Conheça as memórias da imigração árabe

O Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil concluiu a primeira fase dos seus trabalhos e disponibiliza as 100 mil peças já digitalizadas. São fotos e conteúdos escritos por imigrantes árabes nos seus primeiros anos no Brasil. Link será lançado oficialmente em evento neste sábado (26) no Museu da Imigração.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – Como os primeiros árabes que migraram para o Brasil viviam, o que pensavam, como se sentiam no país que os acolheu e que anseios tinham em relação à terra que deixaram para trás? Obter essa informação diretamente dos imigrantes já é possível a partir de um projeto levado adiante pela Universidade Saint-Esprit de Kaslik (Usek), do Líbano, que tem a parceria no Brasil da Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

Al-Fayha, o 1º jornal em árabe

Após três anos de trabalhos, o Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil concluiu a sua primeira fase e disponibiliza o acesso a 100 mil peças já digitalizadas. São páginas de livros, revistas, periódicos e fotos elaborados pelos imigrantes árabes no final do século 19 e início do século 20 e que estão disponíveis para interessados em formato digital. É possível ler diretamente os relatos e ideias dos imigrantes daquela época.

O lançamento do link eletrônico de acesso aos materiais levantados no projeto será feito oficialmente neste sábado (26) em evento no Museu da Imigração, na capital paulista, no qual será comemorado o Dia Nacional da Comunidade Árabe, cuja data é 25 de março. “É um presente que estamos dando para a comunidade árabe”, disse a diretora cultural da Câmara Árabe, Silvia Antibas, à reportagem da ANBA.

O Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil tem por objetivo preservar a memória da imigração árabe, não deixando que se perca ou dependa da conservação dos documentos físicos. Um grande número de materiais estará reunido em ambiente digital, sem que haja a necessidade de peregrinação por diferentes bibliotecas, instituições ou cidades para encontrá-los. O intuito é que essas peças sirvam de insumo para o trabalho de pesquisadores.

Entre os materiais selecionados para a digitalização estão, por exemplo, o jornal Al-Fayha, cujo título em português era Mundo Largo, de 1893, publicado em Campinas, interior paulista. “É o primeiro jornal publicado no Brasil em língua árabe. E é o primeiro não só do Brasil, mas da América Latina”, relata o pesquisador e historiador brasileiro Roberto Khatlab, diretor do Centro de Estudos e Culturas da América Latina (Cecal) da Usek.

Do Líbano para América Latina

Equipe no Arquivo Público do Estado de São Paulo

Foi na Usek que tudo começou. O Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil faz parte de uma proposta maior da universidade, de reunir e digitalizar a memória da imigração árabe, especialmente a síria e libanesa, na América Latina. Primeiro, foi criada biblioteca física sobre a região e então começou a ser desenvolvida a biblioteca digital. Os documentos brasileiros fazem parte da coleção América Latina, com materiais de outros países da região, pelo Projeto de Conservação de Memória da Imigração Árabe na América Latina, da universidade libanesa. Os materiais latino-americanos estão na coleção Especial da Usek e disponíveis para consultas.

Dib: pesquisa entre os imigrantes

Um acordo entre a Câmara Árabe e a Usek viabilizou a execução da ideia no Brasil. Em outros países latino-americanos a universidade tem também parcerias com instituições para levar adiante a iniciativa. No Brasil, uma equipe da universidade libanesa deu treinamento para que a pesquisa e a digitalização fosse feita pela Câmara Árabe. E assim começou o trabalho em campo, com a localização de publicações, documentos e fotos junto a instituições públicas e privadas, inicialmente na cidade de São Paulo, e depois com a seleção do que seria digitalizado.

Nasser: digitalização

Com orientações de Khatlab, a coordenadora do projeto no Brasil, Heloisa Dib, e a então auxiliar de Serviços de Documentação da Câmara Árabe, Mirna Adel Nasser, foram atrás dos proprietários de acervos. Segundo Dib, já foram realizadas seleções e digitalizações em arquivos como o da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe), do Esporte Clube Sírio, do Club Homs, da Biblioteca Mário de Andrade e Lar Sírio Pró-Infância. A equipe também receberá materiais digitalizados do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Fotos da família de sobrenome Jafet, de ascendência árabe, também foram disponibilizadas para a iniciativa.

Muitas publicações estão no idioma árabe, outras estão em português ou são bilíngues. Os envolvidos no projeto acreditam que surgirão traduções a partir da disponibilização do arquivo digital. “Estou super ansiosa para que alguém comece a traduzir essas histórias das quais só ouvimos falar”, diz Dib. A coordenadora acredita que a transmissão apenas oral pode fazer com que o conteúdo ser perca ao longo dos anos.

