Mascate libanês nos palcos de São Paulo

Peça teatral ‘Cartas Libanesas’ estreia nesta sexta-feira e conta a história do personagem Miguel Mahfouz, que se mudou do Líbano para o Brasil em 1914. Texto foi feito a partir de relatos de imigrantes.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – Miguel Mahfouz é um jovem libanês que se mudou para o Brasil em 1914 e conta para a plateia o seu cotidiano, os seus dramas e as suas vitórias de mascate e imigrante. Ele também fala por cartas com a mulher que ficou grávida no Líbano, mas para o público ouvir. No palco, Mahfouz tem a companhia da sua mala de comerciante ambulante.

É assim, por meio do personagem, que a peça teatral Cartas Libanesas, que estreia na capital paulista nesta sexta-feira (20), aborda a imigração libanesa no Brasil. O texto, de José Eduardo Vendramini, foi construído a partir da memória familiar do próprio Vendramini e do ator Eduardo Mossri, ambos descendentes de libaneses. Eles também coletaram relatos junto a imigrantes do país árabe no Brasil e transformaram Mahfouz em uma síntese destes imigrantes e suas histórias.

A montagem é um projeto dos dois. Quando a avó libanesa de Mossri morreu, aos 99 anos, ele achou um calhamaço de cartas escritas por ela em árabe e resolveu levar até seu professor na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Vendramini. O material ainda não foi traduzido, mas desta ideia surgiu a pesquisa com os imigrantes, que durou cerca de seis meses, e a peça Cartas Libanesas.

A apresentação é um monólogo, no qual Mossri interpreta Mahfouz. O diretor do espetáculo, Marcelo Lazzaratto, afirma que o personagem conta sobre o que passou para entrar no Brasil, como foi tratado no navio, a dificuldade de se estabelecer em São Paulo, o tratamento de ‘turco’ que recebeu, entre outras coisas. A peça, segundo o diretor, também brinca com as similaridades entre o ator e o mascate. “Todo ator é um mascate”, diz Lazzaratto. Por meio das cartas, Mahfouz tenta convencer a mulher que ficou no Líbano a se mudar também para o Brasil. “Ele se vê apaixonado pelo Brasil”, conta Mossri.

O diretor e o ator afirmam que apesar de tratar de libaneses, a peça aborda a imigração como um todo. “É um pouco a história de todos os imigrantes”, diz Mossri. Lazzaratto conta que nos ensaios abertos, pessoas de outras origens que não libanesa também disseram ter se identificado. “Em um mundo cada vez mais globalizado é importante falar da convivência com as diferenças”, afirma o diretor do espetáculo.

Os ensaios começaram em outubro do ano passado e a temporada no Sesc é a primeira do espetáculo. Mas Mossri tem planos de levar a montagem para outras cidades e não descarta a participação em festivais no exterior, inclusive em países árabes como o Marrocos. O seu segundo projeto, envolvendo temática árabe, deve ser, aliás, a tradução das cartas da avó e a transformação dessa história familiar também em teatro.

Além da direção, Lazzaratto também faz a iluminação do espetáculo. O cenário é de Renato Bolleli, a trilha sonora de Gregory Silva, os figurinos de Fause Haten, a assistência de direção de Wallyson Motta, a preparação vocal de Rodrigo Mercadante, o visagismo (maquiagem, penteado, etc.) de Nael Kassees, a fotografia de Felipe Stucchi, a produção executiva de Anayan Moretto e a direção de produção de Henrique Mariano. A peça fica em cartaz até 30 de maio.

Serviço:

Sesc Ipiranga
Rua Bom Pastor, 822 – São Paulo – SP
De 20 de março a 30 de maio. Sextas, às 21h30, e sábados, às 19h30
Preço: de R$ 6 a R$ 20
Duração: 60 minutos
Classificação etária: livre
Não haverá espetáculo nos dias 03/04 e 01/05

Felipe Stucchi

Publicações relacionadas