Tecnologias brasileiras reforçam batalha contra a covid-19

Pesquisadores de diferentes instituições desenvolveram tecnologias brasileiras para detectar e inativar o coronavírus. De Raio-X a antisséptico bucal e luz ultravioleta, conheça os produtos que ajudam a combater a pandemia de covid-19.

Thais Sousa
tsousa@anba.com.br

São Paulo – Para além da corrida pela vacina contra a covid-19, pesquisadores brasileiros também buscam outras soluções no combate à pandemia que assolou o globo ao longo de 2020 e adentra, agora, no ano de 2021. Um destes estudos resultou no antisséptico bucal capaz de inativar em 96% a proliferação do novo coronavírus nas vias aéreas superiores. A pesquisa foi feita pela equipe de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), campus de Bauru, interior do estado.

A inativação acontece de forma química e mecânica, explica o professor Paulo Sérgio da Silva, que responde pelo convênio entre a USP e o Hospital Estadual de Bauru. Silva lembra que o próprio ato do bochecho ajuda a remover uma quantidade de vírus. Mas para ampliar isso, a equipe mudou o foco de outra pesquisa, que tinha objetivo inicial de ação antimicrobiana contra fungos e bactérias. Com a pandemia, os professores decidiram testar se o antisséptico desenvolvido seria eficiente contra o coronavírus.

O composto responsável pela inativação do vírus é o derivado da Ftalocianina, e se mostrou eficaz na batalha contra a covid. “Na época, pensamos: precisamos fazer algo quando os vírus estão nas vias superiores”, disse Silva à ANBA. Os pesquisadores entenderam que no início da infecção, quando o vírus ainda se concentra na boca e nariz, é o momento ideal para reduzir ao máximo a carga viral. Mas o professor frisa: “Claro que esse produto não representa uma cura da doença, é preciso continuar tendo os cuidados básicos de lavar as mãos, usar máscaras, etc”.

A empresa brasileira Dental Clean já participava da pesquisa do antisséptico antes dele ser voltado ao combate à covid.

Os testes com pacientes infectados pelo vírus começaram no meio de maio. Na primeira etapa, 40 pessoas foram divididas entre o grupo que recebeu o placebo e o grupo que utilizou o antisséptico. Os estudiosos analisaram como cada grupo se comportou fazendo o bochecho no primeiro dia, e 48 horas e 96 horas depois. Os resultados mostraram que o grupo que utilizou o antisséptico teve redução na gravidade da doença até o 9º dia de infecção. Entre eles, apenas um terço precisou ir à UTI, e nenhum foi a óbito, reduzindo quase pela metade o tempo em internação hospitalar em comparação grupo que utilizou o placebo.

No total, são 61 pesquisadores envolvidos no estudo, que foi ampliado com a participação de estudiosos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e de grupos em Londrina, no Paraná. O antisséptico já está sendo comercializado sob o nome de Detox Pro pela Dental Clean, marca brasileira que participava das pesquisas há dois anos. Os pesquisadores analisam agora o desempenho do produto em pastas de dente e sprays nasais.

Raio-X móvel para o diagnóstico

Para agilizar o diagnóstico da doença, outra empresa brasileira, a VMI Médica desenvolveu um raio-X que identifica pessoas com indícios de infecção por covid-19. A máquina, batizada de Apolo D Smartcheck AI (foto no topo da matéria), foi inicialmente desenvolvida para realização em massa de exames para identificar traços de infecções pulmonares, e passou a ser utilizada para mostrar também características de contaminação pelo coronavírus. O equipamento exibe um mapa de calor que quantifica a porcentagem do pulmão afetada.

Por ser móvel, o modelo pode chegar a locais com pouca infraestrutura para diagnóstico e difícil acesso. Com isso, seria possível reduzir a sobrecarga em atendimentos de hospitais e unidades de saúde. Segundo a companhia, a máquina pode realizar até 400 exames por dia, capturando imagens em cinco segundos. Há, ainda, uma funcionalidade de inteligência artificial que pode ser adicionada ao equipamento, apontando indícios de infecção pulmonar em até vinte segundos.

