Plano de internacionalização da Embrapa prioriza Emirados

O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Celso Moretti, visitou o país árabe e discutiu parcerias em várias frentes, inclusive na África. A instituição deve abrir um escritório em Abu Dhabi. “Nós identificamos quatro grandes pilares de cooperação”, disse ele à ANBA.

Thais Sousa
tsousa@anba.com.br

São Paulo – Os planos de internacionalização da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vêm sendo tratados com prioridade pelo presidente da entidade, Celso Moretti, especialmente no que diz respeito aos Emirados Árabes Unidos. Segundo ele, desde 2018 a aproximação com os árabes vem se consolidando e culminou em uma missão técnica de entidades ligadas à agricultura brasileira aos Emirados na última semana.

A comitiva brasileira buscou manter os laços com instituições árabes e abrir oportunidades com empresas árabes, possibilidades essas, Moretti enfatiza, que são voltadas ao setor privado do Brasil. Leia abaixo entrevista exclusiva que Moretti deu à ANBA na última sexta-feira (24):

ANBA – Como foi a agenda da missão da última semana? Estiveram com a ministra da Segurança Alimentar do Futuro dos Emirados Árabes, Mariam Almheiri?

Celso Moretti – Essa missão foi de quatro dias. Visitamos setor privado e agências de governo ligadas à agricultura. Tivemos uma série de reuniões. A ministra nos recebeu duas vezes. No dia 19 de janeiro, para primeira reunião, e no dia 21 de janeiro.

Houve avanços na parceria com o Centro Internacional para Agricultura Biossalina (ICBA) dos Emirados?

Passamos a tarde do dia 18 lá. Eu já vinha, desde o ano passado, colocando em contato nosso pessoal da Embrapa Semiárido. Eles têm uma condição nos Emirados de baixíssima disponibilidade de água. A água que tem no subsolo é salina. Depois da missão, os nossos pesquisadores e os do ICBA estão em contato e já fizeram mais de uma videoconferência. Os pontos de contato foram a diversificação e o intercâmbio de material genético do Brasil para lá e de lá para cá. A questão de estudos de bioenergia e aquicultura, além de toda parte de se estudar a gestão de recursos naturais, solo, água e biodiversidade. E uma outra parceria para se efetuar intercâmbio de pesquisadores. Estamos fazendo este follow-up para as cooperações.

Nas visitas às empresas, quais setores podem render parcerias?

Nós visitamos as empresas, a maioria é semigovernamental. Surgiu a possibilidade de fazermos parcerias na produção de frutas e hortaliças em ambiente protegido. Nós temos expertise e eles têm o equipamento de alta tecnologia. A empresa Elite Agro, por exemplo, se mostrou muito interessada em estabelecer parceria conosco.

Como vão se dar essas parcerias?

O caminho é: o Brasil, ao longo das últimas cinco décadas, conseguiu desenvolver tecnologia para agricultura tropical. Para o que é produzido entre os trópicos, é o único país do mundo que desenvolveu tecnologia para produção sustentável e de quantidade de alimentos. O Brasil produz para alimentar sete vezes a sua população, o suficiente para 1,4 bilhão de pessoas.

E eles (os Emirados) estão na outra extremidade, importam mais de 90% dos alimentos que consomem. Estão muito interessados nessa parceria conosco, para ajudar em duas frentes: estabelecer segurança alimentar e trabalhar em parceria no continente africano. Especificamente, as empresas Elite Agro e Agthia, já têm terras na África e estão produzindo lá. Como nós temos tecnologia para clima tropical, e eles têm terras em regiões assim, a ideia é que façamos isso por meio de contratos de prestação de serviço e que também levemos o setor privado brasileiro conosco.

Vamos dizer (supor) que querem produzir trigo na África. O setor privado brasileiro já comercializa as variedades desenvolvidas pela Embrapa para os trópicos, essa empresa (brasileira) pode vender lá. É importante frisar que a Embrapa é uma empresa pública. Quando nós vamos ao exterior, nossa ideia é procurar identificar oportunidades para o setor privado brasileiro aproveitá-las.

Quais as oportunidades de parcerias entre Embrapa e os Emirados?

