*Por Ahmed Swar
Acredita-se que o cultivo do algodão tenha surgido em cinco grandes regiões do mundo: o deserto australiano, as zonas áridas da América do Sul, as bordas dos desertos do Norte e do Sul da África, o deserto árabe e as regiões do sudeste asiático, incluindo a Índia. No Sudão, o algodão foi introduzido entre 1862 e 1865 pelo governador Mumtaz Pasha, vindo do Egito. As primeiras experiências de cultivo ocorreram nas regiões de Zeidab e Alayab, no norte do país, com o apoio de especialistas norte-americanos.
O cultivo rapidamente se expandiu durante o período do Condomínio Anglo-Egípcio, com a criação de grandes projetos agrícolas. Destaca-se o Projeto Gezira, com cerca de um milhão de feddans (1,038 milhão de acres), além da construção da Barragem de Sennar e de uma rede ferroviária de mais de dois mil quilômetros para apoiar o transporte e a exportação da produção. Assim, o algodão tornou-se o principal produto de exportação do Sudão, passando a ser conhecido como o “ouro branco”.
Após a independência, os governos nacionais ampliaram as áreas cultivadas, especialmente no Delta de Tokar, nos projetos agrícolas das Montanhas Nuba e em outras regiões produtivas. O país passou a produzir variedades de algodão de fibra longa e curta, ao mesmo tempo em que foram instaladas descaroçadoras e fábricas de fiação e tecelagem próximas às áreas de produção.
Desde a criação do Projeto Gezira, em 1925, o algodão consolidou-se como a principal cultura comercial do Sudão e um dos pilares da economia nacional. Nas primeiras décadas pós-independência, chegou a representar cerca de 70% das receitas em moeda estrangeira do país, financiando projetos de desenvolvimento e serviços públicos essenciais, como educação, saúde e infraestrutura.
Entretanto, o setor enfrentou diversos desafios ao longo das últimas décadas. Entre eles destacam-se o surgimento da indústria petrolífera, a crescente utilização de fibras sintéticas derivadas da petroquímica, como o poliéster, e o aumento dos custos de produção. No contexto sudanês, somaram-se ainda fatores como a instabilidade política, a insuficiência de financiamento agrícola, a deterioração da infraestrutura, os problemas dos sistemas de irrigação e a limitada incorporação de tecnologias modernas e de pesquisa científica.
Apesar desses obstáculos, a liberalização do setor algodoeiro e a abertura para investimentos privados e estrangeiros criaram novas oportunidades para sua recuperação. Além disso, o Sudão dispõe de importantes vantagens comparativas, entre elas condições climáticas favoráveis, solos férteis, abundância de recursos hídricos e uma área agricultável superior a 200 milhões de feddans [207,6 milhões de acres). Soma-se a isso sua localização estratégica, próxima aos mercados internacionais e com acesso ao Mar Vermelho, uma das mais importantes rotas comerciais do mundo.
Nesse contexto, torna-se particularmente relevante fortalecer a cooperação com o Brasil no âmbito da Cooperação Sul-Sul e das parcerias entre a África e a América Latina. O Brasil alcançou avanços notáveis na cotonicultura e consolidou-se como um dos maiores produtores e exportadores mundiais de algodão, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico liderado pela Embrapa.
A experiência brasileira na criação de variedades de algodão de alta produtividade, resistentes a pragas e doenças e adaptadas às condições de seca, oferece uma oportunidade valiosa para o Sudão. A cooperação bilateral poderia abranger programas conjuntos de produção de sementes melhoradas, transferência de tecnologias de melhoramento genético, capacitação de pesquisadores e adoção de práticas de agricultura inteligente, contribuindo para o aumento da produtividade e da competitividade do algodão sudanês nos mercados internacionais.
O Sudão também dispõe de grandes projetos agrícolas que podem servir como porta de entrada para investimentos conjuntos, como o Projeto Gezira, o Projeto Agrícola Rahad, o Projeto Nova Halfa e o Delta de Tokar. Essas áreas contam com extensas terras cultiváveis, sistemas de irrigação consolidados e grande potencial para a introdução de tecnologias agrícolas modernas.
A revitalização do setor algodoeiro não significa apenas o aumento das exportações agrícolas. Trata-se de uma oportunidade para construir uma cadeia de valor integrada, abrangendo o cultivo, o beneficiamento, a fiação, a tecelagem e as indústrias de transformação. Tal estratégia poderá ampliar as receitas do país, gerar empregos para a juventude sudanesa e impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável.
O algodão foi, no passado, um dos principais pilares da economia do Sudão. As condições fundamentais para sua recuperação continuam presentes. Com investimentos adequados, adoção de tecnologias modernas e aproveitamento de experiências internacionais bem-sucedidas — especialmente a brasileira —, o “ouro branco” poderá recuperar seu papel histórico e voltar a ser um importante motor de crescimento e desenvolvimento para o país.
Espera-se que o Brasil, reconhecido por sua experiência em cooperação para o desenvolvimento e por suas sólidas parcerias com os países africanos, responda positivamente às oportunidades existentes, contribuindo para o fortalecimento das relações bilaterais e para o avanço da agricultura e da segurança alimentar no continente africano.
*Ahmed Swar é embaixador do Sudão no Brasil
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