São Paulo – Durante o segundo painel do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, organizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e realizado nesta terça-feira (25), em São Paulo, empresários, especialistas e autoridades brasileiras e árabes comentaram sobre manter negócios, mesmo em meio à volatilidade nos preços dos fertilizantes, entre outros desafios.

A segurança de investimentos no Brasil foi um dos pontos de destaque. “Resiliência” e “confiança” foram alguns dos termos mais citados pelos painelistas. O diretor de Agronegócio e Biocombustíveis para a América Latina da S&P Global Energy Consulting, Frank Nadimi, apresentou o bloco e disse que bloqueios marítimos no Mar Negro e região, bem como outros conflitos pelo mundo, trazem muitos desafios.
Segundo ele, atualmente há barris de petróleo vendidos por cerca de US$ 90 e que o diesel pode ser encontrado acima de US$ 100 o barril — muito acima do habitual, de aproximadamente US$ 15.
Devido a efeitos climáticos, o Canal do Panamá perdeu capacidade e rios estão secando na Europa. Além disso, os Estados Unidos têm aumentado seu Produto Interno Bruto (PIB) com a bolha de investimentos em Inteligência Artificial (IA). “O mercado ainda está absorvendo esses impactos e vamos começar a ver resultados em 2027”, disse Nadimi.
Nadimi destacou a expansão da produção de etanol em território brasileiro e o aumento na quantidade de portos. “Antes, aqui em São Paulo, tínhamos o maior exportador [Porto de Santos], mas agora temos vários portos no Nordeste”. Nadimi elogiou a capacidade brasileira de manter sua economia estável, mesmo com diferentes cenários políticos.
Resiliência para enfrentar crises
Rumaitha Al Busaidi, Head de Desenvolvimento de Negócios e Valor Agregado Local de Omã na Hydrom, moderou o painel. Segundo ela, há resiliência entre os atores que fazem o comércio árabe-brasileiro.
O presidente dos comitês de Tecnologia e Inovação e de Segurança Alimentar e Meio Ambiente da Qatar Chamber, Mohamed Bin Ahmed Al Obaidly, disse que os catari criaram política de segurança alimentar estruturada em três pilares: networking de cadeias; produção local; e estoque estratégico.

“Não tem segurança alimentar sem parcerias”, disse, explicando que o Catar diversificou sua base alimentícia como forma de antever possíveis crises. “Não dependemos de um fornecedor. No máximo 30% em cada um”, afirmou.
Segundo ele, é preciso criar ecossistema de resiliência e sustentabilidade, capaz de resistir inclusive às taxas e tarifas impostas por outros países. “O Brasil já percebeu o que está acontecendo. Existe uma guerra econômica em curso”, disse.
Obaidly inclusive sugeriu que os próprios navios que levam alimentos do Brasil aos países árabes podem voltar já com os fertilizantes que serão importados pelos brasileiros, reduzindo custos.
Estevão Carvalho, gerente executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), ressaltou que o Brasil exporta frango para mais de 150 países, sendo 25% ao Oriente Médio. Mesmo com o fechamento de Ormuz, portos em outros lugares absorveram essas cargas.
De janeiro a julho deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado, houve queda de apenas 5% nas exportações, disse. “O frango do Brasil está fluindo para a região e temos certeza que nossos parceiros estão com esse fornecimento adequado”, afirmou Carvalho.
M.J. Khan, diretor-executivo do Fórum Mundial da Agricultura (WAF), sediado nos Países Baixos, destacou que a complementaridade entre Brasil e países árabes é tão forte que permitiu que os “corredores de alimentação” se mantivessem sem interrupção. “Ninguém é autossuficiente, nem na produção de alimentos, nem na exportação”, disse.
Certificação Halal como ponte de confiança
Ali Zoghbi, vice-presidente da Fambras Halal Certificadora e presidente da International Halal Academy, disse que mesmo com critérios específicos de cada país, o Brasil “consolidou uma confiança”, remontando à etimologia da palavra “confiança” em árabe, ligada ao sagrado.

Segundo Zoghbi, há uma série de stakeholders que garantem o país como principal exportador de halal. Zoghbi também ressaltou a importância da empatia nas relações entre Brasil e países árabes. “Conhecer o outro ainda é um longo caminho. Nós somos no Brasil uma minoria, mas fazemos parte do tecido social brasileiro”, disse.
O secretário-adjunto da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Rafael Requião, afirmou que o Brasil vê a relação com países árabes como uma via de mão dupla. Segundo ele, mesmo com uma redução na importação de fertilizantes, ainda há grande oportunidade de comércio de tais insumos.
Hashim S. Hussein, chefe no Bahrein dos Escritórios de Promoção de Investimentos e Tecnologia da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido-ITPO), ressaltou que o Brasil precisa agregar valor às matérias-primas. “No Brasil é possível ter tecnologia, smart farming [uso de análise de dados na agricultura], drones. Na área árabe temos o capital e empresários muito dinâmicos”, observou.
Ele comentou que 65% da população dos países árabes está abaixo dos 30 anos, algo semelhante à dinâmica populacional do Brasil, e que há desafio para criar mais empregos. “É preciso existir paz e segurança entre os países. Os empresários vão ter papel muito importante. Vamos ter programas sustentáveis com Brasil, países árabes e islâmicos”, disse Hussein.
O fórum promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira tem como patrocinadores Fambras Halal, International Halal Academy, Vale, DP World, Cdial Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF Global Foods Company, Qatar Airways e MZAH Group Investment. São apoiadores institucionais Liga Árabe, União das Câmaras Árabes e Federação das Indústrias do Estado da Bahia. É parceira a Cacilda Aragão Tours.
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