São Paulo – O emirado de Ras Al Khaimah criou em 2009 uma fundação para promover pesquisas que embasassem as suas políticas públicas e os seus planos de desenvolvimento, especialmente em educação. E contou desde os primórdios da iniciativa com a visão de uma australiana que alia um profundo conhecimento na área educacional ao interesse pelo Oriente Médio.
Diretora-executiva fundadora da Sheikh Saud bin Saqr Al Qasimi Foundation for Policy Research, Natasha Ridge falou com a ANBA durante passagem pelo Brasil, no final de agosto, sobre o trabalho da fundação e as principais pesquisas da sua carreira. “Nosso objetivo é tentar influenciar políticas públicas em qualquer área em que vemos que existe uma necessidade”, disse, sobre a fundação.
Bacharel em Economia e Estudos do Oriente Médio na Austrália, onde nasceu, Natasha começou a vida profissional trabalhando como professora em Cingapura. Outras oportunidades, no entanto, a levaram para os Emirados Árabes Unidos. “Fui trabalhar em uma escola no emirado de Ras Al Khaimah para Sua Alteza Sheikh Saud bin Saqr Al Qasimi, o governante de Ras Al Khaimah”, diz.

Viver no Oriente Médio era um desejo. “Sempre esteve no meu coração”, afirma. Aos 12 anos, Natasha fez uma escala em Doha, no Catar, e viu pessoas andando com a kandora, a vestimenta árabe longa, pelas ruas. “Desde lá tenho um interesse muito grande pela região”, disse. Para abrir caminho, a australiana aprendeu o idioma árabe. Também levou adiante os estudos sobre a região.
Então veio o mestrado em Desenvolvimento Internacional e Comunitário. “Eu gostava muito de dar aulas, mas sentia vontade de fazer mais no nível das políticas públicas, na área de formulação de políticas”, afirmou. Foi aceita no doutorado em Educação, em Política Educacional Internacional, Teachers College da Universidade de Columbia, em Nova York, o que marcou a transição da carreira, do ensino para a formulação de políticas públicas e pesquisa em educação.
Natasha chegou a ser mentora de outras jovens professoras, principalmente mulheres, que tinham interesse em mudar de carreira, mas não sabiam como fazê-lo. “Depois disso, voltei para Ras Al Khaimah e trabalhei com Sua Alteza para criar uma fundação filantrópica”, disse, sobre a Al Qasimi. De uma ideia inicial de indicar caminhos para ações no emirado, o trabalho cresceu e passou a servir de base também para formulação de políticas públicas nacionais dos Emirados.
A fundação começou o seu trabalho com estudos sobre educação. “A pesquisa em educação era muito importante porque o emirado queria se desenvolver, mas não tínhamos nenhuma pesquisa local na qual pudéssemos basear os planos de desenvolvimento – em educação e outros setores. Parte da nossa missão, ao criar a fundação, era fornecer uma base de evidências para que o governo pudesse formular políticas e não usasse apenas pesquisas de outros países árabes”, disse.
Da educação, o leque de assuntos se ampliou, em um trabalho não apenas de levantar as informações, mas também de preparar documentos para políticas públicas dos governos e desenvolver intervenções ou programas. “Às vezes nossa pesquisa leva a intervenções em políticas públicas no emirado de Ras Al Khaimah, mas, às vezes, leva a mudanças de políticas em nível nacional.”
No escopo da fundação estão trabalhos sobre bem-estar animal, patrimônio histórico, desenvolvimento urbano, saúde e outros. “Uma das áreas de pesquisa é sobre pessoas encarceradas. Nós analisamos que perfil de pessoas estava na prisão, de onde elas vinham, qual era seu nível educacional, sua situação familiar. Com base nisso, criamos um programa para os detentos emiradenses, para ajudá-los a melhorar seu nível de educação, a conseguir trabalho quando saíssem da prisão e a não voltarem para a prisão”, relatou Natasha.
O que desafia a educação?
