São Paulo – A história do Brasil está diretamente ligada à presença dos imigrantes, mas nem sempre os espaços oficiais de memória refletiram essa importância. Durante décadas, o Museu Paulista (que abrange o Museu do Ipiranga e o Museu Republicano de Itu), atualmente vinculada à Universidade de São Paulo (USP) e que funciona como um centro de pesquisa e cultura, concentrou suas narrativas na aristocracia colonial e portuguesa. “O perfil da formação do acervo do museu, ao longo da maior parte do século XX, foi extremamente seletivo e, portanto, extremamente excludente. Foi só no início dos anos 1990 que ele deixou de ser um memorial das elites dos períodos colonial, do Império e da Primeira República para se tornar uma instituição que busca narrar como esse país foi formado”, diz o professor Paulo Garcez Marins, historiador e diretor do Museu Paulista. “Por isso, as entradas de peças da Família Jafet no acervo são tão importantes, num sentido amplo, que extrapola a própria relação que eles tinham com o bairro do Ipiranga.”

A presença desses objetos no acervo tem um significado muito maior do que a simples aquisição de peças, é um reconhecimento político e social. “O Brasil concentra a maior imigração libanesa do mundo, com uma população de descendentes duas vezes maior do que o número de habitantes do próprio Líbano. Mas apesar dessa força numérica e econômica, a “ascensão simbólica” — o direito de estar representado num museu que narra a formação da Nação — era um espaço que precisava ser conquistado. E os Jafet, com sua histórica atuação industrial no bairro do Ipiranga, foram os pioneiros a ocupar esse lugar”, afirma Marins.
As peças, que foram doadas em três etapas por descendentes de Nami, Benjamin, Basílio e João Jafet, são registros da sofisticação da família, e revelam como o interesse histórico pode transformar o que parece trivial em um tesouro. Marins conta que, originalmente, o Museu foi procurado pelas herdeiras para receber uma suntuosa sala de jantar com motivos chineses que estava na casa que havia pertencido a Benjamin Jafet. Mas o comprador do imóvel alegou que o conjunto era parte do palacete e não deixou que o levassem. “Assim, a doação tomou outro rumo: a família nos entregou materiais que documentavam o cotidiano da época, como álbuns fotográficos, cardápios de cruzeiros internacionais e uma coleção de manuais de eletrodomésticos, que eles guardaram meticulosamente ao longo de décadas”, revela. “Há 70 anos, esses artigos eram um luxo exclusivo de famílias ricas. Mas o que poderia parecer apenas papel antigo tornou-se um documento valioso sobre a eletrização das casas e da ascensão de um novo estilo de vida da elite imigrante em São Paulo.”
E os Jafet, com sua histórica atuação industrial no bairro do Ipiranga, foram os pioneiros a ocupar esse lugar.
Paulo Garcez Marins
Da primeira doação constam conjuntos fotográficos com as várias viagens realizadas para Europa e Estados Unidos, além de destinos menos óbvios, festas em família e documentários de espaços de trabalho ou da trajetória do patriarca da família. As centenas de imagens chegaram reunidas em 11 maletas originais que continham slides, 19 álbuns e dois filmes, 43 peças entre roupas, acessórios de indumentária, móveis, equipamentos audiovisuais, apetrechos de escritório e 26 pastas com folhetos turísticos, material do Rotary Club, programas culturais, manuais de utensílios domésticos, revistas, recortes de jornais, e um conjunto de filmes 16mm com registro de eventos, como bodas de prata e funeral.
Entre os destaques da coleção estão 14 móveis, grandes e pesados, produzidos no início do século XX pelo Liceu de Artes e Ofícios, que compunham a suíte de Dona Violeta Jafet e chegaram ao museu na terceira doação. “Apesar de serem 14 peças, não recebemos o conjunto completo. Mas é preciso lembrar que, naquela época, o conceito de suíte era mais amplo, englobando quarto de dormir, quarto de vestir, uma pequena sala de estar e banheiro”, explica o professor. O valor histórico desse lote é reforçado por uma conexão com a primeira doação: os móveis aparecem nas fotos da família.

Há álbuns com imagens do Palacete dos Cedros, residência de Basílio e Adma Jafet, cujo nome era uma homenagem ao símbolo nacional do Líbano. “Esse documento é muito interessante, porque mostra a casa, com ambientes decorados com mobiliário de inspiração francesa e italiana, mas também com muitas almofadas pelo chão, que é um traço marcante da cultura árabe.” Segundo Marins, com esse material foi possível documentar, com precisão, a inserção da família nos ambientes elitizados da capital, não só pela construção dos palacetes, que somam mais de dez, mas pelo registro da ornamentação interna da casa, que era extremamente opulenta, e pelas viagens que eles faziam. “Só os cardápios das viagens de navio indicam o modo de vida que mantinham.” No pacote, vieram também os álbuns fúnebres de Basílio Jafet, com recortes de jornais nacionais e internacionais, noticiando a morte do empresário e provando seu prestígio.
Além do mobiliário e da iconografia, que revelam a vida íntima da família, há também uma vasta coleção de condecorações e medalhas recebidas por Basílio Jafet, e um busto esculpido em mármore de Carrara pelo mestre Caetano Fraccaroli, encomendado para imortalizar a liderança do patriarca, e que fizeram parte do segundo lote de peças doadas. “São objetos que atestam a notoriedade e a influência pública da família.”
Atualmente, a coleção está guardada na reserva técnica do Museu do Ipiranga, sem acesso permitido ao público, mas disponível aos pesquisadores. Em 2024, a exposição temporária “Sentar, guardar, dormir: Museu da Casa Brasileira e Museu Paulista em diálogo” apresentou 165 peças de mobiliário dos últimos 400 anos, e entre eles, estavam as que pertenciam à suíte de dona Violeta Jafet.
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Reportagem de Paula Medeiros, em colaboração com a ANBA


