São Paulo – Em sua passagem recente pelo Brasil, o secretário-geral da União das Câmaras Árabes, Khaled Hanafy, propôs o avanço da relação entre o Brasil e os países árabes para além dos volumes de comércio, por meio de uma iniciativa denominada Aliança de Valor Brasil-Árabe (BRAVA, na sigla em inglês), que contempla, entre outras frentes, conexão logística e alinhamento tecnológico.
“Precisamos passar de uma relação baseada apenas no comércio para alianças estratégicas. Em vez de simplesmente buscar os mercados uns dos outros, devemos construir valor juntos. Representaria uma mudança na relação, que deixaria de ser pautada apenas pelo volume de comércio para avançar em uma direção diferente”, explicou Hanafy em entrevista para a ANBA na última semana.
Citando as trocas de mercadorias de cerca de US$ 33 bilhões entre Brasil e países árabes no ano passado, Hanafy disse que há um aumento evidente no comércio, que o Brasil é visto como um país amigo pelos árabes, o que é grande vantagem, e que também há grandes volumes de produtos da região árabe no Brasil.
O que precisamos fazer no futuro é não apenas continuar focando no fluxo comercial ou no volume de comércio.
Khaled Hanafy
“Mas um relacionamento não se resume ao volume de comércio. Nós começamos a discutir conexões logísticas. Nós começamos a falar em iniciativas culturais que aprofundam e fortalecem a relação entre os países árabes e o Brasil”, disse, sobre o novo fluxo que percebe e vislumbra. “O que precisamos fazer no futuro é não apenas continuar focando no fluxo comercial ou no volume de comércio”, argumentou.
Segundo Hanafy, a BRAVA vai além de parcerias entre empresas. “Vamos nos aliar para criar valor juntos. A criação de valor não significa apenas ter duas empresas trabalhando juntas. Estrategicamente, precisamos discutir uma carteira de projetos e investimentos a serem preparados. Precisamos falar sobre corredores e redes logísticas, não apenas dois portos interligados. Precisamos falar sobre alinhamentos tecnológicos.”
Hanafy quer que árabes e brasileiros foquem em atividades que agreguem valor. “Proponho algo chamado vantagem colaborativa versus vantagem comparativa”, diz. “Precisamos focar mais em digitalização, inteligência artificial, logística, serviços em geral e, mesmo no setor industrial, ter indústrias que incorporem serviços, soluções digitais e inteligência artificial. Portanto, é preciso deixar de lado a forma tradicional e clássica de fazer negócios e avançar para algo diferente”, falou também.
Os conflitos em curso também pedem mudanças no comércio, segundo o entendimento do secretário-geral. “Hoje em dia, estamos testemunhando problemas geopolíticos em toda parte. Por isso, há necessidade de contar com diferentes localizações e rotas alternativas”, afirma. Confirmando o impacto da guerra no comércio internacional, Hanafy diz que é preciso estar protegido, ser resiliente e buscar oportunidades. “Quando a guerra acontece, há mudanças nas rotas comerciais, há mudanças nos corredores logísticos, há diferentes escolhas de portos, diferentes opções de origem e destino para os produtos”, afirmou.
Inteligência Artificial
Questionado sobre o quão avançados estão os países árabes em inteligência artificial e novas tecnologias e as possibilidades de cooperação com o Brasil nestas áreas, Hanafy lembra que a região árabe é muito diversa. “Os países árabes estão mudando significativamente. Não podemos apenas tratá-los como um bloco. Os países árabes são 22. Eles não são homogêneos. É possível segmentá-los em três ou quatro grupos. Alguns desses grupos estão muito avançados em inteligência artificial e tecnologia, e todos os 22 são países jovens. Cerca de 65% da população tem menos de 30 anos”, afirma.
Khaled Hanafy fala de países no mundo árabe muito bem equipados com conhecimento relacionado à inteligência artificial e à digitalização. “Portanto, ao promover a interação entre essas pessoas na região árabe e suas contrapartes no Brasil, podemos criar um espírito empreendedor para desenvolver plataformas e produtos, não apenas os produtos tangíveis clássicos. Há muitas outras áreas ainda em que podemos trabalhar juntos para penetrar em todos os mercados”, afirma.
O secretário-geral esteve no Brasil para participar do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, que foi promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira no dia 25 de agosto, na capital paulista, e do qual a União das Câmaras Árabes foi uma das apoiadoras institucionais. No fórum, Hanafy falou na abertura, com as demais autoridades, e participou de um painel. Ele cumpriu agenda de compromissos no Brasil acompanhado da consultora sênior da União das Câmaras Árabes, Sara El- Gazzar, e da diretora de Assuntos das Câmaras Árabes Conjuntas da instituição, Hoda Katchan.
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