São Paulo – Escrito e dirigido pelo cineasta egípcio Mohamed Beriky, o filme curta-metragem “Avião” é um dos finalistas do AI for Good Film Festival, organizado pela agência das Nações Unidas especializada em tecnologias digitais (ITU). Obra produzida por Beriky com apoio da inteligência artificial, “Avião” retrata o mundo a partir dos olhos de uma criança autista que vive em São Paulo, cidade que Beriky escolheu para viver no Brasil.
À ANBA, o cineasta contou que a ideia de “Avião” surgiu quando ele ainda trabalhava com serviço social, sua área de atuação profissional antes do cinema. “Durante essa formação, um dos temas que mais me marcou foi o autismo. Desde aquela época, eu já tinha esse assunto anotado como um possível projeto cinematográfico. Mas eu não queria fazer um filme educativo nem uma espécie de diagnóstico médico sobre o autismo. O objetivo nunca foi “explicar” o autismo, e sim tentar compreender esse mundo: olhar para a criança no espectro autista a partir do mundo dela, não apenas a partir do mundo dos adultos”, afirma.

Em “Avião”, um menino autista observa um avião pintado na parede de uma rua em meio ao trânsito de São Paulo e ao estresse do pai atrasado para o trabalho. Ele, então, começa a repetir a palavra “avião”, mas o pai ignora esse sinal até que, tomado pelo impacto emocional daquele momento, visualiza a queda de uma aeronave como uma ruptura interna em sua própria percepção.
“No caso de AVIÃO, a IA foi especialmente importante porque o filme precisava combinar realismo e percepção subjetiva. Existe uma manhã comum, um pai atrasado, uma criança, o trânsito de São Paulo. Mas também existe uma ruptura interna, quase sensorial, quando o pai finalmente entende que aquela palavra repetida tinha um significado que ele não havia recebido”, explica Beriky.
O filme foi lançado oficialmente em 6 de abril, após duas semanas de pesquisa, desenvolvimento, construção de roteiro. Depois desta etapa, mais uma semana foi consumida com a produção visual da obra, feita em dois programas de produção com inteligência artificial. Toda a concepção de roteiro e artística é de Beriky. A IA entra com o realismo visual: personagens, cenário, tudo o que se assiste é criado por IA a partir dos comandos de Beriky.
“Um dos maiores desafios foi encontrar o tom certo. AVIÃO não poderia parecer um vídeo explicativo sobre autismo. Também não poderia usar a IA apenas como espetáculo visual. O desafio era fazer o público sentir a confusão, a pressão, a repetição e, finalmente, o atraso da compreensão”, conta o cineasta. “Outro desafio foi manter unidade emocional e cinematográfica dentro de um workflow [fluxo de trabalho] com IA. A IA pode gerar imagens fortes, mas cinema não é apenas imagem. Cinema é ritmo, escolha, silêncio, ponto de vista, montagem e responsabilidade sobre o que se está dizendo”, diz.
Ser um dos finalistas do AI for Good Film Festival é resultado de uma trajetória que o filme está percorrendo, pois a produção já foi finalista ou vencedora de outros concursos. “Para mim, esse percurso é muito importante porque mostra que o filme não está sendo lido apenas como um experimento com IA. Ele está sendo recebido como cinema, como narrativa humana e como uma tentativa de usar tecnologia para ampliar empatia”, diz Beriky.
O cineasta já trabalhou com cinema em película e uso de negativos antes de ingressar no universo digital. Produziu programas de televisão na Arábia Saudita, participou de produções na Turquia e já atuou com a publicidade. Ele vive em São Paulo há seis anos. É casado com uma brasileira e tem dois filhos brasileiros. “De alguma forma, o Brasil deixou de ser apenas um lugar onde vivo; tornou-se parte da minha vida, da minha família e da minha identidade artística”, afirma.
Em 9 de julho todas as atenções de Beriky estarão na Suíça. Afinal, será neste dia, em Genebra, que o filme será exibido no festival. A partir desta data, será disponibilizado para exibição na internet.


