Produção do amendoim no Brasil avança com foco na qualidade

Ao longo dos últimos anos, a cadeia produtiva do amendoim tem investido em qualidade. O resultado é o aumento das exportações para países como a Argélia, segundo principal destino do produto.

Thais Sousa
tsousa@anba.com.br

São Paulo – Entre gigantes da produção brasileira, como açúcar e a carne bovina, o amendoim vem despontando no grupo dos produtos do agronegócio que chegam a países árabes. O Brasil é o segundo maior produtor e exportador de amendoim da América Latina. Foram 466 mil toneladas enviadas ao exterior em 2018, perdendo somente para a Argentina, que tem produção anual de cerca de 1 milhão de toneladas.

Do volume brasileiro, 39,5 mil toneladas tiveram como destino a Argélia, segundo maior importador de amendoim in natura do Brasil. Só de 2017 para 2018, o volume embarcado ao país subiu 18,2 mil toneladas. Já no produto processado, o país árabe ocupou o 9º lugar em compras em 2018. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).

A produção, no entanto, passou por transformações na última década. “O Brasil já foi importante produtor de amendoim voltado para o óleo. O que se esperava do grão é diferente do que se pensa hoje. O amendoim in natura tem que ter bom tamanho, boa formação, com as questões sanitárias bem definidas por conta de resíduos e agrotóxicos”, explicou a pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo (IEA), Renata Martins.

Para chegar a esse crescimento nas vendas do produto, foi necessária uma mudança de foco da cadeia produtiva nacional. “O que vem acontecendo é que a partir do início dos anos 2000, a cultura passou por transformação em termos de fortalecimento de cooperativas e indústrias exportadoras. Houve adoção de tecnologias ao longo da cadeia de produção”, pontuou a pesquisadora.

União da cadeia produtiva

É no estado de São Paulo que se concentra mais de 90% da produção nacional de amendoim. O estado responde por 97% das exportações do produto. Ainda assim, quando se vê a balança do agro paulista, o complexo da cana-de-açúcar é o protagonista. Mas é aí que o amendoim entra. Ou melhor, se encaixa nas áreas de renovação do canavial. “A oferta dessas áreas depende da cadeia de produção da cana-de-açúcar. A importância do amendoim não está exatamente no volume, mas porque se destaca para diversificar [as lavouras]”, explicou Martins.

À ANBA, a pesquisadora relatou a virada que o setor viveu nos últimos anos. “O que os números indicam é que a cadeia passou a se organizar melhor, ter fóruns e discussão. A partir de 2013 foi criada a Câmara Setorial de Amendoim, que acontece junto a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. Há organização visando qualidade, mercado externo e interno na indústria confeiteira, que é bem tradicional e está praticamente toda aqui em São Paulo”, exemplificou Martins.

Da parte de produção agrícola, as inovações incluem novas variedades da planta com porte rasteiro, que facilitam a colheita mecanizada, e o beneficiamento com secagem artificial. “O amendoim nasce debaixo da terra. É colhido com alta umidade e precisa passar por processo de secagem e depois ser armazenado. É uma etapa que vai conservar a qualidade. A temperatura e umidade controlada foram sendo amplamente adotadas”, detalhou a pesquisadora.

Exportações e a Argélia

O investimento em qualidade foi acompanhado pela evolução dos embarques a Argélia. De 2014 a 2018 o volume exportado pelo Brasil ao país árabe foi de 26,6 mil toneladas a mais de amendoim. A receita, por sua vez, foi de US$ 16 milhões, em 2014, para US$ 42,5 milhões em 2018.

Os mercados árabes como um todo são muito importantes. Eu creio que [o crescimento nas exportações] foi mais a demanda deles. A Argélia é o maior país da África em extensão territorial, porém é normalmente um país importador de produto agrícola. O Brasil tem um preço competitivo muito bom em relação a outros mercados, como a China, que produz muito, mas tem consumo interno. Nós produzimos e exportamos”, destacou o presidente da Abicab, Ubiracy Fonsêca, em entrevista à ANBA.

E como aproveitar a demanda e elevar a participação brasileira? “No que diz respeito aos países árabes, será necessário fazer prospecção de mercado para verificar até que ponto é economicamente viável. O amendoim é mais competitivo a nível de custo. Vai ser necessário fazer um estudo com a Câmara de Comércio de Comércio Árabe Brasileira. Marrocos, Egito e a própria Tunísia são países que poderiam ser trabalhados”, explicou o presidente.

Qualidade

Para a pesquisadora do IEA, foi uma curva de aprendizado que vem possibilitando o aumento nas vendas do produto. “A exportação do óleo segue e é crescente, mas o mercado que melhor remunera é o do grão” explica Renata. E esse investimento em qualidade, acredita o presidente da Abicab, já é pré-requisito. “A qualidade é uma necessidade intrínseca de qualquer produto que queira se manter. Tanto no mercado brasileiro quanto no exterior”, ponderou Fonsêca.

Os planos para mostrar o resultado deste trabalho incluem expor o produto no exterior. “Temos feito o maior esforço e incentivo para nossas empresas irem a feiras para exportação. Dubai é o local onde o mundo árabe se reúne. Portanto, estamos lá com nossas empresas”, pontuou o presidente da Abicab. Ele citou como eventos no planejamento da associação a feira Gulfood, de alimentos em geral, e a Yummex, voltada para doces, chocolates e snacks, ambas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Para Fonsêca, o trabalho com o produto processado também tem tido destaque com produtos como amendoim japonês, adocicado, salgado e em doces como o pé de moleque. “Temos de 10 a 12 empresas associadas ao amendoim, elas têm comprado produtos e tecnologia. E investido na aparência das embalagens”, pontuou.

A Enova Foods é uma destas empresas que exporta o amendoim processado. Hoje, está no radar da empresa a entrada no mercado de países árabes. “Já conversamos com traders que têm clientes em Dubai e em Doha [Catar]. Temos plano de conversar novamente com a Câmara Árabe para fazer missão para falar com alguns clientes específicos. O plano passa por entrar na associação das empresas da Câmara Árabe. Hoje ainda não fazemos parte e entendemos que é um passo importante para conseguir consolidar negócios [nos países árabes]”, explicou Ricardo Britto Pereira, responsável pelas exportações da Enova.

Gerhard Waller/ Esalq

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