Acenos do Brasil a Israel podem contrariar consumidor árabe

Abertura de escritório em Jerusalém e possibilidade de mudança de embaixada podem causar reação negativa de consumidores e empresários da região, afetando o comércio. Avaliação é do secretário-geral da União das Câmaras Árabes, Khaled Hanafy. Embaixador da Palestina reitera que País deve se manter longe do conflito no Oriente Médio.

Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br

São Paulo – Mais do que qualquer retaliação oficial, os acenos do governo Jair Bolsonaro a Israel podem gerar contrariedade entre os consumidores e a comunidade empresarial árabe, afetando o comércio do Brasil com a região. A avaliação é do secretário-geral da União das Câmara Árabes, principal entidade empresarial do Oriente Médio e Norte da África, Khaled Hanafy (foto acima).

“Nós não queremos interferir na política externa brasileira, mas podemos aconselhar os brasileiros, pois conhecemos o mercado árabe, sabemos que os consumidores e empresários são muito sensíveis a este tipo de anúncio”, disse Hanafy à ANBA. “Eu receio que este tipo de anúncio possa prejudicar os negócios e o comércio entre os países árabes e o Brasil. Obviamente não estamos falando de nada político”, acrescentou.

A União das Câmaras é o braço da Liga dos Estados Árabes para o setor privado. A instituição tem como membros câmaras de comércio de todas as nações árabes e de fora da região, como a Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

A mudança da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém foi uma promessa de campanha de Bolsonaro, mas ao visitar o país há duas semanas, o presidente anunciou apenas a abertura de um escritório comercial na cidade. Tanto israelenses como palestinos reivindicam a soberania sobre a Jerusalém, e o aceno para Israel causou mal-estar do lado árabe, tanto que Bolsonaro e os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Agricultura, Tereza Cristina, participaram de um jantar com embaixadores árabes e islâmicos na semana passada, com o objetivo de acalmar os ânimos.

Da esq. p/ dir., Alzeben, Cristina, Bolsonaro e Araújo, no jantar

“O jantar foi uma oportunidade para iniciarmos um diálogo, que estávamos aguardando desde que o presidente foi eleito, nós já tínhamos solicitado um encontro, que somente ocorreu meses após a eleição”, afirmou à ANBA o embaixador da Palestina em Brasília, Ibrahim Alzeben, que é também decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil.

Segundo ele, o jantar serviu para “quebrar o gelo depois de declarações incômodas para os países árabes e islâmicos”. “Foi um bom início sobre o qual podemos construir um diálogo”, ressaltou. O diplomata agora espera um encontro formal de Bolsonaro e Araújo com os embaixadores árabes e islâmicos, pedido que foi feito durante o jantar. “Estamos aguardando confirmação, nós solicitamos que ocorra antes do Ramadã”, declarou. O Ramadã, mês do calendário muçulmano em que os fiéis jejuam do nascer ao por do sol, deve começar em 05 ou 06 de maio.

“Vamos conversar sobre um tema de interesse, que nos preocupa a árabes e islâmicos, e à Palestina, que está diretamente envolvida”, afirmou Alzeben. “Estão falando que o tema [da mudança] da embaixada ‘está de molho’, é um assunto que temos interesse que seja discutido e esclarecido”, disse.

O embaixador reiterou que o Brasil deveria manter distância do conflito entre Israel e Palestina. “Eu falei no jantar que o Brasil deveria ficar longe deste conflito, pois é um tema que está além do Brasil, é um tema internacional, de Direito Internacional, é um longo processo histórico, não é tema de um governo ou de outro”, ressaltou. “É um assunto que está nas mãos do Conselho de Segurança [da ONU], da Corte de Haia, do Tribunal Penal Internacional, não é algo que um país possa resolver. Nosso conselho saudável e amigo é para ficar longe, não precisa se imiscuir no tema de um lado. O mundo inteiro está de um lado [da questão] e os Estados Unidos de outro”, observou.

Os EUA, sob o governo de Donald Trump, mudaram sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, automaticamente reconhecendo a soberania de Israel sobre a cidade. A iniciativa foi seguida somente pela Guatemala.

“Quero esclarecer que o Brasil deve ficar longe do conflito, não de nós. Pode ficar perto de Israel, dos Estados Unidos e dos árabes. Que tire vantagem do mercado consumidor árabe, da tecnologia israelense, mas fique longe do conflito”, destacou Alzeben.

Sentimento

Hanafy (esq.) e Mourão se reuniram em janeiro

Hanafy esteve no Brasil em janeiro, quando se encontrou com o vice-presidente Hamilton Mourão e outros representantes do governo brasileiro. Alzeben também se reuniu com o vice no início do ano. Na época, Mourão disse que naquele momento o Brasil não pensava em mudar a embaixada.

Na semana passada, Araújo disse que o anúncio da abertura do escritório em Jerusalém para promover negócios com Israel não afetou o comércio com o mundo árabe, mas, desde que Bolsonaro foi eleito, profissionais da área de comércio exterior, representantes dos setores interessados nos negócios com o mundo árabe e a própria Câmara Árabe insistem que eventuais efeitos não serão sentidos em curto prazo, mas em médio a longo prazo.

“Quando o ministro insiste em anunciar que o comércio com os países árabes não foi afetado, deixe eu contar um fato: quando eu estive aí e me reuni com o vice-presidente, o anúncio feito pelo vice-presidente e por outras autoridades foi positivo, e isso levou a um aumento do comércio, isso levou os consumidores e empresários árabes a ter uma visão positiva sobre o tema”, declarou Hanafy.

“O que eu quero dizer é que os operadores do mercado árabe são muito sensíveis a anúncios de autoridades, especialmente com relação a Israel. Qualquer um que queira falar sobre este tema tem que atentar para a reação dos empresários e consumidores”, acrescentou. “Meu conselho para as autoridades é: por favor, tomem cuidado com anúncios sobre este assunto. O problema é dizer que os países árabes não serão afetados, ou que os consumidores árabes não serão afetados. Nós conhecemos o consumidor árabe, nós conhecemos os empresários árabes, e eles são muito sensíveis”, destacou.

Hanafy contou que recentemente esteve em Moscou com uma delegação de empresários árabes e alguns deles começaram a negociar a importação de grão da Rússia. “Pela experiência que temos com outros fornecedores, de outros países, é que quando os consumidores mudam sua preferência em relação à origem dos produtos, o retorno é muito difícil. E isso pode afetar não só os negócios no Brasil, mas os empregos e as pequenas empresas”, afirmou. “Novamente, meu conselho é: fiquem preocupados”, concluiu.

Rodrigo Rodrigues/Câmara Árabe
Alan Santos/PR
Divulgação

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