Meninas do Oriente Médio e EUA em mostra de fotos

Trabalho da fotógrafa norte-americana nascida no Líbano Rania Matar é sobre a universalidade do crescer em mulheres de diferentes partes do mundo. Fotos dela integram a exposição ‘Taswir, a fotografia árabe contemporânea’, que será aberta nesta quinta-feira, em São Paulo.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – A norte-americana nascida no Líbano Rania Matar (foto acima) fotografou meninas do Oriente Médio e Estados Unidos em diferentes tempos das suas vidas e vai apresentar o trabalho na exposição de fotos “Taswir, a fotografia árabe contemporânea”, que será aberta nesta quinta-feira (28) e pode ser vista até 28 de abril no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista. Em entrevista à ANBA por e-mail, Rania contou detalhes sobre as fotos que estarão na exposição, a sua primeira no Brasil.

As imagens são parte do trabalho Becoming (“Tornando-se”, em tradução livre), no qual foram fotografadas meninas com idades entre nove e 12 anos, e anos mais tarde, quando tinham entre 13 e 16 anos. As primeiras fotos das meninas fizeram parte de outro trabalho da libanesa, chamado L’Enfant-Femme (“A criança mulher”, em tradução livre), que tinha como foco retratar pré-adolescentes e como elas interagiam com a câmera fotográfica. Becoming é uma continuação de L’Enfant-Femme.

“Meu objetivo é retratar o senso de identidade das meninas quando elas podem se colocar como quiserem frente à câmera, e capturar alternativamente a angústia, a autoconfiança ou a falta dela, a linguagem corporal, o senso de individualidade, o desenvolvimento do senso de sexualidade e a feminilidade que elas começam a experimentar nesta idade”, conta Rania.

Para fazer as fotos, a artista apenas pediu que elas não sorrissem. A intenção era distanciá-las das fotos do estilo selfie. Também em função do tipo de câmera que estava usando, as fotografadas não podiam ver as fotos na hora. “Acostumadas à gratificação instantânea de se ver na fotografia digital, as meninas experimentam o suspense de não saber imediatamente como elas serão representadas e levam a sessão de fotos mais a sério”, conta Rania.

A fotógrafa se diz tocada e cativada ao observar as mudanças nos corpos e atitudes das meninas com o passar do tempo. “E simultaneamente ver a individualidade de cada garota e como ela desenvolve sua própria identidade, mas também a universalidade de ser uma menina passando por essas transformações naturais”, afirma a libanesa. Mudanças sutis na linguagem corporal, gestos de mão, posições dos pés e atitude são o foco das fotografias.

A mostra no Brasil é promovida pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e o Instituto do Mundo Árabe de Paris (IMA), e terá 78 fotos de 14 fotógrafos, estes de 12 países. Ela é uma reedição de exposições realizadas pelo IMA e comemora o 25 de Março, Dia da Comunidade Árabe no Brasil, e os 74 anos da Liga Árabe.

O trabalho de Rania na mostra está dentro do que ela se propõe na carreira como um todo. Rania explica que seu foco é muito pessoal e tem relação com sua vida de mulher e mãe, de libanesa e norte-americana. “Como uma mulher e mãe norte-americana nascida no Líbano, meu conhecimento e minhas experiências transculturais informam minha arte”, diz.

Em seu trabalho com a fotografia, Rania explora questões de identidade pessoal e coletiva por meio de imagens sobre adolescentes e mulheres, tanto dos Estados Unidos como do Oriente Médio, segundo ela “em um esforço para focar nas noções de identidade e individualidade, dentro do contexto da universalidade oculta dessas experiências”.

A libanesa se diz animada em ter fotos em exposição no Brasil. “Espero que minhas fotografias façam as pessoas olharem para mulheres árabes com lentes diferentes. Somos garotas e mulheres, como qualquer outra mulher, em qualquer lugar, passando pelas mesmas mudanças físicas, biológicas e emocionais. Espero que as pessoas possam olhar para nossa identidade compartilhada. Nas minhas fotos eu me concentro na identidade específica de cada jovem mulher que fotografo, mas também na universalidade do crescer”, afirma.

Rania estudou Arquitetura na Universidade Americana de Beirute e na Universidade Cornell, mas com forte interesse em arte. Ela começou a fotografar há 19 anos, fazendo fotos dos filhos, e se apaixonou pela mídia. “Lentamente isso se tornou uma parte muito importante da minha vida”, conta. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Rania decidiu começar a fotografar o Oriente Médio para contar uma história sobre a região diferente da retórica “eles x nós” das notícias. “Nunca mais voltei para a Arquitetura.”

A norte-americana libanesa já participou com suas fotos em exposições nos Estados Unidos, Líbano, Síria, Reino Unido, França, Suíça, Alemanha, Itália, Emirados Árabes Unidos, Cingapura, Tailândia e Argentina. Ano passado ela foi escolhida na seleção de artistas Guggenheim Fellow, que a Fundação Memorial John Simon Guggenheim faz para dar bolsa a pessoas que demonstram excepcional capacidade em artes. Rania tem livros de fotos publicados e ganhou uma série de prêmios nos Estados Unidos e no exterior.

Serviço

Exposição: “Taswir, a fotografia árabe contemporânea”
Abertura: 28 de março, às 19h30, para convidados
Até 28 de abril de 2019, de terça a domingo, das 11 às 20 horas
Entrada franca

Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201, Complexo Aché Cultural
Entrada pela Rua Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo, SP
Metrô mais próximo: estação Faria Lima, Linha 4 – Amarela
Tel.: (11) 2245-1900
Site: www.institutotomieohtake.org.br

Helena Goessens

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