São Paulo – A cidade de Marrakech, na região Centro-Sul do Marrocos, arde com o sol e com o calor. Apesar disso, as montanhas da cordilheira do Atlas garantem que os cursos d’água irriguem a cidade. Mesmo assim, as temperaturas alcançam 37 graus com facilidade em um dia de outono. E foram as altas temperaturas que, por muitos e muitos anos, levaram os povos do Marrocos, entre os quais os berberes e os árabes, a encontrar soluções para resistir ao calor e à escassez de água.
Um desses exemplos é o Palácio da Bahia (“brilhante”, em árabe). A data exata da construção é desconhecida, mas, em estilo arquitetônico árabe-andalusino, a edificação começou a ficar pronta por volta de 1870 e continuou a ser ampliada pelos anos que se seguiram. Hoje, passa por obras de restauro, que não impedem a visita nem a observação dos seus pátios com plantações de tangerinas ou de seus salões e alas que favorecem a circulação do ar.

O teto da construção é feito de cedro, tipo de madeira encontrada nas montanhas do País. No interior, o teto é pintado com motivos florais e coloridos que remetem aos amazighs, ou berberes, que são os antigos habitantes da região onde está o Marrocos. Para os berberes, que são quase metade da população de 38 milhões de marroquinos, as cores têm significados e se integram à identidade local.
A partir do século VII, os árabes e o islamismo se instalaram no país. Junto com a cultura berbere, a islâmica está entalhada nas paredes do Palácio da Bahia. São dizeres do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, que ornamentam as paredes feitas com acabamento de gesso. Os pisos do palácio levam, ainda, outro elemento tipicamente árabe: os desenhos geométricos em uma técnica marroquina chamada de zellige esculpido ou esmaltado em cerâmica.
O Palácio da Bahia está localizado na região do bairro judeu da medina de Marrakech. Não muito longe dali, a cerca de 20 minutos de caminhada, outro ponto de visitação se apresenta aos turistas: a Medersa Ben Youssef. Também chamado de Madrasa (“escola” em árabe), o prédio foi construído em 1565 a mando do sultão Abdullah Al-Ghaleb Assaadi, e, pelos séculos seguintes funcionou como uma escola islâmica. Tem 136 salas distribuídas em dois andares, além de um pátio, um quarto de oração e um de ablução, que é utilizado para que os muçulmanos lavem pés e mãos antes de iniciarem suas orações.

Uma bacia utilizada para a ablução foi trazida da Andaluzia, território espanhol ocupado pelos árabes entre os séculos entre 711 e 1.492. É um tesouro islâmico por ter esculpidas em suas faces formas geométricas, florais e de pássaros e peixes. Foi uma encomenda pelo soberano Youssef Ben Tachfine, fundador de um dos impérios que governaram o Marrocos, o Almorávida, entre 1.009 e 1.106.
O uso do Zellige que se encontra no Palácio da Bahia se repete aqui. Decora parte dos pisos e das paredes. Estas, por sua vez, apresentam os versos do Alcorão e arabescos talhados em gesso, assim como uma das formas de expressão artística mas comuns do islamismo: a caligrafia.
As salas de aula se distribuem pelos corredores da edificação, em formato retangular. Porque no centro da escola é o pátio que enche os olhos do visitante de todas estas expressões arquitetônicas juntas com um espelho d’água ao centro.

Que seja o desejo de Deus, não há poder senão em Deus, o Altíssimo, o Todo-Poderoso”
Rica em soluções arquitetônicas, a escola também é um exemplo de solução da engenharia. O espelho d’água central tinha função mais do que decorativa. Ele armazenava água da chuva captada a partir dos telhados que era transportada até ali por meio de tubulações. Uma vez no pátio central, a água era utilizada para a higiene pessoal, resfriamento e manutenção do prédio.
A ANBA visitou Marrakech e Casablanca durante uma viagem feita a convite do Escritório Nacional Marroquino do Turismo (ONMT) e da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) com apoio da GTA Seguros. Esta é a segunda reportagem de uma série que será publicada sobre os destinos turísticos de Marrakech e Casablanca, duas representantes de um país multicultural que ainda guarda sua essência com os povos árabes e berberes, os “homens livres do deserto”.
Leia as demais reportagens da série:
Viagem feita à convite da Braztoa e do ONMT


