São Paulo – Um professor visitante da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está levando adiante pesquisa sobre Mazagão Velho, distrito do município de Mazagão, no estado do Amapá, que foi povoado por pessoas oriundas do Marrocos. Disposto inicialmente a estudar a identidade marroquina em Mazagão Velho, Mahfouz Ag Adnane se deparou com características e histórias locais que vão além da simples origem geográfica, fornecendo novos elementos para o seu estudo.
Nascido em uma comunidade tuaregue, em local que é território oficial do Mali, e hoje já naturalizado brasileiro, Adnane leciona pelo Departamento de História da Arte da Unifesp, onde desenvolve investigação científica para a pós-graduação com temática do Marrocos. Em julho deste ano, o professor esteve em Mazagão Velho com outros pesquisadores e acompanhou uma grande festividade cultural e religiosa, a Festa de São Tiago, que recria batalha entre mouros e cristãos, em referência à história com o Marrocos.

“As pessoas são muito orgulhosas de terem origem marroquina, africana, a população quer realmente afirmar essa identidade”, disse o pesquisador em entrevista para a reportagem da ANBA. A partir dessa percepção, colhida na visita em campo, Adnane pretende descrever a identidade mazaganense a partir do ponto de vida mazaganense. “Eles reivindicam uma ancestralidade marroquina, então, é isso que me interessa”, afirma o pesquisador, que deve visitar novamente o Amapá – e Mazagão Velho – em novembro.
A história de Mazagão Velho com o Marrocos tem relação com a colonização portuguesa no país africano. Segundo Adnane, durante dois séculos, Portugal teve uma fortaleza em Mazagão, no Marrocos, cidade que hoje se chama El Jadida. “Já tinha uma população naquela região e os portugueses ocuparam o lugar, construíram, fizeram cerca, muro e ficaram lá. Mas não foram dez ou vinte anos, eles ficaram por dois séculos. Os portugueses que nasceram e cresceram ali não conheciam nem Portugal. Do meu ponto de vista essas pessoas, claro, tem origem portuguesa, mas são marroquinas”, diz.
Nesse movimento de colonização, após algumas batalhas com Portugal, o Marrocos saiu vencedor, mas a comunidade de Mazagão se manteve em território marroquino. Por uma determinação real, no século XVIII, no entanto, eles tiveram que deixar o país. Segundo Adnane, essas pessoas foram levadas por Portugal para Lisboa, depois para Belém, no Pará, e então para onde hoje fica Mazagão Velho. Muitas pessoas saíram de Mazagão Velho, no entanto, com o passar dos anos, para a sede municipal ou outros locais das redondezas, mas o distrito ainda abriga população que preserva essa memória.
Em Mazagão Velho, todos os anos, em julho, os moradores encenam uma batalha entre mouros e cristãos, em que a figura central é um soldado chamado São Tiago, dando um tom religioso, em vez de territorial, para a disputa entre marroquinos e portugueses. Na encenação, os cristãos vencem os mouros, nome com o qual eram chamados os povos praticantes do Islã que dominaram a Península Ibérica entre os séculos VIII e XV. A criação de Mazagão Velho, a partir da transferência da comunidade que viveu no Marrocos, ocorreu quase três séculos após esse domínio, em 1770.
Além de acompanhar as festividades em Mazagão Velho, Adnane também se deparou com informações que trouxeram reflexão e um repensar da pesquisa sobre a identidade local: a saída de boa parte da população branca de Mazagão Velho para outros locais na redondeza, a religiosidade cristã predominante entre os moradores, as pesquisas que apontam DNA local africano, os agregados que vieram junto com a população de origem portuguesa que vivia no Marrocos, a representação de São Tiago apóstolo de Jesus Cristo no São Tiago na festa, as referências das Cruzadas e da expulsão dos muçulmanos na Península Ibérica na encenação, entre outros elementos.
Entre os demais profissionais presentes na visita a Mazagão Velho estiveram John Fletcher, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), e Denise Dias Barros, docente da Universidade de São Paulo (USP), que coordena o projeto Link’Art Áfricas, do qual Adnane e Fletcher participam. O projeto, viabilizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), reúne pesquisadores sob o tema da criação artística nos contextos africanos desde 1980 até os dias atuais e inclui Mazagão Velho. Adnane, Denise e John também estão engajados em rede que está nascendo, unindo os temas deserto e florestas.
Estudos no Egito e no Brasil
Adnane deve entregar os resultados da pesquisa, em forma de artigos ou livro, até março do ano que vem para a Unifesp. O professor tem longa trajetória de estudos. Parte do povo norte-africano conhecido como Amazigh, ele foi alfabetizado em árabe na comunidade em que nasceu, mas foi selecionado para bolsas que eram dadas às populações muçulmanas para estudar no Egito ainda jovem e onde morou por dez anos. No país, Adnane se graduou em Licenciatura História e Civilização pela Universidade de Al-Azhar e fez mestrado em História da África Contemporânea na Universidade do Cairo.
O pesquisador se mudou para o Brasil em 2012, ainda cursando o mestrado do Egito, e fez um mestrado também no Brasil, em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Depois concluiu o doutorado também História pela PUC-SP. O Marrocos é um país que está na história do professor há bastante tempo e com o qual ele tem relacionamento por várias vertentes, desde a ida a festivais no país, a participação em grupos Amazighs, o estudo da música e das artes visuais da região, e o acompanhamento de artistas marroquinos em atividades no Brasil, entre outros vínculos.
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