São Paulo – Não dá mais para fazer as coisas da mesma forma, é preciso buscar novos caminhos – especialmente em tempos de crise. Foi essa a mensagem central do terceiro painel do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, com o tema “Comércio, logística, corredores & resiliência financeira”. Khaled Hanafy, secretário-geral da União das Câmaras Árabes, abriu o painel falando dessa necessidade de uma nova abordagem. “Muitos exportadores foram obrigados a parar de trabalhar quando o canal de Ormuz foi interrompido porque não souberam se movimentar”, disse. O evento foi organizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e realizado nesta terça-feira (25), em São Paulo.

“Existem quatro palavras-chave para o momento atual: movimento, armazenamento, financiamento e conhecimento. Porque não dá mais para se movimentar, armazenar produtos, buscar financiamentos da forma que se fazia antes. E o conhecimento é fundamental para estar alertas a futuras crises”, explicou Hanafy. “Conclamo os dois lados, brasileiro e árabe, para pensarmos nesses novos caminhos.”
O debate foi novamente conduzido por Justin Alexander, diretor da Khalij Economics. Fabio Siccherino, CEO da DP World Brasil, falou da operação da sua empresa em 85 países (com 82 terminais portuários) e sobre a expansão no Porto de Santos, da ordem de R$ 5 bilhões, aumentando a capacidade dos contêineres e a estrutura para celulose, grãos e fertilizantes. Mas lembrou dos pontos de estrangulamento de logística ainda dentro do Brasil. “Fazer um produto chegar ao porto de maneira eficiente e competitiva é um dos maiores desafios do país ainda hoje”, lembrou, destacando os baixos investimentos em infraestrutura. “Hoje, é preciso ter um plano B e estar atento aos movimentos internacionais para saber quando acioná-lo.”

Hisham A. Al Ansari, diretor-executivo e sócio executivo da Mediterranean Shipping Company (MSC) na Arábia Saudita, contou qual foi o plano B da sua empresa para lidar com os desafios quando os corredores tradicionais de comércio foram interrompidos. “O que fizemos no começo? Rastreávamos tudo e utilizávamos caminhões para mover as cargas. Assim, criamos uma modalidade: mar-terra-mar. Em Riad, que tem sistema de trens, entrou mais esse modal. O sistema intermodal funcionou bem, mas ainda não é eficiente como deveria ser.” A experiência o fez ver que, mesmo com o Estreito de Ormuz funcionando normalmente, existem outras possibilidades, e que a MSC pode oferecer um ecossistema mais eficiente e rápido.
Ali Mohammed Tabouk, CEO da Zona Franca de Salalah, em Omã, concordou que o mundo está passando por uma revolução e que os países precisam compartilhar suas experiências em busca de soluções. “Viajei 16 horas de Omã até aqui pra compartilhar o potencial que temos para construir novas oportunidades”, disse. E fez sua melhor propaganda para tempos de guerra: a diplomacia do pequeno país árabe. “Omã é amigo de todo mundo! Não temos inimigos. E é uma arte ser amigo de todo mundo. Somos apenas 5 milhões, mas somos o hub perfeito para o setor privado do Brasil, podemos ser a porta de entrada para os produtos brasileiros”, disse.
Sara El Gazzar, decana da Faculdade de Transporte Internacional e Logística da Arab Academy for Science, Technology and Maritime Transport, no Egito, lembrou que existe uma relação direta entre política, logística e comércio. E tudo o que se considerava como rota normal, duradoura, agora está obstruída. “É preciso ter resiliência para achar novas rotas”, disse. E, nesse sentido, argumentou que a relação entre o Brasil e o mundo árabe deveria ser menos linear e mais estratégica, o que ajudaria inclusive nessa busca por novos caminhos comerciais.

“O Brasil precisa entender melhor a complexidade do mundo árabe, que do Marrocos e Egito até os países do golfo engloba muitas culturas diferentes. E, em um comércio bilateral, os lados precisam conhecer melhor a cultura do outro”. Sara falou ainda do potencial dos países árabes como hub dos produtos halal para os demais países muçulmanos, não árabes.
Por fim, Maher Nour, fundador e CEO da Orbitra, empresa de trading, falou sobre a importância de ter em empresas como a dele, equipes que sabem colaborar entre si e que estão atentas aos movimentos geopolíticos. “Cada problema vai ser diferente, então é preciso ter dados em tempo real, colaboração em tempo real e soluções em tempo real. E, claro, muita adaptabilidade.”
O fórum promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira tem como patrocinadores Fambras Halal, International Halal Academy, Vale, DP World, Cdial Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF Global Foods Company, Qatar Airways e MZAH Group Investment. São apoiadores institucionais Liga Árabe, União das Câmaras Árabes e Federação das Indústrias do Estado da Bahia. É parceira a Cacilda Aragão Tours.
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