São Paulo – A cozinha da avó materna sempre foi um lugar de descobertas para a brasileira Katya Salomão, de 55 anos. Enquanto adolescente, ela vivia um ritual especial com a matriarca: a produção de azeites saborizados com ervas. A tradição que a avó, Maria Issa Salomão, aprendeu com sua mãe, foi trazida da Síria quando ela imigrou com o marido, Belmiro João Salomão, para o Brasil.
O que era um hobby acabou virando a profissão de Katya, que abriu a loja virtual de venda dos óleos vegetais saborizados chamada Kochen Azeites Saborizados em 2018. Desde então, os produtos já chegaram em quase 20 estados brasileiros e ganharam prêmios internacionais.

“Minha avó veio jovem para o Brasil, se adaptou, criou família por aqui e uma das coisas que sempre amou fazer para a família era produzir os azeites saborizados. As receitas variavam conforme a época do ano, mas ela utilizava várias ervas como alecrim, manjericão, orégano e sálvia”, relembra a empreendedora.
Nascida em Vespasiano, no estado de Minas Gerais, Katya começou a acompanhar o preparo por volta dos 14 anos. “Minha avó desidratava as ervas naturalmente no sol, antes de macerá-las com azeite. Depois, ela coava a mistura e, por fim, completava a garrafa com mais azeite extravirgem. Essa é uma lembrança muito boa que eu tenho da minha juventude”, resume.
Naquela época, porém, a culinária era apenas uma tradição familiar. O futuro profissional de Katya parecia seguir outro caminho: o da dança.
Do tratamento aos palcos
Antes de trabalhar com azeites, a mineira teve uma longa vivência como bailarina profissional e chegou a ter duas academias de dança. A relação com o balé começou por acaso. Aos sete anos, Katya caiu em uma piscina vazia e quebrou os dois braços. Como não havia serviço de fisioterapia em sua cidade na época, o ortopedista recomendou aulas de dança para recuperar os movimentos.
Com o tempo, ela tornou-se bailarina clássica e mais tarde se formou em Educação Física. Aos 14 anos, abriu sua primeira academia de balé e jazz. “O sírio, o árabe, tem essa vontade de querer trabalhar cedo, por isso comecei ainda na adolescência. Meu pai me ajudou por um tempo a montar o estúdiozinho, que depois foi crescendo”, diz.
A meta era vender 50 garrafas de azeites saborizados durante a semana do curso, mas terminei o desafio com 108 unidades comercializadas.
Katya Salomão
Ao sair da escola, a brasileira precisou conciliar a faculdade em período integral com as aulas de dança, que eram dadas à noite. O negócio expandiu e virou duas academias, que permaneceram em atividade por 39 anos.
Em 2009, Katya interrompeu temporariamente a rotina ao aceitar o convite para assumir a Secretaria Municipal de Cultura de Vespasiano, cargo que ocupou durante oito anos.
Ao deixar a administração pública, em 2017, voltou para o negócio que havia permanecido sob os cuidados de um gerente. Foi nesse retorno que percebeu o quanto havia se distanciado da gestão das academias. “Eu tive esse choque cultural entre a forma de gestão pública e a gestão privada, pois isso, decidi me reencontrar como empreendedora fazendo um Empretec do Sebrae”, conta Katya. O Empretec é um programa de formação de empreendedores criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e oferecido no Brasil pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
“Durante o seminário, os participantes precisavam criar uma empresa temporária para colocar em prática conceitos de empreendedorismo, e eu fundei a Cria. No começo, a meta era vender 50 garrafas de azeites saborizados durante a semana do curso, mas terminei o desafio com 108 unidades comercializadas”, diz. Cria foi o nome informal que Katya deu ao negócio durante a formação.
Criação da empresa
Depois de um mês, os clientes iniciais começaram a procurá-la e as encomendas cresceram rapidamente. As garrafas, que foram dadas como presentes de formatura e de Natal, em seguida, foram comercializadas em feiras de bairro, onde os estoques se esgotavam em poucas horas.
“No início, eu produzia os azeites de forma artesanal, mas quando eu percebi que viraria um negócio, abri a empresa em fevereiro de 2018 e decidi aprofundar meus conhecimentos técnicos. Durante a pandemia, as academias ficaram fechadas e foquei na produção de azeite. Quando as reabri, vi que não queria continuar nesse negócio”, conta.

Desde então, ela realizou cursos de formação como sommelier de azeites na Itália, no Uruguai e na Austrália. Hoje, a empresa trabalha com cerca de 90 produtos, entre eles aproximadamente 35 sabores de azeites, além de geleias e licores. A matéria-prima vem de diferentes produtores mineiros, selecionados criteriosamente pela empresária.
Poucos anos após fundar a empresa, vieram os primeiros reconhecimentos internacionais. Em 2022, Katya enviou seis sabores para um concurso realizado na Itália. Todos foram premiados: três receberam medalha de ouro e três conquistaram medalhas de prata.
Em 2024, conquistou o título de melhor azeite saborizado do mundo na categoria menta. Neste ano, ficou entre as cinco melhores do mundo com o sabor laranja. Ao todo, a empresária acumula mais de 30 premiações internacionais.
Atualmente, a Kochen vende para 17 estados brasileiros, atende mais de mil clientes entre pessoas físicas e jurídicas e conta com nove colaboradores. A empresa já está preparada para iniciar exportações e busca ampliar sua presença em mercados internacionais, especialmente nos Estados Unidos.
Apesar do crescimento, Katya afirma que o maior patrimônio da empresa continua sendo a tradição herdada da avó. “Você tem que acreditar demais no produto e na sabedoria dos ancestrais para transformar essa tradição de família em um negócio. São poucos os que têm coragem de fazer isso”, conclui a brasileira.
Saiba mais sobre a Kochen.
Reportagem de Rebecca Vettore, em colaboração com a ANBA