Sumarizando, nós identificamos quatro grandes pilares de cooperação com os Emirados Árabes. O primeiro é apoiar na estruturação de um arranjo coordenado de pesquisa e extensão agrícola nos Emirados Árabes. Eles têm empresas e instituições públicas, institutos de pesquisa e de assistência técnica, têm produtores. Por exemplo, o rebanho de caprinos deles é em torno de 5 milhões de cabeças. O Brasil tem 22 de milhões de cabeças. Então, eles têm estruturas, só que isso está descoordenado. Uma das ações que vamos fazer é o que chamamos de apoio ao desenvolvimento institucional, estruturar uma organização de pesquisa, desenvolvimento e inovação para agricultura. Para isso, eles vão precisar criar massa crítica, capacitar pessoas. Da mesma forma que o Brasil na década de 70 não tinha massa crítica na área extensiva e agropecuária e mandamos centenas de pesquisadores para treinar no exterior. Foi assim que a Embrapa se organizou. Não queremos dizer que eles estão desorganizados, mas nós temos experiência para apoiá-los na estruturação desse arranjo.

O segundo pilar é o trabalho de zoneamento agrícola. No Brasil fizemos isso, mapeamos todo o território, sabemos onde devemos plantar maçã, quando a gente deve plantar maçã e quais as melhores cultivares adaptadas a uma determinada região. Esse é o trabalho que queremos apoiar. Temos expertise para isso, para 44 cadeias produtivas, e isso é algo que vai ajudá-los a tomar decisões no país, o que podem fazer em cada uma das regiões na produção de alimentos.

Mesmo com a extensão territorial menor dos Emirados, há espaço para trabalhar o zoneamento?

Veja, a gente fez isso no Brasil, chegamos as 44 cadeias produtivas, indo da região do Semiárido à Amazônia, e a gente conseguiu. Então, temos que passar por isto lá também.

O terceiro pilar desse trabalho é desenvolver um sistema de inteligência territorial e estratégica, onde consigamos uma mesma base de informações sobre o quadro natural. Como é o solo, o relevo, a disponibilidade de água, a altitude e elevação daquele local? O quadro agrário: são quantas propriedades rurais, qual o tamanho delas? O quadro agrícola: tem rebanho bovino, caprino, ovino? O que está sendo feito ali? O quadro da infraestrutura: existem estradas? Existem portos e estrutura de armazenamento? E o quadro socioeconômico. Todas as informações são colocadas no sistema, que permite a tomada de decisão.

E o quarto e último pilar é o trabalho em conjunto que pretendemos fazer com eles na África. Eles estão produzindo na África, mas não necessariamente com a tecnologia que temos no Brasil de agricultura tropical. As empresas brasileiras de maquinário, de genética animal e genética vegetal… Eles estão interessados em cultivares de arroz, que a Embrapa tem. E querem também contato de empresas de maquinários para produzir o arroz, que a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) tem.

Então é uma parceria levando tecnologia desenvolvida pelo Brasil, mas levando o setor privado para explorar esses espaços que existem lá. A ideia, inclusive, é que o setor privado brasileiro vá junto com a Embrapa para aproveitar essas oportunidades no continente africano. Eles (árabes) já estão em Gana, Sudão, Etiópia e Madagascar. Estão iniciando um trabalho na Namíbia. Nesses países, mencionei sempre zoneamento agrícola. Eles não conheciam esse trabalho e eu falei que nós podemos apoiá-los no zoneamento agrícola climático. Pode ser uma oportunidade.

Na missão, contamos com o secretário de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação do Ministério da Agricultura, Fernando Camargo. Também contamos com o apoio da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), tivemos contato com o escritório da Apex nos Emirados, e foi também uma pessoa de Brasília conosco. Em outubro começa a Expo 2020 [em Dubai] e a Embrapa vai estar lá.

Como deve ser essa participação da Embrapa na Expo 2020?

O Brasil estará no Pavilhão Sustentabilidade. A ideia é contribuir com material sobre a sustentabilidade da agricultura brasileira. Temos ainda que falar com o pessoal da Apex para definir como será essa participação.

Como está a questão da abertura de um escritório nos Emirados? Há perspectiva de abrir escritórios no continente africano também?

Na África, inicialmente, nossa ideia é trabalhar em parceria com a própria Apex e instituições locais, não temos ideia de estabelecer escritório.

Nos Emirados, coloquei nossa intenção de ter um escritório lá. Eles, na mesma hora, disseram: ‘Quando vocês começam’? Devemos fazer um processo de seleção interno e discutir as bases. Entendemos que isso vai ser algo muito importante. A ministra [da Agricultura, Tereza Cristina] está na Índia e nós conversamos rapidamente por telefone. Eu ainda quero discutir com ela e Fernando Camargo primeiro essa questão. A gente abraçou a ideia e vamos tocar.

E onde ficará o escritório? Será para este ano ainda?

Será em Abu Dhabi. Nós queremos para este ano ainda.

Divulgação

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