Abertura da China afeta exportações de carne para o Egito

Exportações brasileiras de carne bovina vão fechar o ano com recorde de US$ 7,5 bilhões, pela estimativa da Abiec, um crescimento de 13% sobre 2018.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – O Egito continua sendo o terceiro maior mercado da carne bovina brasileira, apesar de ter apresentado uma queda nos últimos meses, em parte devida à habilitação de novos frigoríficos para exportar à China, conforme informou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Camardelli, em coletiva de imprensa nesta terça-feira (10). O país perde apenas para a China e Hong Kong como importador do Brasil.

No acumulado de janeiro a novembro, as exportações para o país árabe caíram 3,39% em faturamento e 3,68% em volume, alcançando US$ 463,8 milhões e 158,56 mil toneladas. Novembro registrou a maior queda do ano. Foram vendidas apenas 4.957 toneladas a US$ 14,753 milhões, enquanto em novembro de 2018 foram 18.501 toneladas.

“A exportação mensal de 2019 para o Egito caiu bastante porque é um país de preço de volume, de produtos de preço médio-baixo. Como a carne aumentou muito nesses últimos meses, a gente tem sentido uma certa dificuldade, aí entra a possibilidade de uma reposição com carne da Índia pelo preço”, afirmou Camardelli.

Liège Nogueira, diretora executiva da Abiec, disse à ANBA que a China afetou as exportações para o Egito porque ambos compram o mesmo produto de carne bovina brasileira, as carnes culinárias e de ingredientes, de menor preço. “A única diferença é que a China tem essa exigência do gado até 30 meses de idade, e os outros países, no caso o Egito, é liberada essa questão, então você tem animais que não vão pra China indo para esses mercados. A China exige animais mais jovens”, explicou.

Segundo Camardelli, a China influencia a queda das exportações para o Egito e outros mercados. “Essa é uma questão de oferta e procura, se você tem uma demanda maior por um preço estável e uma operação comercial de sucesso, todo o ciclo de produção rentável, até hoje a gente não tem notícia de falha de pagamento”, falou o executivo sobre a China.

Camardelli, sobre China e Egito: questão de oferta e procura

Ele explicou que para a indústria é mais rentável vender em maior escala, por isso a China acaba tomando o mercado de outros países. “Às vezes tem produtos que são extremamente mais operacionais, por exemplo, o Egito e alguns outros países que têm um consumo maior de produtos mais baratos, é normal que te obrigue a trabalhar fazendo pacotinho de um quilo. E aí você vai para uma desossa e coloca uma equipe para fazer os pacotes, então [com a China] tudo vai te levando para um processo mais dinâmico”, informou.

“Uma outra linha que temos trabalhado com alguns países é o fornecimento para as forças armadas, estamos trabalhando com o Egito, recentemente tivemos uma oferta de licitação do Marrocos, mercado é mercado”, disse.

Emirados Árabes

No acumulado de janeiro a novembro, as exportações aos Emirados Árabes cresceram 135,11% em faturamento e 155,23% em volume, fechando em US$ 246,2 milhões e 67,9 mil toneladas, apesar de ter registrado queda nas exportações nos últimos três meses. O país árabe é o sexto maior mercado para a carne bovina brasileira.

“Em relação aos Emirados Árabes, ele sempre comprou a mesma coisa, essa variação positiva é por conta do que a gente está mandando para lá que também vai de caminhão para o Irã. Arábia Saudita, Jordânia e Turquia, leia-se que um grande percentual vai para o Irã. No caso dos Emirados, como Dubai é porto livre, você tem essa facilidade, manda para outros países como o Iraque, por exemplo”, disse o executivo.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita é o nono maior comprador de carne bovina do Brasil, e de janeiro a novembro foram exportadas 38.132 toneladas ao país árabe, com faturamento de US$ 128,29 milhões, queda de 30,6% em receita e 0,89% em volume.

A queda nas exportações para a Arábia Saudita se deve, segundo Camardelli, a algumas mudanças burocráticas. “Nós passamos por um período de algumas dificuldades por conta da mudança de processo da gestão deles, nos obrigamos a providenciar garantias de análises técnicas diferentes e também por conta de algumas modificações no processo de certificação. É um país extremamente interessante porque ele é um grande consumidor de cortes da roda, coxão mole, coxão duro, patinho, e isso dá um equilíbrio na cesta que tu vendes”, declarou.

Bloco árabe

Se considerado como um bloco, os 22 países árabes assumem a segunda posição no ranking de países compradores da carne bovina, na frente de Hong Kong. De janeiro a novembro, os árabes compraram US$ 1,1 bilhão em produtos de carne do Brasil, o equivalente a 337,34 mil toneladas, um crescimento de 9,3% em relação aos 11 primeiros meses de 2018, segundo dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. A China comprou US$ 2,17 bilhões no período.

Geral

As exportações brasileiras de carne bovina devem fechar o ano com recorde de US$ 7,5 bilhões de janeiro a dezembro, um crescimento de 13,3%. Em volume, a estimativa de alta é de 11,3% em relação ao ano de 2018, com 1,83 milhão de toneladas.

De janeiro a novembro, o acumulado foi de 1,673 milhão de toneladas, crescimento de 12,3% em relação aos 11 meses de 2018. Em receita, a alta foi de 12,6%, somando US$ 6,748 bilhões.

No mês de novembro, as exportações totalizaram 179.948 toneladas, volume 13,8% maior que no mesmo mês de 2018, enquanto o faturamento cresceu 36,7%, fechando com US$ 847,54 milhões.

“O Brasil hoje é o único dos players fortes que pode suprir volume, preço médio, qualidade, mas a gente tem todo um espaço para suprir essa demanda de preços muito mais rentáveis que é a carne gourmet”, disse Camardelli.

A previsão é que este ano as exportações fechem em 25% da produção total brasileira, porcentagem inédita para o País, que geralmente exporta entre 20% e 22% do total produzido.

Para o ano que vem, Camardelli afirmou que os preços devem se estabilizar e encontrar um ponto de equilíbrio para o mercado interno e externo. “Não vai ficar no preço desse soluço de novembro e dezembro, mas não vai voltar para os patamares de janeiro e fevereiro”, explicou.

A perspectiva para 2020 é de um crescimento estável de 15% no faturamento, com receita de US$ 8,5 bilhões, e de 13% no volume, ultrapassando 2 milhões de toneladas, puxados pela possível habilitação de novas plantas para a China e a abertura de novos mercados, como a Indonésia, além da manutenção dos mercados atuais.

 

Bruna Garcia/ANBA
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