*Por Daniel Gallego Arcas
Crescer na região da Andaluzia é conviver, desde cedo, com a presença constante da história. Em cidades, monumentos e paisagens, há marcas visíveis de um passado em que diferentes culturas coexistiram e produziram conhecimento de forma conjunta. Foi nesse contexto que tive meus primeiros contatos com o legado de al-Ándalus — não apenas como um tema de estudo, mas como parte viva do cotidiano.
Essa vivência pessoal torna ainda mais significativa a realização da exposição “Passeio Matemático por al-Ândalus” no Instituto Cervantes de São Paulo. A mostra nasce justamente do desejo de compartilhar com o público brasileiro um patrimônio que vai muito além da história europeia: trata-se de um legado universal, construído a partir do encontro entre culturas.
Durante mais oito séculos, a presença islâmica na Península Ibérica promoveu um dos períodos mais férteis de intercâmbio intelectual da história. Saberes oriundos do mundo árabe, do Mediterrâneo e do Oriente foram traduzidos, ampliados e integrados às tradições locais, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da matemática, da ciência e da filosofia no Ocidente.
Esse conhecimento se materializa de forma impressionante na arquitetura. Ao observar espaços como a Alhambra ou a Mesquita de Córdoba, percebemos que a matemática está presente em cada detalhe — nas simetrias, nas proporções, nos padrões geométricos que organizam e dão sentido às formas. Para quem cresceu na Andaluzia, esses elementos fazem parte da memória afetiva; para quem os descobre, tornam-se uma porta de entrada para compreender a profundidade desse legado.
A exposição propõe exatamente esse olhar: revelar como conceitos matemáticos fundamentais estruturam algumas das mais emblemáticas obras de al-Ândalus. Por meio de 24 painéis temáticos, divididos em três áreas geográficas – Granada, Sevilla e Córdoba – o visitante percorre um caminho que conecta arte, ciência e história, transformando a matemática em uma linguagem acessível e visual.
Mais do que apresentar conteúdos, a mostra convida à reflexão. Em um momento em que as diferenças culturais muitas vezes são vistas como barreiras, al-Ándalus nos lembra que o encontro entre povos pode ser um potente motor de inovação e progresso. Foi desse diálogo que nasceram avanços científicos que ainda hoje influenciam a forma como compreendemos o mundo.
Outro aspecto central é o compromisso educativo. Ao aproximar matemática, arquitetura e história, buscamos criar novas formas de aprendizagem, capazes de engajar públicos diversos. A exposição transforma conceitos abstratos em experiências concretas, estimulando o pensamento crítico e ampliando o repertório cultural.
Trazer essa iniciativa ao Brasil, em português e de forma inédita, reforça também a missão do Instituto Cervantes de promover o intercâmbio cultural e a circulação do conhecimento. São Paulo, com sua diversidade e dinamismo, oferece um ambiente especialmente propício para esse diálogo entre diferentes tradições.
“Passeio Matemático por al-Ândalus” é, em essência, um convite a olhar o mundo de outra forma. A reconhecer que a matemática não está apenas nos livros, mas nas cidades, nas formas e nas culturas. E, sobretudo, a entender que é no encontro entre diferentes saberes — como aquele que marcou a história de al-Ândalus — que se constroem os caminhos mais ricos para o futuro.
*Daniel Gallego Arcas é diretor do Instituto Cervantes de São Paulo. Nasceu em Motril (Granada), no sul da Espanha, na região da Andaluzia, e vive há 14 anos no Brasil.
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