São Paulo – Um projeto que se dedica a resgatar a memória da imigração árabe no Brasil identificou livros raros no acervo da Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo. O Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil, que reúne, preserva e digitaliza documentos e publicações relacionados à trajetória dos imigrantes árabes no País, devolveu nesta segunda-feira (5) ao arcebispo Dom Damaskinos Mansour 41 livros e uma revista que haviam sido cedidos pela catedral para a digitalização. Na devolução, o clérigo foi informado sobre as raridades descobertas entre as publicações, todas em árabe.
A pesquisa mapeou cerca de 10 livros muitos importantes no acervo da Catedral Ortodoxa, dos quais a coordenadora do projeto, Christina Queiroz, destaca cinco achados: “No tapete voador”, de Fawzi Maluf, de 1929; “O poeta do Abqar e os Cânticos da Arte”, de Abd al-Latif al-Yunis, de 1966; “Autobiografia de um Palestino: Said Shukair”, de 1993; “Gibran: Vivo e morto”, de Habib Masud, de 1932; “A Revolução Paulista”, de Menotti del Picchia (traduzido para o árabe); “Viagem pela América”, de Yusif al-Id; e “Árabes na América do Sul”, de Al-Badawi al-Mulattam, de 1956.

Atualmente o trabalho com as obras é levado adiante por equipe da Cátedra Edward Said de Estudos da Contemporaneidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que passou a ser parceira no projeto com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira e a Universidade de Saint-Esprit de Kaslik (USEK), do Líbano, no ano passado e colocou equipe para fazer o processamento das publicações em abril deste ano. Christina Queiroz é professora visitante da Cátedra, que é coordenada pelo cientista político Javier Amadeo.

Quando o time da Unifesp passou a trabalhar com as obras pelo projeto, os livros da catedral já haviam passado por triagem e começado a ser catalogados e digitalizados. “Quando a equipe da Unifesp assumiu, a primeira coisa que a gente fez foi retomar esse processo de catalogação e digitalização dos livros da catedral”, relata Christina. Todas as obras que são digitalizadas pelo projeto ficam disponíveis para pesquisas em plataforma da Usek, assim como a Câmara Árabe mantém uma cópia de segurança e a instituição ou pessoa cedente do livro recebe cópia, além da obra física de volta.
“O que a Unifesp vem tentando fazer também é separar os achados de pesquisa”, relata Christina. Essa identificação é feita em conjunto pela equipe da Unifesp, que é formada, além de Christina, pelo historiador e conservador-restaurador Isaac Gabriel Silva, pelo arabista Pedro Martins Criado e pela antropóloga Isabella Aquino. “A gente faz uma curadoria entre todos para identificar os achados, as joias que têm a possibilidade de colaborar com o avanço do conhecimento científico”, explica Christina.
A coordenadora conta que o livro de Habib Masud, por exemplo, é superimportante para o entendimento das relações dos intelectuais da diáspora árabe da América do Sul com os intelectuais da América do Norte. Já em “Árabes na América do Sul”, o intelectual jordaniano Al-Badawi al-Mulattam relata tour pela América do Sul nos anos 1940 para levantar dados sobre a imigração árabe na região. “Nesse livro tem informações que a gente não conhecia, por exemplo, sobre a imprensa e as editoras, que funcionaram no Brasil imprimindo esses livros, em árabe ou sobre os árabes”, relata Christina.
Dom Damaskinos Mansour afirma que os livros do acervo da catedral, em sua maioria, são doados por pessoas, normalmente quando algum familiar falece e deixa as obras em árabe. Ele conta que muitos dos livros doados para a catedral foram levados para a Síria, mas que restaram alguns. “Nós os colocamos na ordem aqui e guardamos porque achamos que esta é a história de nossa comunidade árabe, uma história muito importante”, afirma. “Eu volto para estes livros para descobrir a história da comunidade porque muitos brasileiros, muitos imigrantes que nasceram depois de 1950, não sabem o idioma árabe para fazer a leitura desses livros”, diz também.
Na devolução dos livros, em uma roda de conversa com o arcebispo sobre o projeto, a vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe, a historiadora Silvia Antibas, pediu acesso a mais obras da catedral para digitalização e disse que o projeto tira alguns mitos sobre a imigração árabe e mostra que vieram para o Brasil, como parte desse movimento imigratório, muitos autores e intelectuais. Silvia falou ao clérigo sobre os avanços do projeto e elogiou como a Unifesp leva o trabalho adiante. “Essa equipe aqui é extremamente entusiasmada com essa história. Isso me emociona muito”, afirmou.
A catedral recebeu os livros divididos em três grupos: os que não demandam restauração ou reparo, os que merecem um trabalho neste sentido e os achados. Além disso, a catedral recebeu cópia digital das obras. O trabalho de digitalização dos livros resultou em 21 mil imagens. “É o livro digital, é uma forma de eternizar tudo isso”, disse o presidente da Câmara Árabe, William Adib Dib Junior, na devolução, sobre a história da imigração que fica registrada. Também o diretor da Câmara Árabe, Sami Roumieh, participou da devolução.
Ainda estiveram no encontro na catedral Javier Amadeo, que falou de iniciativa que pode ampliar o acesso ao acervo, e os integrantes equipe da Unifesp que trabalham diretamente no projeto, Christina Queiroz, Isaac Gabriel Silva, Pedro Martins Criado e Isabella Aquino. Participaram ainda o padre da catedral João Abdullah, e o vice-presidente da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina, Antonio Naime.
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