Com um olhar atento e sensível nos assuntos da educação, a australiana acredita que o grande desafio atual na área é a tecnologia. Ela percebe o quão comum viraram, a partir da pandemia, o ensino online e o uso dos dispositivos eletrônicos. “Mas o que vimos foi uma perda de aprendizagem desde então, à medida que as pessoas permaneceram nos dispositivos. Estamos vendo agora, muitos países, como a Suécia e outros, retirarem a tecnologia das escolas. E voltarem ao papel e à caneta, à escrita à mão e à leitura de livros em vez de ler online porque descobrimos que o cérebro se desenvolve de maneira muito diferente quando você lê algo no papel, em comparação com quando lê em uma tela”, diz.
Natasha percebe que é um desafio para os governos ajudar os professores a voltarem a ensinar com papel e caneta e manterem a atenção de alunos que passam muito tempo rolando a tela do Instagram e muitas vezes não conseguem se concentrar mais que três minutos. “E também continua sendo um desafio de todo sistema educacional: como fazer com que boas pessoas se tornem professores e como manter bons profissionais na carreira docente”, disse.
A educação nos Emirados
Ao falar sobre os avanços dos Emirados Árabes Unidos na educação, a estudiosa afirma que o país ajudou os seus cidadãos a competir em nível global, introduzindo reformas em ciências e matemática, os tornando fluentes em inglês. “Isso, por si só, trouxe uma enorme melhoria no número de emiradenses que hoje se formam bilíngues nas escolas públicas. No passado, quando cheguei, há 20 anos, não era assim. Muitos emiradenses não falavam inglês. E isso limitava sua capacidade de trabalhar fora do setor público. Agora, eles são muito mais competitivos. Podem ir estudar no exterior, podem trabalhar para empresas internacionais”, diz.
A evasão dos meninos
Na trajetória profissional de Natasha, um dos trabalhos que chama a atenção é a pesquisa sobre a educação dos meninos e os motivos do baixo desempenho deles. “Pesquisas recentes da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] com a qual trabalhamos nesse tema, mostram que os meninos ficaram para trás no mundo todo em matemática, inglês, leitura e ciências. Isso nunca havia acontecido no passado. Antes, os meninos estavam à frente. E, naquela época, acho que, corretamente, pessoas no mundo inteiro enfrentaram as questões relacionadas às meninas, e isso foi importante. Mas agora vimos uma grande mudança, e estamos vendo muitos jovens homens completamente perdidos. Eles estão tendo um desempenho muito ruim. Não estão envolvidos com a educação, e isso tem implicações para as mulheres tanto quanto para os homens”, afirma.
“Descobrimos que, quando as meninas têm acesso à educação, elas se saem muito bem. Então, para as meninas, a questão é o acesso; para os meninos, a questão é a permanência. O fato de os meninos terem acesso à educação não significa que eles permanecerão na escola. Portanto, são dois desafios diferentes que os governos precisam considerar. Vemos muitos crimes na Austrália atualmente e muitos deles são cometidos por jovens homens que não tiveram uma boa educação e abandonaram a escola. A falta de educação está na raiz de muitos desses comportamentos antissociais que vemos entre os jovens homens.”
Escolas charter
A partir dos seus estudos e experiência, Natasha se tornou uma grande defensora da educação pública de qualidade. Ela diz observar, no mundo todo, que os mais ricos estão cada vez mais sendo educados em escolas privadas – até exclusivamente nelas. “Estamos vendo as escolas públicas se tornarem cada vez mais comercializadas, se transformando em escolas charter, em escolas nas quais o governo paga outra pessoa, uma empresa, para administrá-las”, afirma.
Segundo a pesquisadora, as escolas estão perdendo a natureza pública. “A escola passa a ser vista apenas como um lugar para adquirir habilidades para conseguir um emprego, e não como um lugar que ajuda a formar uma nação”, afirma. “É fundamental que as pessoas tenham acesso a uma educação pública de alta qualidade. Se você vem de uma comunidade pobre, a educação que recebe não deveria ser inferior à de alguém que vem de uma comunidade rica”, diz.
No Brasil
Natasha Ridge esteve no Brasil para uma série de compromissos, entre eles a participação como painelista do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo. Ela cumpriu agenda de aproximação com instituições brasileiras, especialmente culturais, acompanhada da empresária Georgia Mourad, e em algumas das atividades, também da vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe, Silvia Antibas.
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