São Paulo – O cenário internacional atual é desafiador, com transformações afetando cadeias de fornecimento e relacionamentos entre países. Nesse contexto, o Brasil e os países árabes devem reforçar suas parcerias, segundo opiniões apresentadas por várias das autoridades que falaram na abertura do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, nesta terça-feira (25), no Hotel Renaissance, em São Paulo.
“No atual momento de incertezas, o fortalecimento de aliança entre o Brasil e os países árabes, com o impulso do setor privado, ganha importância redobrada como espaço de cooperação e de promoção do desenvolvimento. Nossa parceria não impressiona apenas pelo potencial a explorar, ela já tem uma base sólida”, disse o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, em vídeo enviado aos participantes do fórum, que reúne público do Brasil e países árabes. O ministro está em viagem diplomática na África do Sul.

Vieira disse que o cenário atual gera tensões no campo da diplomacia, desorganiza as cadeias de fornecimento globais, compromete o comércio internacional e põe em risco a prosperidade dos países. “Neste momento desafiador para a ordem internacional e para a diplomacia tradicional, com tantas ameaças simultâneas à governança, à segurança e à paz, fóruns como esse são a melhor resposta em matéria de fortalecimento do diálogo e da construção de novas parcerias”, disse.
Também por vídeo, o secretário-geral da Liga dos Estados Árabes, Nabil Fahmy, falou sobre a relação Brasil-mundo árabe no contexto atual. “O fórum deste ano realiza-se em um momento de grande importância, em que a economia mundial testemunha transformações aceleradas que vêm redesenhando o mapa do comércio e dos investimentos e as cadeias de abastecimento, o que leva os países e os blocos econômicos a reavaliar suas parcerias tradicionais e a diversificar seus mercados e fontes de abastecimento”, falou.

“Deste ponto de vista, falar de uma nova agenda para as relações árabe-brasileiras deveria significar aumentar o volume do comércio existente e impulsioná-lo rumo a uma parceria econômica mais profunda que inclua diversos setores promissores”, disse Fahmy, sugerindo que os fortes números do comércio entre as regiões sejam ponto de partida para nova fase, com parcerias que criem valor compartilhado por investimentos conjuntos, transferência de tecnologia e interligação das cadeias de valor entre as regiões.
O ministro de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Egito, Ahmed Rostom, também em mensagem de vídeo, disse que o fórum acontece num momento decisivo para a economia e a história mundiais. “À medida que o mundo passa por profundas mudanças estruturais, redefinindo as cadeias de fornecimento de energia e a arquitetura financeira, nossas regiões têm uma responsabilidade única e uma oportunidade sem precedentes de construir uma parceria estratégica duradoura”, falou o egípcio.

Rostom citou os realinhamentos geoeconômicos, os imperativos climáticos e as mudanças tecnológicas como parte dessa transformação, e disse que ela exige ir além do comércio, em direção a alianças integradas, resilientes e preparadas para o futuro. Nesse sentido, ele falou sobre os interesses do seu país. “O Egito está pronto para atuar como uma importante ponte que conecta a América Latina e o Brasil aos mercados árabes e africanos”, afirmou o ministro.
Ao abrir o evento, o presidente da Câmara Árabe, William Adib Dib Junior, falou dos esforços pelo comércio Brasil-árabes no cenário de desafios. “No início do ano, fomos todos surpreendidos por conflitos na região do Golfo cujos impactos foram sentidos nos quatro cantos do mundo. Ao longo dos meses subsequentes, a resiliência do agronegócio brasileiro, das cadeias de fertilizantes árabes e dos sistemas logísticos internacionais permitiram minimizar os efeitos da situação”, disse.

