Um livro com realidade e ficção sobre árabes

Por meio de um romance no qual a personagem principal é uma filha de argelinos que vive na França, o jornalista Jamil Chade aborda a situação dos muçulmanos e a crise de identidade na Europa.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – Hagar é uma filha de imigrantes argelinos que morou na periferia de Marselha, na França, e conseguiu estudar nas melhores universidades do país. A trajetória profissional a levou até a Síria, onde foi trabalhar em uma multinacional, e se deparou com a guerra, em 2011. Essa é a trama criada pelo jornalista brasileiro Jamil Chade, no livro “O caminho de Abraão”, para abordar a situação dos muçulmanos e a crise de identidade na Europa.

No enredo de Chade, o trabalho de Hagar é coordenar investimentos milionários em uma fábrica na Síria. Mas o confronto a leva a cumprir ordens criminosas da direção da empresa e a filha de argelinos passa a tentar escapar da morte. A sua fuga repete o caminho que Abraão, patriarca de três religiões monoteístas, fez de forma mítica há milênios.

“Eu optei por escrever sobre a situação dos muçulmanos nas periferias da Europa, não só dos argelinos, mas em geral dos muçulmanos, por conta de uma crise bastante grave que existe hoje: a xenofobia e o racismo”, disse Chade em entrevista à ANBA.

Chade define o livro como uma denúncia do comportamento de uma parte da sociedade europeia. Esse comportamento, segundo ele, se entrelaça com a crise econômica da Europa e com a Primavera Árabe, a Guerra na Síria e a chegada dos refugiados no continente.

A Europa está em uma crise de identidade, em uma encruzilhada diante destas situações, de acordo com o autor.  “Existe a percepção, pelo menos de fora, que os direitos na Europa estão todos garantidos, e não é bem assim”, afirma o jornalista.

Chade, descendente de libaneses, levou um ano para escrever e editar o livro, mas conta que se baseou em dez anos de histórias, relatos e situações que viveu ou colheu ao longo de dez anos no trabalho como jornalista – desde que começou a crise econômica europeia, em 2008.

O jornalista é atualmente correspondente internacional do jornal O Estado de S. Paulo em Genebra, na Suíça, sede da Organização das Nações Unidas (ONU), de onde cobre conflitos e questões internacionais, como a dos países árabes e dos refugiados.

O mundo e a cultura árabe também fazem parte da rotina do jornalista em função da origem da sua família. A ascendência árabe vem dos avós paternos de Chade, que chegaram do Líbano para o interior paulista em busca de melhores condições de vida.

Livro é da Editora Planeta

O primeiro nome do autor – Jamil – já lembra a origem familiar, mas também os costumes culinários e a convivência com a comunidade árabe em São Paulo compõem esse conjunto. “Minha infância foi em parte no Clube Monte Líbano, rodeado pela comunidade árabe, libanesa, mas também síria, de São Paulo”, conta o correspondente.

Jamil Chade se formou em Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e fez mestrado no Instituto de Altos Estudos em Genebra. Desde o ano 2000 ele mora na Suíça e trabalha como correspondente do Estadão.

As viagens e coberturas no Oriente Médio ou a respeito da região foram várias e incluem desde as visitas de presidentes e chanceleres brasileiros a estes países, até coberturas das Cúpulas Países Árabes-Sul Americanos (Aspa), da Guerra da Síria, da queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, de assuntos da questão palestina, dos campos de refugiados e dos acontecimentos no Golfo.

“O Oriente Médio é um assunto que faz parte da minha agenda”, diz. Na Síria, país onde se passa parte da história do livro, Jamil Chade esteve antes e durante a guerra. Na Argélia, país de onde vem a família da personagem principal, o jornalista também já fez coberturas.

O livro foi publicado pela Editora Planeta e o seu lançamento acontece na noite desta quarta-feira (09) na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na capital paulista, com um bate-papo entre o autor e a jornalista Patricia Campos Mello, seguido de sessão de autógrafos.

Ele foi lançado apenas em português, mas o jornalista gosta da ideia de uma tradução para o árabe. “Seria algo bastante útil para fazer um diálogo entre esse ocidente que se questiona permanentemente, e os países e a cultura árabe, que poderiam entender um pouco mais do que está acontecendo na Europa em termos de crise de identidade”, diz Chade.

Ficha técnica:
Livro: O caminho de Abraão – Fé, amor e guerras em travessias separadas pelo tempo
Autor: Jamil Chade
Páginas: 304
Preço: R$ 45,90

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