Descendente de árabe lança livro sobre imigração em Guaxupé

O filho de libaneses e juiz aposentado Romeu Abílio lança seu segundo livro, ‘Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas’, uma ficção histórica sobre a imigração sírio-libanesa na cidade mineira de Guaxupé.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – “O homem morre duas vezes, quando cessam suas funções vitais e quando ninguém mais fala seu nome”. É o que diz uma das primeiras passagens do livro “Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas”. Para o autor Romeu Abílio, “a ideia do livro é essa, não deixar nossa cultura morrer”, ressaltando a necessidade que sentiu de contar a história de seus antepassados e da imigração sírio-libanesa na cidade mineira de Guaxupé, situada a 420 quilômetros de Belo Horizonte e a 160 quilômetros de Ribeirão Preto, interior paulista.

A ficção histórica é o segundo livro do juiz aposentado e descendente de libaneses, com lançamento previsto para os próximos meses. Diferente do primeiro livro, “Lembranças Minurcas”, não-ficção documental que trata da imigração árabe na cidade do Sul de Minas Gerais, esta obra traz uma personagem fictícia que permeia as passagens históricas, Ibrahim Hanna, segundo o autor, “um alquimista, astrônomo e cozinheiro que voa com um tacho de cobre só com a força de seu pensamento”.

O livro que pretende resgatar a cultura sírio-libanesa em Minas Gerais traz uma série de histórias e anedotas sobre imigrantes no final do século 19 e início do século 20. De acordo com Abílio, a obra trata de famílias, do comércio, da religiosidade e do dia a dia dessas pessoas.

“A família do meu pai veio de Tell Aabbas, ou Monte Aabbas, no Líbano, em 1924, e a da minha mãe veio de Baino Akkar, em 1900. São mais de 400 famílias sírio-libanesas na cidade [de Guaxupé], e a maioria é cristã ortodoxa, vinda do Norte do Líbano, praticamente não vieram muçulmanos na época da Primeira Guerra Mundial”, contou, informando que a região também recebeu muitos imigrantes italianos na época. Guaxupé abriga uma igreja que é considerada por alguns historiadores como a primeira igreja cristã ortodoxa do Brasil, e essa religiosidade, segundo Abílio, está presente na obra.

O livro começa com uma passagem de Ibrahim Hanna em 1500, durante o descobrimento do Brasil, com referências aos fenícios e navegadores árabes do século 9, até que Hanna chega a Guaxupé, no fim do século 19. A personagem viaja no tempo.

Entre as histórias, Abílio destacou a anedota “Três Dedos”, que se refere aos três dedos (polegar, indicador e médio) bem juntados que os cristãos ortodoxos usam com a mão direita ao fazer o sinal da cruz. O conto fala de um sírio que perde o polegar direito e cria uma nova religião por conta do acidente.

Outro conto indicado por Abílio é “Vixe Maria!”, sobre uma senhora síria que vai se confessar e o padre, ao ouvir “pecados cabeludos”, profere as palavras do título em alto e bom tom, gerando curiosidade entre as pessoas da igreja.

Os dois livros de Romeu Abílio

Abílio conta também um pouco sobre a história da avó “chanclicheira”, ou artesã do chancliche, queijo típico norte-libanês que começou a ser produzido na região de forma artesanal no início do século 20 e hoje, em escala industrial, é um produto vendido em todo o Brasil. “Minha avó fazia as bolinhas de chancliche e andava 12 quilômetros a pé até uma cidade vizinha para vender; quando chegava em casa, dava o dinheiro para meu pai, que gastava tudo com jogo”, revelou o autor. Segundo ele, muitos homens libaneses na época tinham vício em jogos de carteado. “Ouvi histórias de muitos homens que fizeram fortuna e perderam tudo no jogo”, contou.

O livro relata também o envolvimento dos sírio-libaneses no início da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé. A Cooxupé conta com 14 mil cooperados e é considerada a maior cooperativa de café do mundo, além de ser uma das maiores produtoras de café do Brasil, responsável por cerca de 10% da produção total do País no ano passado.

Romeu Abílio é formado em História e Direito pela Universidade de São Paulo (USP), foi batizado como cristão ortodoxo e morou em seminário católico por sete anos. “Eu sou privilegiado, as coisas foram um pouco mais fáceis para mim porque fiz o seminário e depois vim para São Paulo estudar, e em seguida passei no concurso para a magistratura”, afirmou Abílio.

“A verdade é que a maioria dos árabes que veio para o Brasil era analfabeta e de origem pobre, vindo depois da Primeira Guerra Mundial, e não realizou o sonho de riqueza, apenas sobreviveu, salvo algumas exceções”, declarou, desconstruindo o mito de que todo sírio-libanês é rico.

O primeiro livro do autor, “Lembranças Minurcas” (neologismo que é uma junção entre mineiro e turco, como os árabes eram chamados), foi lançado em 2015.

Seu novo livro, editado pelo Instituto Paulista de Magistrados (Ipam), terá um lançamento no Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé (Unifeg), em Minas, em 29 de março, e outro em São Paulo, no Esporte Clube Sírio, em 13 de abril.

Ficha Técnica

“Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas”
Romeu Abílio, 2018
334 páginas
Instituto Paulista de Magistrados (Ipam)
ISBN 978-85-69031-16-1

 

 

Bruna Garcia/ANBA
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