Para áreas com baixa disponibilidade de mão de obra especializada, o equipamento pode, ainda, ser conectado em uma rede para transmissão de imagens permitindo o diagnóstico remoto. Se feito no local, o processo é realizado por comandos na área externa, reduzindo a exposição do operador. “É uma solução eficaz para os sistemas de saúde de qualquer país. A Inteligência Artificial (IA) incluída no sistema fornece uma porcentagem dos danos causados pela pneumonia viral – um dos sintomas mais mortais de covid-19 que geralmente ocorre no sexto dia de infecção. Com base nessas informações, os médicos podem internar pessoas que realmente precisam ser internadas, organizando os recursos médicos de forma eficiente e eficaz”, explica Youssef Zeinelabdien, gerente de vendas da empresa.

Eder Hüttner, ao centro, e o aparelho NanoOndas criado pela empresa.

O raio-X já foi exportado para Indonésia, Bolívia e México. A empresa atua, ainda, nos mercados da Jordânia, Egito, Arábia Saudita, Líbia, Turquia, Sudão, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Omã, Argélia, Palestina, Kuwait e Catar. “Temos distribuidor exclusivo em cada país no Oriente Médio”, contou Zeinelabdien. O sistema é utilizado, ainda, na detecção de dez doenças pulmonares, além de traumas e fraturas.

Equipamentos para descontaminar superfícies

Já no Sul do País, uma startup desenvolveu tecnologia de descontaminação para covid-19 em ambientes. A Huttech, hoje uma empresa, fica instalada no Parque Científico e Tecnológico da PUC-RS (Tecnopuc). “A luz ultravioleta UV-C já era utilizada há anos para descontaminação contra outros vírus da mesma “família” do coronavírus. Foram feitos estudos que mostraram que também é eficaz no caso do novo vírus e eu passei a utilizar no meu consultório de dentista”, explicou o CEO da empresa, Eder Hüttner, à ANBA.

O equipamento pode ser usado, também, em ambientes com alta circulação, como elevadores.

A partir daí, Hüttner decidiu utilizar a tecnologia em uma linha de produtos ultravioleta. “O importante neste caso é tornar essa tecnologia acessível, em escala e de forma que possa chegar a mais pessoas”, explicou ele sobre o desafio de tornar os aparelhos mais baratos. Outra busca do pesquisador é conseguir insumos produzidos nacionalmente. “Neste momento, estamos tendo muita oscilação na disponibilidade de produtos, como plásticos e lâmpadas. A meta é utilizar materiais produzidos no Brasil”, afirmou.

Entre os aparelhos, estão um modelo voltado para atendimentos em consultório de dentista, outro que é uma torre portátil. O mais novo, no entanto, é, para o professor, um dos mais interessantes. “O NanoOndas pode ser utilizado para descontaminar, inclusive, alimentos. Se assemelha muito a um microondas e a ideia é que as pessoas possam ter um como este em casa”, declarou. Equipado com Ondas UV-C de 254 nm, o aparelho é capaz de inativar o coronavírus, além de fungos, bactérias e vírus. Para manusear os equipamentos, no entanto, é preciso que o comprador receba treinamento e siga as orientações de um manual.

Além da comercialização, a empresa já fez a doação de um dos aparelhos de luz ultravioleta UV-C para uma aldeia indígena próxima a Porto Alegre. “O equipamento lá está sendo usado na unidade de atendimento de saúde da aldeia, e ajudando a evitar o aumento da contaminação. Também estamos em contato com uma aldeia que fica no Ceará, para doar um equipamento a eles”, concluiu o professor.

VMI Médica/Divulgação
Divulgação/Dental Clean
Divulgação/Hüttner
Divulgação/Hüttner

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