*Por Marina Figueiredo
O viajante brasileiro está passando por uma transformação significativa, e isso já impacta diretamente a forma como escolhe destinos, experiências e até o modo como viaja. Não se trata apenas de uma mudança de preferências ou de tendências passageiras, o que se observa é uma evolução mais profunda na relação com a viagem. Ela deixa de ser apenas uma pausa na rotina para assumir um papel cada vez mais relevante na expressão de valores, interesses e estilos de vida.
Viajar nunca foi apenas mudar de lugar. Mas, nos últimos anos, esse conceito ganhou uma nova dimensão. A viagem deixou de ser vista como um produto para ser compreendida como uma experiência capaz de gerar memórias, conexões, aprendizado e transformação pessoal.
Essa mudança fica evidente na mais recente edição do Olhar Braztoa 2026, estudo que reúne a percepção das principais operadoras de turismo do Brasil sobre as tendências que estão moldando o mercado. O levantamento mostra que o viajante brasileiro está mais interessado em experiências autênticas, contato com a cultura local, natureza, bem-estar e vivências que expressem a identidade de cada destino.
Para destinos que desejam ampliar sua presença no mercado brasileiro, como os países árabes, compreender essa transformação deixou de ser uma vantagem competitiva e passou a ser um fator estratégico para desenvolver produtos, posicionamento e comunicação alinhados às expectativas desse novo viajante.
Não significa que praias, grandes cidades ou destinos tradicionais perderam espaço. Pelo contrário. O que mudou foi a forma como o viajante deseja conhecê-los. Hoje, ele procura histórias, pessoas, sabores e experiências que tornem aquela viagem única.
A autenticidade passou a ser um diferencial competitivo
Entre as tendências mais fortes identificadas pelas operadoras estão o turismo de natureza, a gastronomia local, as experiências culturais e a valorização da produção artesanal.
O viajante brasileiro quer conhecer mercados tradicionais, aprender receitas típicas, conversar com moradores, visitar pequenos produtores e compreender a história por trás de cada lugar. Quanto mais genuína for a experiência, maior tende a ser seu valor percebido.
Essa busca por autenticidade representa uma oportunidade importante para destinos que preservam sua identidade cultural. Países árabes, por exemplo, reúnem uma combinação rara de patrimônio histórico, hospitalidade, gastronomia, arquitetura, artesanato e tradições vivas que respondem exatamente a esse novo perfil de demanda.
O turista deseja compreender a cultura que os construiu.
A hospedagem também se tornou parte da experiência
Outra transformação importante observada pelo mercado brasileiro é o novo papel da hospedagem. O hotel deixou de ser apenas um local para dormir. Hoje, ele participa da construção da experiência da viagem.
Hotéis boutique, riads, pousadas de charme, acomodações integradas à natureza e empreendimentos que valorizam arquitetura, design e identidade local ganham cada vez mais relevância na decisão de compra.
O viajante procura lugares que contem histórias, ofereçam hospitalidade personalizada e permitam uma imersão no destino.
Essa tendência favorece especialmente destinos que possuem meios de hospedagem capazes de traduzir sua cultura, transformando a estadia em parte da própria viagem.
Luxo significa exclusividade, não ostentação
O conceito de luxo também mudou. Cada vez menos associado ao excesso, o luxo contemporâneo está relacionado ao acesso a experiências exclusivas, personalizadas e difíceis de reproduzir.
Ter um jantar preparado por uma família local, participar de uma cerimônia tradicional, explorar uma região pouco conhecida ou vivenciar um roteiro desenhado para pequenos grupos pode representar muito mais valor do que grandes estruturas ou serviços padronizados.
Essa tendência amplia as oportunidades para destinos capazes de oferecer experiências diferenciadas e de alto valor agregado.
O crescimento das viagens por afinidade
O mercado brasileiro também observa o fortalecimento das viagens realizadas por grupos que compartilham interesses em comum.
São roteiros organizados para amantes da gastronomia, fotografia, esportes, observação da natureza, bem-estar, história, cultura, música ou espiritualidade.
Esse movimento permite desenvolver produtos muito mais segmentados e alinhados aos interesses de públicos específicos, gerando maior valor para toda a cadeia turística.
Oportunidades para os destinos árabes
As transformações observadas no comportamento do viajante brasileiro dialogam de forma muito natural com aquilo que os países árabes têm a oferecer.
Em um momento em que os brasileiros buscam viagens mais autênticas, imersivas e transformadoras, a riqueza cultural do mundo árabe desponta como um diferencial genuíno. São destinos onde história, patrimônio, hospitalidade, gastronomia, tradições, artesanato e modos de vida preservam uma identidade única, capaz de proporcionar exatamente aquilo que o viajante contemporâneo procura: descoberta.
Descobrir uma cultura diferente da sua, caminhar por cidades milenares, experimentar sabores inéditos, conhecer saberes transmitidos por gerações, contemplar paisagens que vão do deserto às montanhas, dos oásis ao litoral, e vivenciar formas de hospitalidade profundamente enraizadas na cultura local transforma a viagem em algo muito maior do que um roteiro turístico. Torna-se uma experiência memorável.
Ao mesmo tempo, Brasil e países árabes vêm se aproximando cada vez mais. Seja pelo fortalecimento das relações comerciais, pelo intercâmbio cultural, pelo aumento da conectividade ou pelo interesse crescente em novas experiências internacionais, cresce também a curiosidade dos brasileiros por destinos ainda pouco explorados, mas que despertam fascínio justamente por serem diferentes, surpreendentes e autênticos.
Esse talvez seja um dos maiores ativos dos destinos árabes. Em um mercado onde muitos lugares buscam construir autenticidade como estratégia, eles carregam essa autenticidade em sua própria essência. Sua cultura, suas tradições, sua arquitetura, sua gastronomia e suas paisagens não precisam ser adaptadas para atender às tendências do turismo contemporâneo. Elas já representam, de forma genuína, aquilo que o viajante brasileiro passou a valorizar.
Esses destinos oferecem histórias para serem vividas, conexões para serem construídas e experiências capazes de permanecer na memória muito depois do retorno para casa.
Os dados do Olhar Braztoa mostram que o turismo caminha para um modelo cada vez mais orientado pela experiência, pela conexão humana e pelo significado. Para os destinos, isso representa uma oportunidade estratégica: compreender que sua maior vantagem competitiva não está em se parecer com outros lugares, mas justamente em valorizar aquilo que os torna únicos.
Porque, no turismo de hoje, aquilo que é verdadeiramente autêntico é também aquilo que o viajante mais procura.
*Marina Figueiredo é presidente-executiva da Braztoa
As opiniões emitidas nos artigos são de responsabilidade dos autores