Citando os números desse comércio, de exportações brasileiras ao mercado árabe de US$ 11,26 bilhões de janeiro a julho, com avanço de 3,71%, e na outra via, os árabes vendendo ao Brasil US$ 6,13 bilhões, com avanço de 12,22%, Dib disse que é preciso avançar. “A relação bilateral, no entanto, mesmo exibindo resiliência e vitalidade, ainda tem muito potencial a ser desenvolvido”. Ele sugeriu mais exportação de produtos industrializados, cooperação em energia limpa e descarbonização, integração em inovação, turismo, entre outros.
A secretária municipal de Relações Internacionais de São Paulo, Angela Gandra, destacou a importância da comunidade árabe em São Paulo para além da sua influência cultural: como construtores da economia e da sociedade paulistana: “Quantos árabes escolheram São Paulo como seu lar, fizeram essa cidade conosco”, disse. “Temos alegria de receber este fórum em São Paulo, por que São Paulo é um lugar de se fazer negócios”, afirmou.

Diretor do Departamento de Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, o embaixador Clélio Nivaldo Crippa Filho recordou, em seu discurso, que as relações entre Brasil e países árabes começaram ainda quando D.Pedro II, imperador do Brasil, viajou ao Oriente Médio, e que, hoje, há no Brasil 18 representações diplomáticas de países árabes além de 18 representações brasileiras no mundo árabe em uma troca que é produtiva, mas pode crescer.
“Almejamos resultados mais ambiciosos com a diversificação da pauta exportadora”, disse, lembrando que o aumento das trocas comerciais deve também ser dirigido por setores como tecnologia e indústria aeroespacial. “Os desafios começam por desenvolver oportunidades conjuntas”.
O secretário-geral da União das Câmaras Árabes, Khaled Hanafy, pautou seu discurso sobre o tema da colaboração entre Brasil e árabes para um estágio além das exportações e importações. “Embora estejamos em um contexto difícil, as regras econômicas e geopolíticas do mundo precisam ser revistas”. Ele disse que a parceria entre Brasil e países árabes precisa ser vista pelas vantagens colaborativas e não mais pelas vantagens comparativas entre os países. “Os países árabes mudaram muito nos últimos anos. As pessoas, os investimentos em tecnologia e logística. Tudo mudou muito: o Brasil precisa saber disso, porque o Brasil é um gigante, um líder na América Latina”, afirmou convocando tanto Brasil como seus parceiros árabes e criar um projeto colaborativo que atenda às demandas da nova economia.

Decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil e embaixador do Marrocos em Brasília, Nabil Adghoghi, destacou temas prioritários da agenda dos países árabes com o Brasil por meio dos quais é possível discutir oportunidades e ações construtivas. “Elevar nossas relações com o Brasil a um horizonte mais amplo e edificar parcerias mais diversificadas e sustentadas”, disse. Citou como temas prioritários da agenda uma rota marítima direta para transporte de carga; reforço do arcabouço jurídico para a celebração de acordos que destravem investimentos e negócios; segurança alimentar; digitalização de processos de exportação e importação; e parcerias em pesquisas acadêmicas.
Ao finalizar seu discurso, o secretário-geral da Liga Árabe também falou sobre a Palestina, dizendo que não poderia deixar de fazê-lo ao tratar de desenvolvimento e investimento. “Não posso deixar de enfatizar o direito do povo palestino à autodeterminação e de lembrar todos os graves desafios humanitários, econômicos e sociais que enfrentam, especialmente a destruição generalizada que afetou todos os aspectos da vida nos últimos anos”, disse Fahmy, agradecendo as posições do Brasil em relação ao povo palestino.

Todos os participantes da abertura citaram a instabilidade regional em algum momento de suas explanações. Mauro Vieira definiu como “catastrófica” a situação que se desenvolve na Faixa de Gaza e reafirmou o posicionamento do Brasil de buscar soluções “na insistência do caminho da negociação”.
O fórum promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira tem como patrocinadores Fambras Halal, International Halal Academy, Vale, DP World, Cdial Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF Global Foods Company, Qatar Airways e MZAH Group Investment. São apoiadores institucionais Liga Árabe, União das Câmaras Árabes e Federação das Indústrias do Estado da Bahia. É parceira a Cacilda Aragão Tours.


