São Paulo – No início dos anos 1930, o futebol se profissionalizava e os clubes paulistas que não tinham recursos para investir na modalidade começaram a apostar em outros esportes. Foi nesse contexto que o Esporte Clube Sírio, associação poliesportiva da cidade de São Paulo fundada por imigrantes árabes, voltou a sua atenção para o basquete. Transcorridos cerca de 50 anos, o clube ganhava o título de Campeão Mundial Interclubes de Basquete, feito inédito para um time brasileiro.
Esses dois episódios – e uma variedade de fatos ocorridos entre eles e de personagens envolvidos – serão conteúdos de uma minissérie documental que pretende mostrar um tempo áureo do basquete nacional, muito ligado ao clube fundado por jovens de origem síria do Brasil. “A equipe de basquete fez uma excursão para a Síria depois do título mundial para levar a taça”, conta Rafael Kalil Crespo, proprietário, produtor e diretor de Conteúdo da Valete de Copas Filmes, produtora audiovisual à frente do projeto da minissérie.

Com o roteiro já em mãos, Rafael agora busca patrocinadores para a minissérie, que foi inicialmente batizada de “Quando Fomos Gigantes”. O projeto foi aprovado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) para captar patrocínio com renúncia fiscal. Isso significa que os valores que empresas destinarem para a realização da minissérie serão deduzidos de impostos. “A aprovação aconteceu há dois meses, desde então estamos nas tratativas de trazer empresas parceiras – a custo zero”, relata Rafael.
Dono da ideia do projeto, Rafael nunca foi um fã ou seguidor do basquete, mas sempre esteve envolvido com o Esporte Clube Sírio, onde chegou a ocupar cargos na diretoria. “Com a aproximação do aniversário de 45 anos do título mundial, que foi há dois anos, eu me dei conta que muita gente da nova geração não conhece essa história ou o valor dessa história”, afirma, sobre o que motivou o projeto.

Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), para começar o projeto, Rafael e sua produtora foram atrás de resgatar as informações sobre o assunto, com pesquisa de texto, foto e vídeo, e começaram a construir a minissérie, que terá quatro episódios e ficará pronta em 2029, quando o título mundial completa 50 anos.
Em entrevista à ANBA, Rafael contou um pouco do que vai rechear essa produção e das suas impressões sobre o desenrolar dessa história. “O clube (Esporte Clube Sírio) se tornou uma potência que conseguiu bater de frente com o Corinthians, com o Palmeiras, com Franca que é uma cidade inteira voltada ao basquete – e o Sírio é um clube que na época tinha menos de três mil associados”, fala, sobre o tempo áureo.
“A minissérie percorre desde o período em que o Esporte Clube Sírio mantinha sua sede na Ponte Pequena – região então consolidada como centro esportivo da cidade, onde o clube investiu no basquete – até a trajetória do time já na atual sede, na avenida Indianópolis, na zona sul de São Paulo. “O Sírio optou pelo basquete porque não tinha condições de bancar um time profissional de futebol”, diz Rafael, sobre um período em que o futebol passou a ter que pagar salários, entre outras obrigações.
Alguns anos depois, quando se avizinhava 1950, o início das obras das marginais na cidade expulsou os clubes esportivos das proximidades do Tietê, onde estava o Sírio. “Dos clubes que praticavam basquete, que não tinham o futebol profissionalizado, o único que teve condições de ir embora de lá foi o Sírio”, diz Rafael. A opção foi se acercar-se do Clube Atlético Monte Líbano, também formado pela comunidade árabe, já estabelecido na zona Sul. “E essa cena do basquete meio que vai como o Sírio”, fala Rafael.
A minissérie dos gigantes vai contar sobre Paulo e Alberto Narchi, que naqueles primórdios chamaram entusiastas do basquete das margens do rio para jogarem na zona Sul. “Eles conseguem recrutar muita gente boa dos clubes que iam acabar sofrendo com as marginais”, diz Rafael. “Eles passam a recrutar grandes jogadores, isso ainda na década de 1950, e o Sírio começa a fazer frente com grandes clubes.”
…muita gente da nova geração não conhece essa história ou o valor dessa história
Rafael Kalil Crespo
Estarão no roteiro da minissérie as derrotas do Sírio nos Campeonatos Mundiais Interclubes de Basquete em 1969, 1973 e 1978, assim como a sua responsabilidade por vitórias da seleção. “O Brasil, como Seleção Brasileira de Basquete, vai ser campeão mundial em 1959 e 1963. Em 1963, quatro dos cinco jogadores em quadra eram do Sírio. Então, nas duas Copas do Mundo de Basquete que a Seleção Brasileira venceu, o Sírio foi o principal responsável por isso”, relata Rafael.
Durante os 30 anos sobre os quais a minissérie vai se debruçar, passaram pelo Sírio grandes jogadores brasileiros do basquete, como Amaury Pasos, Oscar Schmidt e Marquinhos Abdalla – todos já falecidos, os dois últimos neste ano de 2026. “As poucas exceções (grandes jogadores que não passaram pelo Sírio) vão ser os grandes rivais do Sírio nessa época, mas eles também vão fazer parte dessa história. Os grandes personagens do basquete brasileiro até o final da década de 70, todos fazem parte da história”, diz Rafael.
O protagonista será Washington Joseph, o Dodi, capitão do time que venceu o Campeonato Mundial Interclubes de Basquete em 1979. Dodi, descendente de árabes e associado do clube, começou jogar basquete no Esporte Clube Sírio ainda menino e seguiu por todo o período que a minissérie relata. “O time quase acaba depois da derrota do Mundial de 1973 e ele é praticamente o único remanescente”, diz Rafael. Boa parte da minissérie é feita a partir da ótica de prodígio e fiel de Dodi.

O fato de o Esporte Clube Sírio ser fundado por imigrantes árabes se faz presente na minissérie por meio das histórias sobre o acolhimento que o clube deu aos atletas. O basquete não era um esporte profissional, então, os jogadores recebiam suporte de todos os tipos dos associados do clube. “O Sírio se mobilizou como comunidade e isso é algo que a gente pretende explorar muito na minissérie e o que faz essa história ser tão especial. O clube abraçou com todas as forças esse time de basquete”, afirma Rafael.
A narração histórica vai se misturar com relatos que exploram aspectos pessoais de cada fato. A minissérie também terá imagens inéditas da história do basquete brasileiro, de filmagens feitas por um integrante da diretoria do Esporte Clube Sírio, Wilson Ford, já falecido. “Ele tinha uma câmera Super 8 e ele filmava as viagens e os bastidores do time. E o sobrinho dele preservou essas imagens”, diz Rafael.
O dono da Valete de Copas Filmes já está em tratativas sobre a distribuição da minissérie e diz que esse assunto está bem encaminhado com players importantes do mercado. O objetivo é que “Quando Fomos Gigantes” seja distribuída no Brasil e no exterior. A produção vai contar principalmente a história do basquete brasileiro a partir da perspectiva do Esporte Clube Sírio, mas grandes nomes e fatos ligados ao basquete internacional também estarão no roteiro, segundo Rafael.
Contato:
Valete de Copas Filmes
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