Uma coleção de memórias

O Projeto de Digitalização da Memória da Imigração Árabe no Brasil contempla a digitalização das peças e não a análise dos textos e imagens. Com ascendência libanesa e falante de árabe, no entanto, Mirna Adel Nasser, que trabalhou para o projeto até recentemente, acabou tendo alguns espaços para a leitura do material e relata descobertas que dão uma pista do insumo do que os pesquisadores e interessados no assunto vão encontrar.

A Vinha: feita por imigrantes

Uma das publicações que chamou a atenção de Nasser foi A Vinha ou Al Carmat, feita no início do século 20 com a liderança da imigrante Salua Salame Atlas. “Foi uma figura feminina muito presente, muito pioneira aqui”, conta. Pela rápida análise do periódico, que existiu por mais de 30 anos, Nasser percebeu a mudança nos temas abordados. As primeiras edições eram sobre a família, mas com o decorrer dos anos, ganharam espaço temas da sociedade e da política.

Revista: Liga da Andaluza

“Teve uma explosão de comunicações árabes, dá para perceber isso. Todos tinham muita sede por repassar o que pensavam”, diz Nasser, relatando que eles opinavam nos textos tanto sobre a política do Brasil como da terra de origem. Dib conta que muitas dessas revistas eram fundadas por grupos políticos que os árabes criavam no Brasil e que por meio delas os imigrantes faziam com que suas ideias chegassem até o país de origem.

Também integra a coleção a Revista da Liga da Andaluza de Letras Árabes (Al Usba), publicada por imigrantes no início do século 20. Khatlab conta que a revista fez parte do renascimento da língua árabe. “Escritores e intelectuais árabes que não podiam publicar no Oriente Médio, porque o Império Otomano proibia, mandavam artigos para a Liga Andaluza”, explica. Segundo ele, o Brasil foi uma das bases onde eles podiam expressar o conhecimento e transmitir a língua árabe.

Para mais pesquisas

Os líderes do projeto já vislumbram as contribuições que o arquivo pode dar para as pesquisas sobre o tema. Como historiadora, Antibas afirma que acha fundamental o acesso a documentos originais para que a história da imigração possa ser contada de maneira correta. “Com acesso ao documento original teremos mais informações e possibilidade de uma interpretação própria da história da imigração árabe”, afirma.

Roberto Khatlab vai dar palestra sobre o Líbano

Khatlab: ferramenta para pesquisadores

O trabalho vai continuar e o projeto não tem data para acabar, segundo os organizadores. Eles estão abertos a receber novas sugestões de materiais a serem digitalizados e, inclusive, solicitam que quem tiver edições das revistas citadas e outras, entre em contato para ajudar a completar as coleções. Os cedentes terão seus créditos nos documentos e além de ficar com seus originais, receberão uma cópia digital deles.

O link eletrônico não vai dar acesso direto às peças, mas sim ao catálogo da coleção. Para preservar créditos e direitos, os interessados deverão solicitar os documentos que querem acessar e vão recebê-los após preenchimento de cadastro. Novas pesquisas que surgirem a partir do arquivo devem ser incorporadas à biblioteca digital. “O que estamos oferecendo são ferramentas para o pesquisador trabalhar”, diz Khatlab.

Antibas: projeto gera pesquisa na fonte

Antibas afirma que a criação da Casa Árabe, braço para assuntos de cultura e imigração da Câmara Árabe, foi mais um motivo para a presença da instituição na iniciativa. Em entrevista à reportagem da ANBA, a equipe do projeto lembrou que muitas pessoas foram essenciais para que ele fosse posto em pé, entre eles o reitor da Usek, Georges Hobeika, que, inclusive, esteve no Brasil para assinar o acordo com a Câmara Árabe, tendo seguimento com o atual reitor, Talal Hachem, e o diretor da biblioteca, Joseph Moukarzel.

O projeto de memória da imigração teve início na gestão de Rubens Hannun na Câmara Árabe e seguimento com o atual presidente da instituição, Osmar Chohfi, assim como contribuições do diretor Adel Auada e do vice-presidente de Marketing, Riad Younes, da atual diretoria e de ex-presidentes, entre outros apoiadores e participantes.

Lançamento

O evento no qual o link do projeto será lançado, neste sábado, terá várias atividades em comemoração ao Dia Nacional da Comunidade Árabe. A partir das 14h30 haverá, em formato presencial, palestras e exibição de curtas-metragens sobre imigração árabe no Museu da Imigração. No domingo (27) haverá transmissão online da peça teatral “Cartas Libanesas” no YouTube. A comemoração é feita pelo museu em parceria com a Câmara Árabe.

 

Serviço:

Coleção Latino-Americana – Imigração Árabe
Universidade Saint-Esprit de Kaslik (Usek)
Acesse catálogo da coleção aqui
Consultas: reference@usek.edu.lb

 

Câmara Árabe/Usek
©Arquivo Público do Estado de São Paulo
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