Chefchaouen – Em um entardecer do último maio, ao percorrer uma via em Tetuan, no Marrocos, era possível ver homens agrupados oferecendo cordeiros para venda. Famílias chegavam, escolhiam um animal e o levavam consigo. No dia seguinte, movimento semelhante se repetia nas vielas de Chefchaouen, também no Marrocos. Pessoas passavam puxando os cordeiros já comprados, enquanto outras carregavam ramos de oliveira e de diferentes vegetações nos braços. O país se preparava para o Eid al-Adha, termo em árabe para Festa do Sacrifício, uma das datas mais importantes da religião islâmica.

Esse vaivém costuma anteceder, nos países islâmicos, o dia em que os muçulmanos revivem o sacrifício de um cordeiro realizado pelo profeta Abraão. O Islã pede que os fiéis façam o mesmo, repetindo o ato realizado por um de seus grandes profetas em sinal de fé e submissão a Deus. Como o sacrifício normalmente é feito nas casas, as famílias recolhem ramos verdes para alimentar os cordeiros até o ritual. Os países islâmicos decretam feriado de dois, três, quatro ou até mais dias para a data – no Marrocos, neste ano, o período se estendeu de 27 a 29 de maio, antecedido de muita expectativa.
Ao explicar a Festa do Sacrifício para a ANBA, o Sheikh Ali Momade, líder religioso da certificadora brasileira de produtos para muçulmanos Fambras Halal, conta que Abraão recebeu uma ordem de Deus para sacrificar seu filho. “Na época, Abraão tinha um único filho e precisava daquele filho para dar a continuidade ao trabalho de pregação, à profecia que ele desenvolvia. Abraão já estava na terceira idade e sendo Ismael o primogênito, Deus quis provar a fé e a firmeza de Abraão”, explicou.
A decisão de realizar o sacrifício foi tomada por Abraão após o segundo aviso de Deus em sonhos. “A partir dali, ele entendeu que era uma ordem que vinha de Deus e que ele precisava cumprir”, explica Momade, sobre o que prega o Islã. Na hora do ritual, no entanto, o anjo Gabriel apareceu com um cordeiro para que o animal fosse imolado no lugar do filho. Assim, os muçulmanos reproduzem o ato a partir do 10º dia do último mês do calendário islâmico, o Dhu al-Hijjah, período em que ocorre o Hajj, a maior peregrinação islâmica, realizada na cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita.
“Primeiro: o sacrifício deve ser feito em nome de Deus, em nome de Allah. Segundo: deve ser redistribuído, ou seja, dividido por três, uma parte para a pessoa, a segunda parte para os parentes e a terceira parte para as pessoas necessitadas”, explica o sheikh sobre a carne do cordeiro. Segundo ele, no Islã, a redistribuição da riqueza – no Eid al-Fitr simbolizada pela carne – é uma forma de agradecimento a Deus, sobretudo por parte daqueles que têm boas condições financeiras e sociais.

No Marrocos, neste ano, também houve preocupação em dividir com os estrangeiros presentes no país a vivência do Eid al-Adha. No Hotel Dar Ba Sidi & Spa, em Chefchaouen, o sacrifício do cordeiro pôde ser acompanhado pelos hóspedes, e a carne foi compartilhada no empreendimento. O fato foi noticiado por um canal de televisão local como uma oportunidade de mostrar aos estrangeiros a cultura e os valores do Marrocos, e o envolvimento do turismo com a data.
Mas, ao contrário dos dias que antecedem o Eid al-Adha, movimentados pelos preparativos, na data do sacrifício as cidades marroquinas ganham outra atmosfera. Os espaços urbanos coletivos silenciam e se esvaziam, enquanto grande parte dos estabelecimentos comerciais permanece fechada. O Sheikh Momade explica que o dia começa com uma oração matinal e que, depois, as pessoas realizam o sacrifício dos animais. A celebração segue até o 13º dia do Dhu al-Hijjah.
“São dias em que o Islã exorta os muçulmanos a intensificarem as orações, louvores e glorificação a Deus, e as ações caritativas”, diz. Ele conta que esse também é um período para conviver e fortalecer os laços familiares e de parentesco.
O Sheikh afirma que no Eid al-Adha é possível viver todos os cinco pilares do Islã, algo que não acontece em nenhum outro período do ano. O jejum, quarto desses princípios, é recomendado aos muçulmanos nos dez primeiros dias do mês do Hajj. Os demais pilares do Islã são o testemunho (o primeiro), a oração (o segundo), a doação (o terceiro) e a peregrinação (o quinto). A religião determina que todos os muçulmanos adultos que tenham condições para isso realizem o Hajj pelo menos uma vez na vida.
No ônibus que levava turistas para o aeroporto de Casablanca em pleno 28 de maio, segundo dia do Eid al-Adha, o motorista contava que havia sacrificado seu cordeiro no dia anterior. E se mostrava feliz porque o rei Mohammed VI tinha ampliado o feriado para os marroquinos. Com o intenso movimento de cordeiros ou com o silêncio urbano que se dá, estar em um país muçulmano durante uma data religiosa é uma forma peculiar de vivenciar o local e de conhecer mais de perto, de fato, como as pessoas vivem por ali.
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