Uma rua que é um pedaço do mundo árabe em São Paulo

A história da 25 de Março, no Centro de São Paulo, é um pouco da história dos árabes e seus descendentes que escolheram a cidade para morar. Entre eles, a família de Ragueb Chohfi, que hoje é nome de praça na região. O filho Lourenço Chohfi conta a trajetória dos negócios iniciados por seu pai, que se confunde com a da própria rua e com a economia da metrópole "que não pode parar". 

Geovana Pagel
geovana@anba.com.br

Geovana Pagel


São Paulo – O empresário Lourenço Chohfi, 79 anos, adotou como lema todos os ensinamentos deixados pelo pai, Ragueb Chohfi, que pertenceu às primeiras gerações de  imigrantes árabes no Brasil – tendo chegado ao país em 1904. "Ele teve sempre como princípio a honestidade. Nos ensinou a respeitar todas as pessoas e a desejar sempre o bem, até mesmo para os inimigos".


Segundo Lourenço, Ragueb trabalhou como mascate e dois anos depois virou comerciante estabelecido na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em seguida mudando-se para a Avenida da Consolação, ambas na região central da então provinciana São Paulo. "Foram anos de muito sacrifício e muito trabalho", relata.


Em 1922, o patriarca de origem síria abriu na rua 25 de Março a loja que seria o embrião da Companhia Têxtil Ragueb Chohfi, especializada no segmento de distribuição de tecidos. Seguindo os passos do pai, Lourenço começou a trabalhar na Tecidos Ragueb Chohfi aos 16 anos. Isso foi em 1941.


"No princípio, trabalhei como um simples funcionário de expedição e arrumação, passando após algum tempo a ocupar cargos de balconista, gerente e finalmente diretor da empresa", conta.


Naquela época, os anos 1940, ele conta que a 25 de Março "era formada por lojistas, todos imigrantes árabes. A maioria atacadistas de tecidos e armarinhos". As mercadorias, conta, "eram transportadas por carroças puxadas a burros e seguiam até as estações ferroviárias". Não à toa a rua foi batizada por alguns de "Pequena Bagdá".


O nome 25 de Março foi oficializado no princípio do século 20, numa referência à data da promulgação da primeira Constituição Brasileira, em 25 de Março de 1824, pelo Imperador D. Pedro I. Nos seus primórdios, a rua era um centro de produtos importados. Já na década de 1930, com a indústria nacional consolidada, tornou-se o grande centro de atacado e varejo que é hoje.


Shopping a céu aberto


Atualmente, os árabes e seus descendentes dividem o espaço com coreanos, portugueses, chineses. "Hoje a 25 de março, onde ainda existem diversos restaurantes e lojas que vendem produtos alimentícios típicos da culinária árabe, é um shopping a céu aberto, com aproximadamente 3 a 4 mil comerciantes, formando o maior centro de comércio da América do Sul", diz Lourenço.


Segundo ele, foi nos anos 1980 que começaram a surgir na região os primeiros comerciantes coreanos e portugueses. No início da década de 1990, chegaram os chineses, que importavam produtos fabricados na China.


De acordo com Lourenço, da metade da década de 1990 para cá, a 25 de Março "virou uma mescla de todas as raças, predominando ainda 30% de origem árabe". Isso porque os filhos da segunda e terceira gerações estudaram e se tornaram profissionais liberais (muitos são médicos e advogados) ou seguiram a carreira política, explica.


Aos poucos, os camelôs tomaram parte da rua, provocando uma redução em até  30% no comércio dos lojistas, relata o empresário. Porém, os preços praticados na 25 de Março ainda são em média 40% a 50% mais baratos do que em qualquer comércio.


A rua tornou-se um grande centro de decoração, produtos de cama, mesa, banho, vestuário, armarinhos, brinquedos e um dos maiores pólos mundiais de comércio de bijuterias. É freqüentada por pessoas de São Paulo, arredores, outros estados e até de outros países sul-americanos (argentinos, chilenos e bolivianos).


Transitam por lá diariamente de 400 a 500 mil pessoas, sendo que em época de festas (Páscoa, Natal, Dia das Mães), esse número pode chegar a 1 milhão.


Monumento e nome de praça


Ragueb Chohfi tornou-se nome de praça na região da 25 de Março que hoje abriga o Monumento à Amizade Sírio Libanês, oferecido à cidade pelas colônias síria e libanesa em São Paulo, por ocasião do centenário da independência do Brasil, em 1922, e mais tarde restaurado pela companhia têxtil Ragueb Chohfi.


"Um índio brasileiro no topo, uma moça sírio-libanesa e uma mulher que representa a República Brasileira. Na parte inferior um barco que representa o comércio feito pelos fenícios", explica Lourenço Chofhi. A obra é do escultor italiano Ettore Ximenez.


O monumento da amizade foi fundido no Liceu de Artes e Ofícios e "serve para as pessoas reconhecerem o passado e para que novas gerações conheçam história das famílias", ensina o empresário.


Vocação beneficente


Ele conta que a companhia fundada por seu pai atuou até os anos 1990. Por décadas, além da  matriz em São Paulo, possuía 14 filiais em vários estados, do Rio Grande do Sul ao Ceará, principalmente nos grandes centros agrícolas e cidades mais populosas.


Lourenço Chohfi também se inspirou no exemplo do pai, que foi conselheiro vitalício do Orfanato Sírio e participou da construção dos hospitais do Coração e Sírio-Libanês. O empresário e chefe de família, casado com Beatriz Jafet Chohfi, 3 filhos e 6 netos, também se destaca pelo trabalho em benefício de diversas instituições.


No Esporte Clube Sírio atuou como conselheiro, diretor social, 2.º vice-presidente, presidente da diretoria, membro do conselho de orientação, membro do conselho deliberativo e conselheiro vitalício desde 1975.


Já foi presidente da diretoria e ainda é membro do Conselho da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Ragueb Chohfi também foi presidente da casa, e o seu tio, Michel Chohfi, um dos fundadores.


Lourenço participou da Comissão de Finanças do Hospital Sírio-Libanês e foi conselheiro do Clube Homs. É conselheiro vitalício do lar beneficente do Sanatório Sírio.


O empresário garante que algumas frases do pai servem como guia e mantém a mesma força da época em que foram ditas. "Ele dizia que a pessoa só poderia vencer na vida com trabalho, honestidade e agradecimento a Deus, porque ele havia nos dado muito mais do que merecíamos. Portanto, deveríamos olhar sempre em frente com otimismo".

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