A menina e o gato de Abu Dhabi

Jornalista da ANBA conta sobre um entardecer em parque público do emirado.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

Abu Dhabi – Era uma quinta-feira no final da tarde e eu já tinha terminado meu trabalho em Abu Dhabi. Resolvi, então, fazer algo que raramente temos tempo nas viagens pela ANBA aos países árabes. Fui caminhar pela cidade. Abu Dhabi, tirando as zonas mais centrais e turísticas, é uma cidade de pouca gente nas calçadas. Na verdade, de quase ninguém nas calçadas e de muita gente nos carros. É o calor? Talvez. Mesmo sabendo da segurança local, que é famosa, fui um pouco apreensiva. Acho que quem mora em cidade lotada como São Paulo, o que é meu caso, tem medo mais de vazio do que de muita gente. Mas fui caminhar na calçada vazia.

Tinha um parque público bem extenso próximo ao hotel em que eu estava hospedada e naquela direção eu fui. Caminhei um pouco, corri um pouco, circundando o parque. Andando alguns metros, vi que a solidão não seria tanta. No outro lado do parque tinha alguns homens conversando animados e um outro correndo. Depois um casal sentou em um dos bancos e uma mulher apareceu brincando no gramado com um bebê e uma menina. E também havia um gato. Vi um gato, dois gatos, três gatos. Era uma família de gatos.

Sentei num banco perto dos gatos e da mulher com as crianças. O gato maior se aproximou, soltou um miau e foi deitar. O segundo fez o mesmo – sem miau. O terceiro, que devia ser o mais novo, me olhou assustado, mas não deu alguns minutos estava na minha frente se exibindo, subindo nas árvores até o topo. Fiquei olhando aquele gato no entardecer e fazendo algo que sempre tenho vontade de fazer quando estou nos países árabes: parar e ver a vida deles, observar as coisas do cotidiano, o que acontece depois do trabalho, da reunião.

Mas o gato logo parou seu show na árvore porque se deu conta de que a menina na redondeza tinha algo na lancheira. Ela tinha biscoitos! Ele se aproximou. Ela deu um, dois, três, vários biscoitos para o gato. Empanturrou o bicho, acho. Provavelmente ele já é um gato ligado nas pequeninas figuras que aparecem no parque com seus biscoitos na lancheira. Acabou o biscoito e ele se foi, voltou para a minha redondeza e para a sua árvore. “Sorry, gato, não tenho biscoitos”, eu disse.

A menina também veio, de fininho, foi chegando, chegando, me olhando, e quando vi estava sentada no meu banco, falando animadamente sobre o tal do gato. Também veio a irmã dela, uma adulta sorridente, e o irmão, um bebê, e ficaram por ali comigo. A menina era bem tagarela, falou, falou, perguntou, perguntou. A irmã me contou que nos finais de semana o parque é mais cheio.

E naqueles momentos, entre o gato e a menina, eu vi um pouco do sol se pondo e do dia indo embora em Abu Dhabi. Pelo que vi, não veio mais ninguém ao parque enquanto estive ali. Escutei a reza muçulmana que soa por um sistema de som pela cidade toda. Já estava noite, expliquei que eu precisava ir. Fui embora caminhando e desejando que aquele gato encontre sempre meninas de lancheiras cheias de biscoitos no parque – e que aquela menina tenha sempre um gato por perto para se divertir distribuindo biscoitos.

Frederic Soreau/Photononstop/AFP

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