Cinco brasileiras e um destino

Executivas contam como é a experiência de trabalhar em países do Oriente Médio e Norte da África, e ajudam a desmistificar alguns conceitos.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – Angela Martins, Karen Jones, Maria Prado, Debora Lapa, Fernanda Balthazar. Cinco mulheres brasileiras, profissionais de excelência em suas áreas, que venceram diversas barreiras para conquistar espaço profissional, e com uma coisa em comum: todas trabalham com o mundo árabe. Elas demonstraram que a cultura árabe tem muitas similaridades com a brasileira, principalmente nas relações interpessoais.

Para obter bons resultados neste mercado, adaptabilidade ao vestuário e costumes locais, respeito às culturas de cada país e assertividade profissional foram fatores comuns entre todas as entrevistadas. A ANBA mostra aqui um pouco da experiência de cada uma delas, desmistificando alguns conceitos sobre o mundo árabe como é ser mulher e trabalhar neste mercado.

“É muito mais desafiador chegar a ser diretora de um banco no Brasil do que andar pelos países árabes”, disse Angela Martins, diretora executiva e representante do First Abu Dhabi Bank (FAB) na América Latina, e eleita uma das 500 pessoas mais influentes do mundo em finanças islâmicas.

Martins trabalha na área internacional há 30 anos, e foi no final dos anos 1990 que ela se tornou a primeira mulher cristã a visitar um banco islâmico na Arábia Saudita, o Al Rajhi Bank, em Riad. A diretora conhece 72 países, sendo treze árabes, se especializou em finanças islâmicas e diz ter se apaixonado pela cultura. “Leva um tempo para conquistá-los, mas construí amizades verdadeiras e gosto muito de trabalhar com os árabes”, ressaltou.

Angela Martins na Arábia Saudita, nos anos 1990

Segundo ela, trabalhar com negócios internacionais é sempre um desafio em qualquer parte do mundo, cada país com sua peculiaridade. “No Japão, por exemplo, é muito mais desafiador [do que nos países árabes]”, contou. Para ela, o profissional que viaja vai fazer negócios e tem de se adaptar, sem questionar a cultura de cada país. “Não vou dar beijo no rosto de um inglês, por exemplo, porque não é costume deles, e seguindo este raciocínio, não vou andar de minissaia na Arábia Saudita”, afirmou. “A liberdade é relativa, subjetiva, depende do conceito de cada um.”

Casada e mãe de três filhos, ela acredita que a mulher não deveria romper com papéis de feminilidade para conquistar seu espaço no ambiente profissional. “Não acho ideal a mulher ter que se masculinizar, eu jamais abriria mão da minha família”, garantiu, contando que o apoio do marido na criação dos filhos foi fundamental para realizar suas conquistas profissionais.

Das similaridades com o Brasil, Martins apontou que “são muito parecidos com a gente, também sofrem muito preconceito do mundo, que não diferencia um país do outro, como acontece aqui”. “Apesar de serem todos árabes, os países são muito diferentes entre si, são culturas milenares e temos muito o que aprender com eles, é só prestar atenção e se despir dos preconceitos, e se terá a oportunidade de conhecer um povo com uma diversidade cultural maravilhosa”, concluiu.

“Temos de trabalhar o dobro e de salto”, declarou Karen Jones, que é Chefe Executiva de Operações da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) no Escritório para o Oriente Médio e Norte da África, e vive há 15 anos em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A executiva morou também por um ano em Omã, quando deu início ao projeto de ter uma família internacional com o marido britânico. Eles têm dois filhos, de 14 e 16 anos.

Jones contou que a experiência de viver em Omã foi “mais local, mais intensa, mais árabe”. Ela disse ter tido mais chance de contato com cidadãos locais e que, apesar de haver um contraste cultural grande, foi uma boa surpresa. “Já Dubai é mais cosmopolita, tem mais oportunidades”, avaliou.

Entre os países árabes, a executiva já visitou Egito, Argélia, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Líbano, Bahrein e Catar, além dos Emirados e Omã, e reconheceu que não é a região mais fácil do mundo para trabalhar sendo mulher. “É desafiador para qualquer um, e enquanto mulher há um desafio extra, exige mais preparo, coragem e disponibilidade, ainda mais trabalhando em uma posição de liderança, mas é possível”, afirmou.

Karen Jones em reunião da Expo 2020, em Dubai

“Uma vez que você conhece os códigos e é reconhecida como interlocutora da empresa – vencidos esses empecilhos iniciais -, é um lugar que valoriza a pessoa que vai buscar o resultado, seja quem for”, pontuou. Para ela, a Arábia Saudita em particular é um desafio a mais, porque lá é obrigatório usar a abaya (espécie de robe preto típico por cima da roupa) e em muitos lugares, o véu. Com a cultura árabe, a executiva disse que aprendeu a se vestir de forma mais modesta e a evitar demonstrações de afeto em público.

Segundo ela, o machismo no Brasil pode ser muito pior, por ser mais verbalizado. “Sem dúvidas, por ser mulher, isso exige mais postura e confiança. Vivendo aqui (em Dubai), é preciso aprender os códigos locais culturais e estar muito bem preparada profissionalmente para se sentir segura, porque nem sempre vamos receber a mesma atenção dada a um homem”, desabafou.

Karen comentou que “da mulher árabe, é esperado um determinado comportamento, uma adesão às regras”, e que “há que ter muito cuidado com a crítica, porque dentro desses papéis, as mulheres são muito ativas na sociedade, valorizadas e respeitadas, além de muito inteligentes”. Para ela, “os países árabes estão vivendo um processo interessante de absorção da força de trabalho feminina”.

