Reitor de universidade do Líbano lança projeto no Brasil

Georges Hobeika, da Universidade Espírito Santo de Kaslik, fez palestra na Câmara Árabe para lançar programa de digitalização de documentos da imigração sírio-libanesa. ‘Seria um crime deixar esta memória se perder’, disse.

Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br

São Paulo – O reitor da Universidade Espírito Santo de Kaslik (Usek), do Líbano, o padre e professor Georges Hobeika, promoveu nesta quinta-feira (03) o lançamento oficial do Projeto de Memória da Imigração Sírio-Libanesa no Brasil, na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo.

O projeto é fruto de um acordo de cooperação assinado em fevereiro pela universidade e pela Câmara Árabe, e que prevê a digitalização de documentos que contem a história da imigração, como fotografias, certidões, cartas, jornais e revistas.

Georges Hobeika (esq.) e Roberto Khatlab em palestra na Câmara Árabe

“Vamos coletar os documentos possíveis, datados desde o século 19 até hoje, para recontar a memória da imigração na América Latina”, disse Hobeika em palestra. “Seria um crime deixar esta memória se perder”, acrescentou.

A Usek conta com infraestrutura para digitalização e realiza este trabalho há anos com documentos do próprio Líbano, e tem em andamento um convênio com famílias de origem sírio-libanesa para preservação da memória da imigração na Argentina. “É um trabalho contínuo”, afirmou o reitor à ANBA, explicando que acordos podem ser fechados com outros países depois do Brasil.

Como tem os equipamentos e a experiência na área, a Usek irá fornecer o maquinário e o treinamento para um profissional realizar este serviço no Brasil. A Câmara Árabe, por sua vez, vai contratar este funcionário e ficará responsável por coletar e depois devolver os documentos a seus donos.

O vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe, Riad Younes – que foi ao Líbano em fevereiro para visitar a universidade e assinar o acordo -, acrescentou que um dos objetivos do projeto, além da preservação, é “criar um banco de dados extenso com amplo acesso acadêmico”, ou seja, que possa ser consultado por universitários e pesquisadores que estudam o assunto. “Muitos documentos estão sendo estragados pelo tempo”, declarou. Segundo ele, a estrutura de digitalização da Usek é de alta tecnologia.

Hobeika acrescentou que o acervo digitalizado “é uma biblioteca que pode ser consultada a distância”. A iniciativa do projeto sobre a imigração é do Centro de Estudos e Culturas da América Latina da Usek (Cecal), dirigido pelo professor brasileiro Roberto Khatlab, que participou do evento desta quinta. Ele iniciou conversas sobre o tema há cerca de dois anos com a diretora cultural da Câmara Árabe, Sílvia Antibas, também presente ao encontro.

Projeto contínuo

O presidente da Câmara Árabe, Rubens Hannun, destacou que é um “imenso prazer” fazer parte desta iniciativa. “É um projeto contínuo da Câmara Árabe, em seus 65 de trabalho, divulgar a cultura árabe no Brasil”, ressaltou. Ele qualificou a parceria com a Usek de “extremamente importante” e já sugeriu sua ampliação no futuro para englobar toda a imigração árabe no Brasil.

Rubens Hannun: Câmara divulga cultura árabe no Brasil

Hannun lembrou que o Brasil recebeu e ainda recebe bem imigrantes árabes, e que estes estrangeiros e seus descendentes contribuíram muito para o desenvolvimento do País. Ele disse que é importante divulgar isso para os brasileiros de todas as origens. “Estamos dando um grande passo para que esta memória perdure para as próximas gerações”, afirmou.

Na mesma linha, Hobeika contou que sírios e libaneses começaram a deixar seus países rumo às Américas no final do século 19, primeiro para fugir do domínio do Império Otomano, depois para escapar do jugo de outras potências estrangeiras. “Viemos encontrar um refúgio”, declarou. “Desembarcamos com miséria, mas por meio de uma vontade de ferro de realizar algo, construímos impérios em vários campos”, acrescentou. Como exemplo, ele citou o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que visitou esta semana e que é referência nacional na área de saúde.

O reitor destacou que os sírios e libaneses contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico dos países onde se instalaram, e deu o exemplo também do engenheiro e professor Charles Elachi, nascido no Líbano e radicado nos Estados Unidos, que de 2001 a 2016 foi diretor do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês) da Nasa.

Hobeika disse ainda que a Usek é uma das instituições fundadoras da Liga das Universidades Árabes e que ele espera que o projeto de digitalização da memória da diáspora árabe possas incentivar outros países do Oriente Médio e Norte da África a fazer o mesmo.

Música

Younes foi ao Líbano assinar acordo

Ao apresentar o reitor, Riad Younes afirmou que Hobeika tem uma vocação e três paixões. A vocação é o sacerdócio, pois ele é padre maronita, e as paixões são o ensino, a pesquisa e a música. De acordo com ele, o padre e professor Hobeika é um erudito à frente da Usek.

Para encerrar, o professor libanês deu uma amostra de uma destas paixões e cantou uma música composta por ele mesmo, com ritmo oriental, utilizando como letra em árabe palavras de Santo Efrém, o Sírio, teólogo e poeta do século IV. Um trecho diz o seguinte, em tradução livre do árabe para o português: “De um única mesa, você (Deus) doa todos os dias para todos os seres tudo com sabedoria absoluta”.

Nas próximas semanas, a Câmara Árabe e a ANBA vão divulgar os contatos e endereço para que os interessados enviem documentos para digitalização.

Alexandre Rocha/ANBA
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