Crítica: série árabe original da Netflix surpreende

‘Jinn’ mostra a liberdade da juventude jordaniana, entrelaçada ao misticismo dos ‘jinns’ (gênios), lenda ancestral do Oriente Médio. As paisagens de Petra são o cenário perfeito para dar o clima místico à série.

Bruna Garcia Fonseca
bruna.garcia@anba.com.br

São Paulo – A liberdade da juventude jordaniana se choca com o folclore ancestral em “Jinn”, primeira produção original árabe da Netflix, que estreou este mês no serviço de streaming. A série parece querer mudar a percepção que o mundo tem da juventude do Oriente Médio, trazendo um drama cheio de mistério, música, bebidas, drogas e relacionamentos. Atenção, daqui para frente tem *SPOILERS*.

Um grupo de adolescentes do ensino médio da escola Seven Hills Academy, de Amã, faz uma excursão para Petra, para conhecer a cidade milenar talhada nas montanhas de pedra vermelha. Antes mesmo de chegarem lá, a história dos jinns (gênios, em árabe) é mencionada por alguns personagens. Aparentemente, Petra seria um lugar místico e propenso à aparição das criaturas, que podem ser boas ou más, e tomam o corpo de humanos e animais.

Os jovens atores são iniciantes no mundo do cinema. A personagem principal é Mira, vivida por Salma Malhas, atriz palestina criada na Jordânia. Mira é uma jovem de postura progressista, que desafia o machismo estrutural de seus colegas e do par romântico Fahed (vivido por Yasser Al Hadi).

Mira adora música e sons, e na viagem a Petra leva um gravador para captar barulhos externos de carros passando, pessoas e animais, quando começa a ouvir Suspiros Estranhos (nome do primeiro episódio), e coisas inesperadas passam a acontecer. Um guia local conta que os jinns existem e podem ser ouvidos pelas paredes de pedra.

O valentão da escola, Tareq (Abd Alrazzaq Jarkas) agride Yassin (Sultan Alkhail) e o deixa preso em um buraco dentro das ruínas. Yassin se desespera tentando sair daquela situação, quando um escorpião pica sua mão. Depois de muito gritar, a adolescente Vera (jinn do mau vivida por Aysha Shahaltough) o resgata. Ali começa uma amizade duvidosa entre os dois.

No entardecer, uma das cenas mais bonitas da série é a Câmara do Tesouro de Petra (patrimônio mundial da Unesco) iluminada à luz de velas, com um guia contando histórias do local. Enquanto isso, os jovens vão para um local afastado nas ruínas para beber e fumar haxixe. Antes de irem embora, Tareq morre tragicamente, caindo de uma das montanhas. Antes de cair, ele recebe a aparição de um jovem beduíno (Keras, vivido por Hamzeh Okab) que tenta avisá-lo de sua morte iminente.

Tareq cai quando Mira está indo embora. Ela vê o corpo do colega e todos voltam abalados para casa. A garota não consegue conversar com o pai (Khaled, vivido por Eyad Hourani), um dos poucos homens sensíveis da série, no melhor dos sentidos. Ela ainda tem de lidar com a dor da perda de sua mãe e seu irmão – não entram em muitos detalhes, não se sabe o que de fato aconteceu, a não ser no último episódio, quando Vera diz que pode encontrar quem matou sua família. Ainda vivendo o luto, o pai tenta se aproximar da filha e não a castiga após o ocorrido.

Linguagem chula, álcool, haxixe, sexualidade e mistério envolvem a trama, tomada por uma masculinidade tóxica presente em quase todos os garotos, que xingam, brigam e ofendem em nome de “respeito” e ego. Há diversos conflitos entre os próprios garotos, e também com as personagens femininas da trama. Pode ser um retrato fiel da juventude jordaniana, bem como uma crítica aos costumes.

O beduíno Keras (se pronuncia Queirós) surge na casa de Mira – em um belo efeito especial de areia – e a avisa que ela é a única que pode salvar seus amigos, que correm perigo. Na manhã seguinte, a escola faz um velório para Tareq, e seu melhor amigo, Nasser (Mohammad Nizar), aparentemente possuído, tenta se matar com uma faca.

Em uma tentativa de ganhar audiência em sua rede social, Hassan (Zaid Zoubi) convence a professora Ola (Hana Chamoun) a voltar a Petra e descobrir o mistério dos jinns (episódio 4, #JinnHunter).

Os pontos altos da série são as sequências em Petra, a fotografia cuidadosa e os efeitos especiais nas aparições do jinn, com água e areia, além do desenho de som, que dá o tom à série. Mira e Keras tentam evitar que outros problemas aconteçam e a história vai revelando, até o quinto episódio, outros personagens possuídos pelo jinn, por forças malignas, como a amiga Layla (Ban Halaweh). Somente Keras é o jinn do bem, em teoria, que aparece para ajudar.

A primeira temporada termina em aberto, com o que a indústria chama de “cliffhanger”, um suspense para que haja interesse na próxima temporada. A Netflix ainda não anunciou se haverá segunda temporada.

A série vem causando controvérsia na Jordânia pelas cenas de beijos e uso de bebidas e drogas.

Divulgação/Netflix
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