Entre árabes e brasileiros, Jones disse que há muito em comum. “Eles têm uma empatia muito grande, valorizam a família, a hospitalidade, gostam de conversar, de trocar”, e contou que foi muito bem recebida. “É muito bonito descobrir e viver isso de perto, eles têm valores muito próximos dos nossos, as pessoas confundem religião com cultura e não é bem assim na prática”, afirmou.

“É difícil ser mulher no mercado de trabalho no Brasil e no mundo todo”, evidenciou Maria Prado, trader da FAME, empresa brasileira de chuveiros e aquecedores elétricos de água. A empresa exporta para 40 países, entre eles, o Sudão e Emirados, e já vendeu para o Egito e a Jordânia. Prado trabalha na empresa há 15 anos e visitou alguns países árabes como Argélia, Marrocos, Sudão e Emirados, participando de feiras e rodadas de negócios.

Durante a feira do setor de construção Big 5, em Dubai, Prado contou que passou por uma situação desafiadora. “Lidando com os sauditas eu não podia fazer contato visual e foi bastante desconfortável, porque eu não pude usar todas as técnicas de venda que aprendi ao longo da minha carreira profissional com eles”, desabafou. Prado afirmou que é importante ter um cuidado extra para se vestir de forma mais conservadora e formal para lidar com qualquer cultura no comércio exterior.

Maria Prado em visita a clientes da FAME no Sudão

Apesar dos desafios, a trader disse que foi muito respeitada em Dubai, e que teve experiências excepcionais na Argélia e no Marrocos. “Minhas melhores experiências foram no Norte da África, no Sudão por exemplo, foi surpreendentemente positiva”, disse. Ela visitou o país para participar da Feira de Cartum, um evento multissetorial de negócios. Para ela, ser mulher e trabalhar com exportações é desafiador em qualquer país, independente da cultura.

“No Brasil mesmo existe a desigualdade de salários e posições nas empresas, tem muitos cargos que as mulheres ainda não conseguem alcançar”, expôs Debora Lapa, gerente de exportação da Alibra, empresa brasileira de ingredientes para a indústria de alimentos e bebidas, que exporta para cerca de 20 países, entre eles Mauritânia e Arábia Saudita.

Durante viagem à Mauritânia, Lapa contou que teve de se adequar à cultura local, usando roupas discretas e em alguns lugares, o véu. Apesar das diferenças, a gerente disse que os empresários são bastante abertos a conhecer os produtos e buscam preços competitivos, gostam de pechinchar e negociaram de igual para igual com ela. “Eu fui sozinha como representante da empresa, então eles tinham que falar comigo, mas se eu estivesse com um colega homem, talvez eles não teriam me dado atenção”, supôs.

Debora Lapa no estande da Alibra na feira Siam, no Marrocos

Lapa deu um recado às mulheres que desejam trabalhar com comércio exterior e com os países árabes. “Não deixem de trabalhar nesses mercados, porque somos respeitadas e ser mulher não é impeditivo para fazer negócios; mostrando um bom trabalho e preços competitivos, é isso que importa”, declarou.

“Essa questão da mulher sinceramente independe da cultura, porque a situação é tão grave no Brasil quanto nos países árabes, não precisa ir pra lá”, pontuou Fernanda Balthazar, executiva de negócios internacionais da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Balthazar trabalha na Câmara há 4 anos, já visitou nove países árabes e contou que sempre foi muito bem recebida.

Ela tenta não chamar a atenção e estar sempre neutra, se adaptando ao vestuário e costumes locais. Para a executiva, as regiões do Magreb e do Golfo apresentam países e culturas muito diferentes. “No Magreb (Norte da África) existe uma influência muito grande da cultura europeia, principalmente no Marrocos e na Argélia”, disse. “Nesses países há uma aceitação maior a ocidentais, não tem um impacto tão grande, acho que é muito mais fácil de lidar; já na região do Golfo eu vejo que tem uma diferença muito grande sobre o papel de cada um, dá para ver quem é local, quem não é, os papeis estão mais definidos”, avaliou.

A executiva visitou a Arábia Saudita com a delegação brasileira durante a Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), em 2015, e afirmou que essa foi “a experiência mais maluca” que já teve na vida. “Foi muito interessante conhecer, mas no final das contas foi incômodo, porque é tudo muito restrito, muito fechado”, revelou. “Apesar de tudo, me respeitaram, conversaram comigo, e eu voltaria para lá a trabalho sem problemas.”

Fernanda Balthazar em visita a Casablanca, no Marrocos

Também no Golfo, a imagem que os Emirados passam é bem diferente da do vizinho saudita. “Nos Emirados há muitos estrangeiros e todos convivem com respeito, cada um com sua cultura, acho muito saudável”, colocou. Balthazar chamou a atenção para o fato de o processo de abertura desses países ser muito recente. “Os países árabes são antiquíssimos e sempre foram fechados, a abertura para novas culturas está só começando”, e colocou que o movimento para a igualdade de gênero no mercado de trabalho faz parte deste processo. “Eu fico muito feliz quando vou pra lá e vejo mulheres a frente de delegações, entidades e associações fazendo belíssimos trabalhos”, disse.

Depois de conhecer a cultura árabe, a executiva desmistificou os estereótipos do que é aprendido no Brasil como árabe, e percebeu que na verdade essas barreiras culturais não são reais. “É superinteressante, você vê que não é um bicho de sete cabeças, as coisas funcionam, você consegue fazer seu trabalho, nunca tive realmente problema”, afirmou. “Foi uma experiência muito agradável conhecer lugares totalmente diferentes, ouvir uma língua que você não faz ideia, e teve um impacto cultural grande no bom sentido”, finalizou.

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