São Paulo – O gato malhado se espreguiça na escada externa da casa azul. Quem passa por ali mexe com o bichinho, mas ele está tomando sol e parece nem se incomodar. Alguns metros adiante, um senhor no alto de uma escada renova a pintura da parede de sua residência, também azul, e conversa com quem passa. Ele aceita que fotografem o que está fazendo, diferente da mulher de hijab colorido, na outra rua, que oferece os pães recém-saídos do forno, de um imóvel também azul, mas prefere que não tirem fotos.

Ao redor do gato, da mulher e do homem tudo é azul porque é em Chefchaouen que essas vidas se desenrolam. O mundo vai a turismo conhecer a cidade antiga ou medina de Chefchaouen motivado pela cor azul predominante nas edificações, mas ali também se depara com um adicional valioso: o dia a dia que acontece. Diferente de outros locais turísticos formatados apenas para receber viajantes, as paredes azuis são de lojas e casas que abrigam gente que faz comércio, mora, trabalha, celebra, namora, se emociona, chega e se despede, sente saudades, chora e dá risada.
É compreensível que em dado local da medina tenham escrito, com letra bonita, um pedido público para que falem baixo. Alguém quer dormir ou embalar o bebê. O guia turístico Aladin Boukhajjou explica que na cidade as atividades não começam cedo, inciam principalmente a partir de 10h. Também parte daquele cenário pulsante, Aladin cumprimenta conhecidos — ora em tom efusivo, ora mais formal — enquanto caminha pela medina e a apresenta aos turistas.

Há uma casa aqui e outra acolá de cor azul por toda Chefchaouen, mas na parte histórica murada da cidade o tom predomina. Na medina, uma praça central chamada Uta El-Hammam reúne mesquita, fortaleza, cafés, restaurantes, alguns hotéis, funcionando como o eixo que dá acesso às ruelas percorridas por turistas, onde ficam lojas e residências de paredes externas em diferentes tons de azul.
O passeio pelas vielas da medina é um momento único. Talvez algum morador deixe o visitante dar uma espiada na própria casa e, com certeza, o dono do ponto comercial vai convidar quem passa para entrar, vai oferecer cerâmicas, calçados, bolsas, roupas, souvenirs, temperos, lenços, louças, quase tudo feito por artesãos. A medina de Chefchaouen é um paraíso para quem gosta de comprar.
Em uma esquina, identificando brasileiros à sua frente, o dono de uma loja com têxteis alusivos ao futebol lembra sorridente que as seleções de Marrocos e Brasil se enfrentam pela Copa do Mundo da Fifa em 13 de junho. Em outro estabelecimento, ao buscar um chinelo de couro na numeração pedida no depósito, o comerciante diz que gosta de estar ali, nos fundos da loja comprida. “Aqui tem silêncio”, confessa para a cliente. Em uma portinhola bem pequena, outro marroquino vai produzindo manualmente imãs de geladeira e belos quadros, enquanto é gentil com os consumidores, em uma dobradinha entre ser artesão e vendedor.

Várias teorias discorrem sobre como a cor azul chegou e se estabeleceu em Chefchaouen. Mas o guia Aladin conta que o turismo fez com que as pessoas começassem a pintar nessa cor todos os lugares. A atividade turística não expulsou os moradores. Ao contrário, entre uma loja e outra vivem cidadãos locais e europeus. “Muitos cidadãos europeus, especialmente da Espanha, decidiram se mudar para cá. Alguns deles alugam casas e as transformam em hotéis. Mas também há muitos aposentados, porque é mais barato do que na Europa e, ao mesmo tempo, é muito perto de Ceuta”, diz o marroquino, sobre a cidade autônoma da Espanha que fica na margem africana.
Cercada pelas montanhas de Rif, que tornam mais charmosa a paisagem da cidadela, Chefchaouen foi fundada no século 15 para servir como um ponto de resistência contra a invasão portuguesa. As diferentes nacionalidades, etnias e religiões que fizeram parte da vida da medina no passado deixaram suas marcas, algumas das quais podem ser conhecidas em uma visita aos locais históricos da praça, como o castelo Kasbah, também chamado de fortaleza. O turismo como fenômeno começou na cidade no início do século 20, quando a Espanha conquistou o norte de Marrocos, e continua até hoje, de acordo com o guia.
Chefchaouen fica no Norte do Marrocos, a cerca de 100 quilômetros de Tânger, 240 quilômetros de Rabat, 340 quilômetros de Casablanca e quase 600 quilômetros de Marrakech. A companhia aérea Royal Air Maroc oferece voos diretos entre Casablanca e São Paulo, e no segundo semestre do ano que vem, também terá uma linha direta ao Rio de Janeiro.
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A jornalista viajou a convite da Royal Air Maroc, Dar Ba Sidi & Spa e agência Alizés


