São Paulo – A Inteligência Artificial (IA) ainda não fala português ou árabe como deveria. No painel final do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, realizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira nesta terça-feira (25), em São Paulo, especialistas apontaram que a falta de conteúdo em idiomas locais e os desafios de segurança e privacidade são alguns dos principais obstáculos para que brasileiros e árabes aproveitem ao máximo novas tecnologias.
A maior parte dos conteúdos em que os modelos se baseiam são em inglês e apenas uma minoria é árabe ou mesmo em português, segundo Sïmon Saneback, sócio-fundador da Wellstreet. Ele também destacou que brasileiros e árabes compartilham comportamentos similares de consumo, desde a paixão por games digitais até a confiança em sistemas de pagamento digital como o Pix brasileiro e o Buna saudita.

Kinda Altarbouch, CEO e cofundadora da Lableb AI, falou que esse problema se reflete, por exemplo, no e-commerce. Para ela, empresas precisam se adequar aos modelos de IA para otimizar a venda de produtos. “O consumidor que fala árabe, de repente, não consegue descrever o que ele quer com base nas palavras comerciais usadas pela empresa”, disse.
Segundo Altarbouch, nos Emirados Árabes Unidos, muitas pessoas falam em inglês e, portanto, pode ser mais fácil a disseminação, o que é diferente em outras nações.
Nidal Abou Zaki, diretor-geral do Orient Planet Group, reconhece que a IA pode aprimorar a decisão de compra. “A IA é uma ferramenta que nos ajuda, hoje em dia, para vendermos os produtos”, disse. Ele acredita que há muitas oportunidades para ampliar as parcerias árabe-brasileiras nesse âmbito, como por exemplo a facilitação de pagamentos entre os países via fintechs.
Ayumi Moore Aoki, fundadora e CEO da Women in Tech Global, entende que políticas são necessárias para ampliar a bagagem da IA, para atingir diferentes países. Segundo ela, que também é presidente fundadora do Tech Diplomacy Global Institute, é preciso entender limites relacionados à segurança e privacidade. Além disso, garantir soberania digital é uma tarefa árdua e que é preciso “escolher” onde investir na independência digital.
Segurança e privacidade
Giuliane Paulista, executiva de IA & Dados do Banco do Brasil, explicou que compras feitas totalmente via IA — aquelas em que o usuário apenas faz uma solicitação e que o agente digital realiza todo procedimento desde a escolha do produto até o pagamento final — podem se tornar comuns no futuro.

“Se eu der meu cartão de crédito, ele vai simplesmente fazer a transação. Hoje, nós temos tantas opções do que precisamos decidir que é até complicado às vezes. Estamos dando à IA o poder de decidir”, disse. Paulista defendeu também o princípio da governança, dizendo que é preciso proteger os dados dos clientes, bem como é preciso discutir IAs mais “responsáveis”.
Mustafa Jarrar, professor de Inteligência Artificial na Universidade Hamad Bin Khalifa, no Catar, moderou a discussão e reconheceu que tem visto jovens usando IA cada vez mais para decidir o que vão comprar, por exemplo, mas questionou os limites de tais tecnologias.
Nina Silva, fundadora e CEO do Movimento Black Money, defende que dados devem estar em propriedade dos usuários. “A gente tem a obrigação de trazer o letramento digital para que essa cibersegurança seja realmente trabalhada”, mencionando que muitos usuários colocam dados sensíveis nas plataformas, descuidadamente.
Ela relatou que parte da população brasileira se digitalizou em função da pandemia e que a falta de educação financeira e digital provoca inúmeros problemas econômicos, sendo necessário investimento estatal e parcerias do Sul Global com os grupos BRICS e o G20 para criarIAs soberanas e de código aberto.
O fórum promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira tem como patrocinadores Fambras Halal, International Halal Academy, Vale, DP World, Cdial Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF Global Foods Company, Qatar Airways e MZAH Group Investment. São apoiadores institucionais Liga Árabe, União das Câmaras Árabes e Federação das Indústrias do Estado da Bahia. É parceira a Cacilda Aragão Tours.
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