São Paulo – A realidade dos corredores logísticos internacionais está em transformação, com a competitividade deixando de ser atrelada a custo e prazo para dar lugar a um transporte de mercadorias capaz de se adaptar a diferentes situações. A nova conjuntura demanda dos países mais construção de redes, no lugar de simples conexões entre portos, e mudança na maneira de administrar os negócios.
Em linhas gerais, essa é uma das ideias que a egípcia Sara El-Gazzar, estudiosa de logística, comércio internacional e cadeia de suprimentos, defendeu em sua passagem pelo Brasil na última semana, quando falou com a reportagem da ANBA sobre as suas pesquisas. Os reflexos atuais da geopolítica sobre as rotas marítimas globais tornam o assunto urgente. “Não é mais como antes. Agora precisamos olhar para rotas dinâmicas, que podem mudar de acordo com a situação”, afirma.
Decana da Faculdade de Transporte Internacional e Logística da Academia Árabe de Ciência, Tecnologia e Transporte Marítimo (AASTMT) e consultora sênior da União das Câmaras Árabes, ambas com sede no Egito, Sara esteve no Brasil no final de agosto, quando foi uma das painelistas do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo.
Uma das idealizadoras de sistema egípcio de subsídios alimentares e tendo liderado mais de 15 projetos financiados pela União Europeia, ela leva adiante estudos sobre logística em centro econômico da União das Câmaras Árabes e no centro de pesquisas da faculdade em que atua. As duas instituições trabalham juntas no conceito da competitividade baseada em resiliência e cadeia de valor.
Leia abaixo algumas das principais ideias defendidas por Sara El-Gazzar em entrevista à ANBA a respeito das transformações nos corredores logísticos mundiais.
Nova competitividade no transporte
“Ao observar o que acontece atualmente em todo o mundo, percebe-se como questões políticas estão condicionando os arranjos, rotas e corredores logísticos; que agora são usados a partir de aspectos políticos.
Se analisarmos a situação atual, podemos afirmar que os corredores logísticos têm vivenciado uma situação insustentável e que a competitividade não será mais medida pela forma mais barata ou mais eficiente de transporte, mas pela forma de transporte mais adaptável.
A competitividade agora está mais relacionada a meios de transporte mais confiáveis e adaptáveis. Por isso, precisamos mudar a maneira como organizamos a logística e como administramos os negócios em todo o mundo”.
A conexão entre Brasil e países árabes
“É por isso que a ligação logística entre o Brasil e os países árabes não deveria mais ser avaliada com base nas conexões geográficas. Não devemos depender somente das conexões geográficas entre os portos. Precisamos nos basear naquilo que chamamos de redes. Não devemos olhar para o Brasil apenas como Brasil, devemos olhar para o Brasil como parte da América Latina.
Devemos olhar para as diferentes rotas que conectam o Brasil aos diferentes países da América Latina e para como o Brasil pode funcionar como uma porta de entrada para a América Latina, agregando rotas de diferentes países latino-americanos, seja quando falamos de comércio, seja quando falamos de atividades de agregação de valor. Na verdade, essa é a maneira de administrar uma cadeia de suprimentos sustentável por meio de atividades que agreguem valor.
Por outro lado, os países árabes, embora tenham uma posição geográfica muito única, já não podem depender só disso. Quando falamos das posições geográficas de Bab el-Mandeb, do Estreito de Ormuz ou de Gibraltar, elas já não são tão úteis diante da situação global atual. Portanto, devemos falar em hubs alternativos ou redes alternativas.
Precisamos pensar em como administrar os nós entre os países árabes e seus vizinhos. Por exemplo, podemos olhar para o Marrocos como uma porta de entrada para a África Ocidental e a Europa. Podemos olhar para o Egito como uma porta de entrada para a África e também para o Mediterrâneo. E podemos olhar para o Golfo como uma porta de entrada para a Ásia.
Dessa forma, podemos enxergar o Brasil e os países árabes como redes capazes de conectar o mundo juntos, da América Latina à África, à Ásia e à Europa. Dessa maneira devemos olhar para o transporte multimodal. Trata-se de uma relação dinâmica, não mais uma rota sustentável.”
Era das rotas dinâmicas
“Não posso simplesmente dizer: temos o Canal de Suez, temos Bab el-Mandeb, temos Ormuz. Não é mais como antes. Agora precisamos olhar para rotas dinâmicas, que podem mudar de acordo com a situação.
Se hoje uma rota está bloqueada por causa de uma guerra ou de determinada situação, precisamos identificar qual é a melhor alternativa naquele momento. E a melhor alternativa não é a mais barata, é aquela que consegue se adaptar a cada situação.
Portanto, os países (em melhor situação são os) que têm a capacidade de se adaptar e de serem resilientes, os países orientados para os negócios e os países que têm redes”.
O foco de chegar ao destino
“Alguns anos atrás, quando começamos a falar sobre rotas alternativas, até mesmo dentro dos think tanks, disseram que era uma ideia maluca. ‘Por que deveríamos abandonar rotas sustentáveis, já eficientes, baratas e rápidas, e investir em outras?’ Mas, depois da guerra e das diferentes situações geopolíticas, ficou comprovado que não, não existe nada sustentável, não há nada garantido.
E você precisa garantir que consegue entregar produtos e serviços ao destino final por qualquer meio porque isso é essencial para a sobrevivência. Talvez você tenha que sacrificar o custo e, às vezes, até o tempo, para conseguir chegar ao destino final. Portanto, é sempre uma equação de trade-off (equilíbrio): o que posso sacrificar nessa fórmula para conseguir chegar ao destino final?
A fórmula antiga era chegar ao cliente com o menor custo possível, no menor tempo possível e com a maior qualidade. Agora não temos mais a mesma fórmula. Agora é sempre uma questão de fazer escolhas e compensações.”
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