Fundo saudita pretende investir até US$ 10 bi no Brasil

Anuncio foi feito após reunião do presidente Jair Bolsonaro com o príncipe-herdeiro do país árabe, Mohammed Bin Salman.

Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br

Riad – O governo brasileiro anunciou nesta terça-feira (29) que o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF, na sigla em inglês) pretende investir até US$ 10 bilhões no Brasil. O anúncio foi feito pelos ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, após reunião do presidente Jair Bolsonaro com o príncipe-herdeiro saudita, Mohammed Bin Salman, em Riad.

“Os dois lados expressaram seu apoio à concordância do Fundo de Investimento Público saudita em explorar potenciais oportunidades de investimentos mutuamente benéficos em até US$ 10 bilhões, em parceria com a República Federativa do Brasil”, diz declaração conjunta sobre Parceria Estratégica para Investimentos entre Brasil e Arábia Saudita divulgada na noite desta terça (horário local).

Mohammed Bin Salman (esq.) e Bolsonaro

O PIF é o fundo soberano saudita. De acordo com Araújo, os setores que vão receber recursos serão decididos “em comum acordo”. “Isso é o resultado do empenho diplomático, do presidente, dessa nossa visita. A relação que nós estamos construindo com a Arábia Saudita, com todo o mundo árabe, é também o resultado da confiança que o Brasil está gerando no exterior”, afirmou o chanceler brasileiro. “Hoje falávamos com o presidente da Goldman, Sachs [John Waldrow], que dizia que o Brasil e a Arábia Saudita hoje são certamente os dois países mais dinâmicos para receber investimentos. Enfim, é toda uma conjunção”, acrescentou.

Segundo Lorenzoni, o Brasil é o sexto país que vai receber aportes do PIF. Os outros são Estados Unidos, Japão, França, África do Sul e Rússia. “O volume de investimentos [prometido para o Brasil] é o mesmo feito na Rússia, por exemplo, e o dobro da França”, destacou.

Ele ressaltou que será criado um conselho de cooperação entre os dois governos, com participação do setor privado de ambos os países, para definir em quais áreas vai ocorrer o investimento e o cronograma da aplicação dos recursos. “Nós devemos dentro de duas ou três semanas ter este conselho pronto”, disse. A ideia é aproveitar que no próximo ano “haverá um conjunto muito grande de ofertas do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI)”. Lorenzoni acredita que os investimentos vão ocorrer num prazo de até três anos.

O ministro da Casa Civil, responsável pelo PPI, destacou projetos nas áreas de petróleo e gás, portos, aeroportos, rodovias e ferrovias. “Nós temos, por exemplo, um grande interesse na Ferrogrão, onde há uma grande possibilidade que eles construam. É uma ferrovia importantíssima para o Brasil, vai de Mato Grosso ao Pará, são praticamente mil quilômetros de ferrovia, tem um custo estimado em mais de US$ 3 bilhões, é um projeto que sai do zero e que vai até a entrega final”, declarou.

Ao voltar de um jantar oferecido por Mohammed Bin Salman aos participantes da Iniciativa de Investimentos do Futuro (IFF, na sigla em inglês), conferência que ocorre em Riad e é apelidada de “Davos do Deserto”, Bolsonaro disse que os sauditas “abriram” a escolha das opções de investimentos para o Brasil. “Nós temos a Ferrogrão, por exemplo. Uma saída para o [Oceano] Pacífico também seria bem-vinda, mas US$ 10 bilhões dá para fazer muita coisa e a gente precisa de infraestrutura para realmente desenvolver o Brasil”, declarou. “As portas estão abertas para o Brasil, esses investimentos são muito bons.”

O presidente comentou que no jantar estavam presentes o rei da Jordânia, Abdullah II, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, entre outras autoridades, e o genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Jared Kushner. Bolsonaro será um dos palestrantes da IFF nesta quarta-feira (30).

Lorenzoni ressaltou que a iniciativa “teve uma participação decisiva” do embaixador do Brasil Em Riad, Marcelo Della Nina.

Ernesto Araújo acrescentou que o anúncio das intenções de investimentos do PIF é “talvez” o resultado mais concreto do giro que o presidente fez nas últimas duas semanas pela Ásia e Oriente Médio, que incluiu passagens pelo Japão, China, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita.

“Vai gerar uma dinâmica de outros investimentos”, afirmou. “Todos estes grandes fundos já estão percebendo que o Brasil é incomparável em termos de taxa de retorno, em termos de quantidade e qualidade de nosso portfólio de investimentos, então acho que [essa iniciativa] vai gerar também um efeito de emulação, vários dos fundos buscando investimentos no Brasil. Além da importância em si, é a semente de todo um processo de investimentos internacionais”, disse.

Ainda sobre os investimentos, Bolsonaro disse que propôs ao príncipe investimentos na Baía de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. “Para transformá-la numa Cancun. Depois de uma explanação, ele disse que está pronto para investir na Baía de Angra, mas isso passa por um projeto para revogar um decreto ambiental”, declarou.

BRF

Nesta terça-feira, na outra mão, a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, anunciou o projeto de investir US$ 120 milhões numa fábrica na Arábia Saudita. O país estava restringindo a importação de produtos processados da unidade que a empresa mantém em Abu Dhabi, nos Emirados. Lorenzoni afirmou que este assunto agora está superado.

“Aqui pode ser uma plataforma inteligente para as empresas brasileiras acessarem negócios em mercados que são super relevantes”, destacou o ministro da Casa Civil, se referindo especificamente à África e à Ásia. “Eles têm todo interesse em que empresas brasileiras também venham para cá, para diversificar a própria economia deles”, concluiu.

José Dias/PR
José Dias/PR

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