brasil. Quando escolheu buscar uma vida melhor, precisou dar uma pausa na carreira. “Eu vim sozinho, sem saber falar português e trabalhei em alguns lugares, não como artista. Cheguei, inclusive, a trabalhar na roça, onde fiquei por dois anos. Neste período, aprendi uma nova língua e resolvi retomar minha carreira”, conta Rajana.
Em 2018, o artista criou a banda Brisa do Oriente e começou a fazer apresentações por várias regiões do Brasil. “Desde a criação da banda, já participamos de programas de televisão e, em 2019, a gente chegava a fazer de três a quatro shows por mês. Hoje em dia, tocamos menos e as apresentações costumam ser maiores, em festivais, por exemplo.”
No total, a banda conta com seis participantes, que tocam desde instrumentos mais comuns, como piano e contrabaixo, até instrumentos tipicamente árabes, como o alaúde e o derbake. Já as músicas, que no início eram de outros artistas, atualmente são todas compostas pelo árabe.
“Enquanto morava na Síria tinha feito uns pedaços de músicas, mas nunca tinha concluído nada. Foi no Brasil que tive a inspiração necessária para finalizar diversas canções instrumentais, inclusive uma que ficou muito famosa por aqui, chamada ‘Uma mensagem para minha cidade’, que é uma homenagem para minha cidade, Sueida”, conta Rajana.
Instrumento musical
A construção do zero do primeiro alaúde aconteceu sem muito planejamento. Foi durante a pandemia de covid-19, no começo de 2020, em uma época em que todos estavam vivendo isolados, que Rajana resolveu ver tutoriais no YouTube para aprender a construir a peça.
“Antes de fazer o primeiro alaúde, eu já tinha alguma experiência com madeira e medidas e também já tinha feito alguns trabalhos com escultura em pedra. Depois de ver alguns vídeos, fiz meu primeiro instrumento e postei no Instagram. Depois disso, passei a receber encomendas pela rede social e participei de algumas entrevistas em canais de televisão, que ajudaram a impulsionar minhas vendas”, relembra o sírio.
Por fim, Rajana explica a importância cultural do instrumento. “Assim como no Brasil o violão é um instrumento muito comum e costuma estar presente nas casas brasileiras, é assim o alaúde nas casas da Síria. O alaúde é um instrumento importante da nossa cultura e é algo muito tradicional da minha cidade natal.”
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Reportagem de Rebecca Vettore, em colaboração com a ANBA


