No Brasil e mundo árabe, pandemia afetou vida das mulheres

Brasileiras dividiram experiências com empreendedoras da Líbia e da Palestina em webinar realizado pelo comitê feminino da Câmara Árabe nesta segunda-feira (08). Covid-19 teve alto impacto na vida das mulheres das duas regiões.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – Os impactos da pandemia de covid-19 foram altos na vida das mulheres, tanto no Brasil quanto nos países árabes. Essa foi uma das reflexões feitas no evento virtual “Mulheres Árabes que Inspiram”, promovido pelo comitê feminino da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, o WAHI – Mulheres que Inspiram, nesta segunda-feira (08), Dia Internacional da Mulher. Quase 400 pessoas do Brasil e exterior acompanharam o webinar.

“A pandemia teve um impacto muito grande entre as mulheres e acho que veremos isso ainda mais nos próximos anos”, disse a líbia Hala Bugaighis, criadora de um centro de pesquisas sobre mulheres e uma incubadora de negócios femininos na Líbia. Ela acredita que a pandemia gerou uma regressão no papel das mulheres no seu país. “As mulheres começaram novamente a assumir todo o fardo de cuidar da saúde, da educação das crianças, cuidar da casa, além de trabalhar fora”, disse a feminista.

A palestina Maysoun Odeh Gangat, que criou uma estação de rádio voltada para mulheres em Ramallah, foi a outra árabe convidada especial do webinar. Ela também percebeu grande impacto da pandemia na vida das mulheres do seu país, maior do que na dos homens. “Muitos empregos foram perdidos e as mulheres foram vítimas nesse sentido”, afirmou, lembrando a jornada dupla em casa e no emprego das que conseguiram segurar as suas vagas.

A presidente do WAHI, Alessandra Frisso, relatou que o mesmo fato ocorreu no Brasil, com mulheres assumindo funções em casa e no trabalho, e que pandemia foi muito crítica para as mulheres de menor renda. “No Brasil nós temos uma faixa populacional com muita dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, mulheres extremamente guerreiras, que vivem em comunidades, são chefes de família, uma luta diária pela criação dos filhos, para conduzir toda a vida familiar, e elas estão sofrendo muito na covid, mas também estão nos ensinando muito”, disse.

Todas as participantes demostraram acreditar que apesar do momento difícil que o mundo vive em função da covid-19, o cenário se mostra propício para a liderança feminina. “As mulheres que são líderes dão um ótimo exemplo, lideram com empatia, lideram com os valores femininos, lideram com cuidado e atenção. Acho que os movimentos das mulheres do mundo inteiro deviam potencializar isso”, afirmou Bughaighis. De acordo com a líbia, mulheres conseguem resolver crises e mudar situações com sabedoria e cuidado.

Maysoun concorda com Hala e acredita que o momento é bom para trabalhar a liderança feminina, para mostrar os pontos positivos dessa liderança e como as mulheres conseguem gerar mudanças no seu entorno. Ela percebe que, no momento que seu país vive, de situação complicada em relação à saúde, às vacinas e ao confinamento, o papel das mulheres tem sido essencial. Maysoun relatou a participação das mulheres no âmbito médico e disse acreditar que haverá um crescimento dessa presença na política e na tomada de decisões na Palestina.

Mundo digital

Alessandra lembrou que além dos desafios sanitário e humanitário impostos pela covid-19, o mundo vive também uma aceleração digital. A palestina Maysoun acredita que a digitalização é um grande desafio para as mulheres, que deveriam ter maior participação no setor de Tecnologia da Informação (TI). “Ainda é uma área dominada por homens, nós precisamos incentivar mais mulheres e garotas a participarem dessa área digital”, disse ela.

Hala relata que há no seu país grande lacuna de gênero na tecnologia. Segundo ela, as mulheres costumam ter acesso a smartphones e laptops, mas não tão bons quanto os homens e nem sempre têm internet, o que gera uma dificuldade de trabalhar com tecnologia, inclusive nos negócios. “Estamos tentando fomentar projetos que ajudem as mulheres a trabalharem com tecnologia, a se adaptarem a essas novas mudanças”, relatou a líbia.

A gerente de Relações Institucionais da Câmara Árabe, Fernanda Baltazar, também falou sobre o desafio que o digital e a inovação representam atualmente para as pessoas. “Como podemos levar isso para pequenas e médio empresárias, para quem não está nos grandes centros? Essa é uma realidade de todo mundo”, disse ela, que foi a mediadora das conversas entre as mulheres árabes, as brasileiras e o público no evento.

Maysoun contou que no contexto atual, em que a Palestina vive uma situação emergencial, de lockdown, muita preocupação com a questão econômica e em que a vacina ainda é um desafio, ela tenta passar uma mensagem positiva para as mulheres na sua rádio. “Nesse nível micro, o que podemos fazer é dar para as mulheres e a população um sentimento mais positivo, que estimule os projetos de cada uma delas”, afirma.

As duas árabes convidadas trouxeram boas notícias sobre o acesso à educação pelas meninas e mulheres em seus países. Elas foram instigadas a falar do tema por uma das diretoras do WAHI, Claudia Yazigi Haddad, que perguntou sobre o assunto. Maysoun e Hala relataram que nos dois países há mais presença de mulheres do que de homens na maioria das universidades. “Na Palestina a educação é importantíssima, na nossa sociedade garotos e garotas são bem educados”, disse Maysoun. Há, no entanto, um menor acesso das mulheres ao mercado de trabalho.

Sonhos na Líbia e na Palestina

Maysoun e Hala contaram dos seus sonhos para o futuro das mulheres em seus países e de como percebem algo novo vindo das novas gerações de meninas. “Eu gostaria muito de ver resultados mais tangíveis, de impactos reais para as palestinas no que diz respeito a garantir nossos direitos, atingir nossa independência e ter nossa voz escutada na sociedade”, disse Maysoun. Ela vê as novas gerações como muito ambiciosas, com muitas ideias próprias de empreendedorismo, mas precisando de apoio financeiro, de visibilidade e networking.

Hala sonha com as mulheres líbias reconhecendo o valor que têm e possuindo um papel ainda mais ativo nas esferas econômica e social do país. “Trabalho com muitas garotas, com jovens, fico impressionada com elas, elas não querem ocupar papéis tradicionais”, diz, citando as novas metas de profissão das líbias – desenvolvedoras de videogames, médicas e astronautas – e relatando o quanto isso a enche de esperança em relação ao futuro.

O WAHI, grupo feminino promotor do evento, foi criado em julho do ano passado e esse foi o seu primeiro Dia Internacional da Mulher. Desde a fundação, o comitê tem trabalhado pela aproximação das mulheres árabes e brasileiras, em eventos como o desta segunda-feira e em outras frentes. Além de Alessandra, Claudia e Fernanda, participaram do webinar pelo WAHI Silvia Antibas, uma das diretoras do grupo e diretora cultural da Câmara Árabe.

Leia mais sobre o evento:

Da Líbia e da Palestina, elas ampliam a voz de mulheres árabes

Acompanhe o webinar completo:

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