O mestre volta ao Egito

Após 53 anos no Brasil, o professor Helmi Nasr retornará ao seu país de origem. Tradutor do Alcorão do árabe para o português, ele sente que sua missão foi cumprida. ‘Volto para o Cairo em paz.’

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – A partir de julho a cadeira do mestre do idioma árabe no Brasil ficará vazia. Após 53 anos vivendo na capital paulista, Helmi Nasr, uma das maiores autoridades em cultura e língua árabe no País, retorna à sua terra natal, o Egito. “Me sinto sozinho”, diz o professor Nasr, aos 93 anos, sentado na cadeira confortável do seu apartamento no bairro do Higienópolis, o mesmo no qual recebeu a reportagem da ANBA há cerca de dez anos para falar da tradução que fez do livro sagrado do Islamismo, o Alcorão, do árabe para o português.

Ele foi casado com a brasileira de origem libanesa Nida Gattaz, que faleceu há sete anos, e retorna ao Egito para se juntar aos seus familiares. No país árabe, Nasr tem um filho, um irmão, netas e sobrinhos. “Minha família é grande”, diz o professor, contando que em função da idade, precisa de cuidados. O mestre agora quer descansar. Ele vai morar no Cairo. “Completei minha missão. Vou terminar minha vida em paz”, afirma ele, se descrevendo tranquilo e feliz. “Vou deixar o Brasil em paz, volto para o Cairo em paz”, complementa.

Nasr implantou o ensino do idioma árabe na Universidade de São Paulo (USP) assim que chegou ao Brasil, na década de 1960. Sem falar português, veio para ficar um ano como enviado do governo egípcio para a missão. Os egípcios consideravam o francês, idioma que Nasr dominava, parecido ao português. Quando o professor se aposentou da USP, há dez anos, o árabe já era tema de estudo na graduação, mestrado e doutorado. E ele tinha ensinado alguns dos profissionais que são hoje referência em cultura, literatura, história e idioma árabe no Brasil, como Safa Jubran, Paulo Farah, Arlene Clemesha e Mamede Jarouche.

Mas o egípcio não concentrou sua atuação somente às salas de aula da universidade paulista e enxergou para si uma missão maior, de manter a cultura árabe viva entre os imigrantes e descendentes de árabes que vivem no Brasil. Nesta trajetória, Nasr traduziu o Alcorão para o português, publicou um dicionário árabe-português, traduziu para o árabe o livro “Novo Mundo nos Trópicos”, do sociólogo Paulo Freyre, e atuou como um porta-voz da cultura árabe Brasil afora, contando em seminários, entrevistas e debates seus estudos e experiência de árabe e muçulmano.

Nasr preocupa-se com a existência na colônia árabe de portadores e transmissores da cultura e do idioma e comemora que os descendentes não estejam atualmente apenas no comércio, como foi assim que chegaram ao País, mas ocupem cargos em todas as instâncias, desde a medicina até o ensino. Foi sentindo-se incumbido de um papel diferente dos homens do comércio, aliás, como homem da intelectualidade, que entrou na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, nos anos 1970, na qual se manteve um fiel dirigente até a partida para o Egito.

O professor foi convidado para fazer parte da Câmara Árabe na época em que o prédio do Hospital Sírio Libanês estava por ser construído e a comunidade árabe buscava recursos para tal. Apesar de ser um representante das letras e achar-se inapto para o papel, Nasr ingressou em um comitê encarregado de conseguir dinheiro para a obra. Acabou arrecadando US$ 200 mil do reino da Arábia Saudita e mais US$ 200 mil para a construção do Hospital do Coração, também projeto da colônia.

Atual vice-presidente de Relações Internacionais da Câmara Árabe, o egípcio se mostra preocupado em deixar a diretoria sem pessoas fluentes no idioma árabe, mas é carinhoso ao falar dos amigos que fez e tem orgulho do trabalho da entidade pelo comércio. “Vivi uma vida maravilhosa de amizades na Câmara”, afirma.

Como diretor, ele foi um dos principais responsáveis pelo processo que culminou com o reconhecimento da entidade pela União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes e pela própria Liga Árabe, em 1992.

Nasr acredita, no entanto, que as relações do Brasil com os países árabes deveriam ser mais incentivadas por órgãos oficiais. “Porque tudo o que está acontecendo é de forma natural”, afirma, reforçando que, se houvesse incentivo, esse movimento seria maior.

Muçulmano, no Brasil Nasr nunca abandonou suas crenças e tem na religião uma das bases da sua vida. Até hoje a ida à Mesquita Brasil, na avenida do Estado, nas sextas-feiras, é programa sagrado para o professor. Desde os primeiros anos na capital paulista, quando templos muçulmanos eram raros pelo País, ele frequenta a mesma mesquita. “Agora tem dezenas”, afirma ele. Para Nasr, também é programa sagrado rezar cinco vezes ao dia, de manhã, ao meio dia, pela tarde, ao cair do sol e pela noite. “É como se fosse refeição”, diz ele. A reza é descrita por ele como o maior símbolo de sua religiosidade.

Outro sinônimo da fé islâmica, para ele, está no trato com as pessoas. “O muçulmano deve ser humano, tratar com carinho os outros, ajudar os pobres, dar uma parte das suas riquezas para os pobres”, diz. Tanto que entre os muitos feitos na academia, o que mais enche o egípcio de felicidade é ter traduzido o Alcorão. E entre todos os títulos que compõem a sua biblioteca e ocupam grande parte do seu tempo atual, aos que ele mais se dedica são os livros religiosos.

Nasr volta para o Egito se sentindo um brasileiro. E também um egípcio. “Mas mais brasileiro que árabe”, fala, com um sorriso maroto e sincero. Depois conta que apesar dos mais de 50 anos de diálogos em português, ainda pensa em árabe. Do Brasil ele aponta "o povo" como o seu melhor. “Muito agradável, muito bom, realmente humano”, afirma o professor. O bairro onde Nasr mora tem uma grande comunidade judaica e ele não tem problema nenhum em se relacionar. São vizinhos e são amigos. “Amizade é amizade. Viva o Brasil”, diz o professor.

Com Nida, Nasr dividiu a maior parte dos anos em solo brasileiro. Professora de espanhol também na USP, eles viveram juntos quase 30 anos. Ela faleceu por problemas no pulmão. “Ela era maravilhosa, muito agradável”, afirma. Em uma foto antiga, na estante de casa, Nasr mostra a mulher de porte alto e elegante com quem foi casado. Falante de árabe, francês, inglês, persa e um pouco de espanhol, com sua amada o idioma de Nasr era português.

Nascido em Mansoura, no Delta do Nilo, de onde até hoje lembra os belos jardins, o retorno do professor será para o Cairo. Lá ele estará rodeado por médicos. O filho é cardiologista renomado na região. Também os irmãos são médicos, um mora no Cairo e outro na Inglaterra. Para a vida em solo egípcio, Nasr não tem planos profissionais, só de descanso e vida familiar. Ele espera encontrar um país que luta para viver bem. E vai voltar como chegou, sorridente e brincalhão. Ao fazer foto com um quadro da raínha egípcia Nefertite na mão, ele aponta: "Minha tia", e dá risada. Até julho ele estará lá, nas terras da lendária rainha.

Sérgio Tomisaki/ANBA

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