São Paulo – Tarifaço, tensões geopolíticas e um ambiente interno incerto são alguns dos desafios que aguardam o próximo presidente do Brasil. Na manhã desta quinta-feira (17), o jornalista Lourival Sant’anna apresentou a palestra “Entre geopolítica e a economia: os desafios do Brasil pós-eleições” na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo, em que analisou o cenário político e econômico local e global.
Em sua apresentação, Sant’anna recuperou teorias e fatos ocorridos ainda antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para analisar as tensões geopolíticas atuais e como elas se refletem no Brasil. Ele também se dedicou a analisar o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a partir de julho de 2025 a diversos produtos do Brasil.

Apesar do ônus que taxas impõem aos produtos brasileiros, disse, os Estados Unidos estão sendo criteriosos em sua avaliação sobre o que precisam fazer para proteger a sua indústria. “O Brasil é altamente protecionista”, avaliou. Embora a balança comercial entre os dois países seja favorável aos norte-americanos, o Brasil aplica, em média, tarifa de 11% sobre os produtos que importa, enquanto os Estados Unidos aplicam uma tarifa média de 2,5% e a União Europeia, de 4%. É o desequilíbrio nestas tarifas que Trump quer reduzir com suas medidas, disse.
Outro desafio geopolítico global, disse o jornalista, são os conflitos em curso e, especialmente, o fechamento do Estreito de Ormuz. Ao lado dos estreitos de Dardanelos, Málaca, Bab el-Mandeb e de Taiwan, Ormuz pode “parar o mundo”, afirmou o palestrante, em razão da quantidade de embarcações e produtos que dependem destas passagens para chegar ao seu destino.
Além dos desafios, Sant’anna, que é analista da CNN Brasil e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, avaliou oportunidades. Entre elas, as terras raras. O Brasil é, hoje, dono da segunda maior reserva mundial de minerais críticos, atrás apenas da China. O mapa das reservas brasileiras, porém, ainda não está completo, o que amplia o potencial para que o Brasil possa ser até dono da maior reserva mundial de terras ricas em elementos químicos utilizados na produção, por exemplo, de baterias automotivas.
“Os minerais são críticos do ponto de vista de quem precisa deles e são estratégicos do ponto de vista que tem esses minerais. Do nosso ponto de vista, são estratégicos”, disse. Sant’anna avaliou que o desafio brasileiro é encontrar parceiros comerciais para estes produtos fora da aliança de 56 países liderada pelos Estados Unidos e fora da influência da China. A maior parcela do ganho financeiro que estes minerais proporcionam está no seu beneficiamento e o Brasil precisa de parceiros para processar as suas reservas.
Desafios dentro do Brasil
No cenário interno, os brasileiros têm o desafio de escolher o seu próximo presidente em meio a um cenário de crise do Supremo Tribunal Federal (STF) e em uma corrida eleitoral marcada por uma polarização política acirrada. “Vencer eleições, hoje, não é uma questão política. É uma questão existencial, pois, quem perde, pode até ser preso. Sendo assim, afasta-se o país de reformas necessárias, que são impopulares. E nós precisamos de reformas”, afirmou sobre o acirramento de eleições em um cenário que se repete no mundo todo.
Para Sant’anna, o Brasil enfrenta a dificuldade de conviver com a divergência. “O problema não é haver divergência, mas, sim, um desejo de excluir o outro”.
Ele avaliou que, independentemente de quem vença as eleições no Brasil, seja uma reeleição do atual governo seja uma vitória da oposição, os desafios econômicos serão parecidos, com um cenário de crescimento da dívida bruta e a necessidade de se obter superávits primários.
A Câmara Árabe foi representada no encontro pelo seu presidente, William Adib Dib Junior, pelo vice-presidente de Relações Internacionais e secretário-geral, Mohamad Orra Mourad, pela vice-presidente de Marketing, Silvia Antibas, pelo ex-presidente da Câmara Árabe e integrante do Conselho de Orientação e Deliberação da instituição, Rubens Hannun, e pelo diretor William Atui. Estiveram presentes no encontro, o chefe da delegação da Liga Árabe no Brasil, Ibrahim Alzeben, o decano do Conselho dos Embaixadores Árabes em Brasília e embaixador do Marrocos, Nabil Adghoghi, e o embaixador do Reino do Bahrein, Bader Abbas Alhelaibi, além de políticos e empresários.
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